Diário da Região
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Fernanda Montenegro e Gilberto Gil deixam ABL popular

Membros da Arlec e Abresc falam sobre as indicações dos novos imortais

por Rita Fernandes
Publicado em 17/11/2021 às 19:26Atualizado em 18/11/2021 às 08:24
Fernanda Montenegro foi eleita imortal aos 92 anos, com 32 votos (Divulgação / Globo)
Galeria
Fernanda Montenegro foi eleita imortal aos 92 anos, com 32 votos (Divulgação / Globo)
Ouvir matéria

A atriz Fernanda Montenegro e o músico e compositor Gilberto Gil foram eleitos os mais novos imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL) e serão empossados nas cadeiras 17 e 20, respectivamente, em março de 2022. As eleições foram as primeiras após a retomada das atividades presenciais, mas outros três nomes ainda devem ser escolhidos neste ano como imortais da academia criada em 1897, por Machado de Assis, entre outros.

O estatuto da ABL prevê que "só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário." Justamente por isso, Fernanda e Gil causaram frisson no meio cultural, já que a indicação de “rostos conhecidos” do grande público pode ser uma forma de arejar as ideias da ABL e deixar a instituição mais popular.

“A Academia Brasileira foi criada nos moldes da Academia Francesa, inclusive a sede é um Petit Trianon. Além disso, a rotina dos imortais não condiz com a vida do século 21, como tomar chá na sede”, destaca João Paulo Vani, presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc). “É importante que as representações oficiais, formais e simbólicas tenham a sua parcela de membros do mainstream. Com Fernanda Montenegro, Gilberto Gil e Paulo Coelho, a ABL diz para a sociedade: ‘nós queremos dialogar mais com vocês.’ A ABL não vai deixar de ser um baluarte da cultura, mas se coloca aberta ao diálogo e deseja ter mais proximidade”, observa Vani.

O historiador e membro da Associação Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec), o jornalista Lelé Arantes, diz que “o grande respeito que se tem pela ABL é justamente pelo fato de ser inatingível ou inalcançável”. “Se começar a colocar qualquer pessoa dentro da ABL, a instituição vai perder o glamour”, destaca.

Para o jornalista e crítico de arte Romildo Sant’Anna, membro da Arlec, a eleição de Gilberto Gil e Fernanda Montenegro contempla o pensamento de que “todo artista tem de ir aonde o povo está”. “Escreveram e escrevem uma história de alto nível para a cultura brasileira, consagram a identidade que faz do Brasil, o Brasil. Gil e Fernanda, antes de se sentarem na cadeira de imortais, já eram imortais no sotaque e idioma brasileiros. A ABL exprimiu a lição civilizatória de encurtar as distâncias entre as elites e o povo”, afirma o ocupante da cadeira número 01.

Já a escritora e tradutora Patrícia Reis Buzzini diz que a ABL é uma instituição que tem como objetivo resgatar e promover a língua e a literatura nacional. “Quando a gente entende que língua não é um código morto, e sim um sistema vivo, em constante mutação, que perpassa diferentes atividades humanas, como a música, artes cênicas, escrita e fala, a gente não se espanta com esse tipo de indicação”, afirma a chanceler da Abresc e ocupante da cadeira número 02 da Arlec.

Indicação é resultado das obras

Para muita gente, se tornar um imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) é um sonho distante. Já em nível municipal, o sonho é bem mais acessível. Segundo o presidente da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec), o advogado Alberto Gabriel Bianchi, para assumir uma cadeira basta ter livros publicados ou trabalhos culturais e artísticos. “É preciso que o candidato tenha um trabalho no sentido de fomentar a cultura para o público, em geral”, explica.

A principal dica da escritora e tradutora Patrícia Reis Buzzini, para quem quer se tornar um imortal da Alerc, é justamente não se preocupar com esse título. “A indicação que decorre de uma vida de dedicação a uma causa. O mais importante é se dedicar da melhor forma possível ao desenvolvimento cultural da sociedade, seja por meio da escrita, poesia, artes plásticas, artes cênicas, da música, contanto que deixe um legado significativo para as próximas gerações. A indicação é uma consequência”, diz.

Para exemplificar as palavras de Patrícia, Romildo Sant’Anna cita como exemplo a indicação de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil à ABL. “Fernanda e Gil já eram imortais antes de pertencerem à ABL. Este é o xis maravilhoso da questão”, destaca Sant’Anna. (RF)