Fantasia, terror e nostalgia lideram estreias nos cinemas de Rio Preto
Programação da semana mistura terror inspirado na internet, ação hollywoodiana e nova adaptação do clássico de Orwell; pré-estreias aquecem aquela saudade dos anos 1980 e 2000

O cinema entra na semana em modo de colisão entre passado e presente. Nas salas de Rio Preto, as estreias desta quinta-feira, 28, atravessam universos distintos: há o terror nascido da cultura digital, sátiras políticas revisitadas, ação explosiva e até uma comédia adolescente que brinca com a estética nerd contemporânea.
Enquanto isso, no horizonte da próxima quarta-feira, 3 de junho, duas pré-estreias já movimentam os fãs da nostalgia — “Mestres do Universo”, inspirado no universo de He-Man, e “Todo Mundo em Pânico 6”, que resgata o humor escrachado dos anos 2000.
LABIRINTOS
Entre os destaques da semana está “Backrooms: Um Não-Lugar”, terror psicológico inspirado na famosa lenda urbana surgida em fóruns da internet. O longa transforma em narrativa cinematográfica aquele pesadelo coletivo digital dos corredores infinitos, iluminados por lâmpadas fluorescentes e tomados por uma sensação permanente de vazio e ameaça.
A produção aposta menos em sustos fáceis e mais na construção de atmosfera claustrofóbica, aproximando o cinema mainstream de um imaginário típico da geração criada entre vídeos analógicos e fóruns online.
DISTOPIA
Outra estreia de peso é “A Revolução dos Bichos”, adaptação dirigida por Andy Serkis para o clássico político de George Orwell. A história acompanha animais que se rebelam contra os humanos em uma fazenda, apenas para descobrir que o poder pode reproduzir as mesmas distorções que prometia destruir. Serkis, conhecido pelo trabalho com captura de movimento em franquias como “O Senhor dos Anéis” e “Planeta dos Macacos”, investe em uma estética sombria para atualizar a crítica social e política do romance publicado em 1945.
ADRENALINA
No campo da ação, “Golpe Explosivo” chega mirando o público que procura adrenalina sem grandes pausas para reflexão. Perseguições, assaltos e reviravoltas estruturam o longa, que segue a tradição dos thrillers acelerados de Hollywood voltados ao entretenimento direto e imediato — aquele tipo de filme que parece feito para ser assistido com pipoca gigante e refrigerante industrializado sem culpa.
Já a produção nacional “Cansei de Ser Nerd” aposta na comédia juvenil. O filme acompanha personagens deslocados socialmente tentando sobreviver aos códigos contemporâneos de popularidade, internet e pertencimento. O humor mira tanto a cultura geek quanto os excessos das redes sociais, em uma narrativa voltada sobretudo ao público adolescente e jovem adulto.
FÉ
Fechando a lista, “O Poder do Rosário”, dirigido por Tiago Benetti, chega ao Centerplex Shopping Cidade Norte com temática religiosa. O longa investe em elementos de fé, superação e espiritualidade, acompanhando personagens que encontram no rosário um símbolo de transformação pessoal em meio a conflitos familiares e emocionais.
Curiosamente, a programação parece desenhar um retrato do cinema atual: enquanto novas produções tentam capturar medos digitais e tensões contemporâneas, boa parte do entusiasmo do público segue ancorada na memória afetiva. Hollywood percebeu isso faz tempo — e continua reciclando a infância de quem hoje já paga boleto.
No mundo de Eternia
A próxima quarta-feira, 3 de junho, chega aos cinemas de Rio Preto movida por um combustível poderoso: memória afetiva. Nas pré-estreias, “Mestres do Universo” e “Todo Mundo em Pânico 6” apostam menos na novidade e mais no reencontro emocional com públicos que cresceram entre desenhos animados da TV aberta, locadoras de VHS e comédias adolescentes vistas em DVD.
No caso de “Mestres do Universo”, a nostalgia vai além da imagem. Ela também vem da voz. Na versão dublada em português, Garcia Júnior retorna como He-Man, repetindo o personagem que marcou gerações de brasileiros nos anos 1980. Para muita gente, ouvir novamente o clássico do Trem da Alegria cantando “No mundo de Eternia, bem distante daqui...” talvez provoque um impacto tão forte quanto o próprio retorno de Eternia às telas. Hollywood entendeu algo importante: certas lembranças não moram apenas no visual — elas vivem no som, na dublagem, nos detalhes que ficaram guardados na infância.
A nova adaptação tenta equilibrar esse legado afetivo com a grandiosidade das franquias atuais. Castelos monumentais, batalhas épicas e criaturas fantásticas permanecem no centro da narrativa que parece mirar exatamente esse público que cresceu, envelheceu — mas ainda reconhece imediatamente o chamado de Grayskull.
ZOEIRA
Já “Todo Mundo em Pânico 6” revive outra memória coletiva: a era em que comédias absurdas dominavam o cinema popular dos anos 2000. A franquia retorna parodiando fenômenos recentes do terror, dos streamings e da cultura digital, mas sem abandonar o humor exagerado, escrachado e propositalmente sem filtro que transformou a série em um fenômeno entre adolescentes daquela geração.
Ambos os filmes parecem dialogar diretamente com um público que hoje já passou dos 40 anos: gente que troca memes no WhatsApp enquanto paga prestação, resolve boletos e tenta sobreviver ao cansaço cotidiano, mas ainda sente um pequeno arrepio ao ouvir certas vozes, trilhas sonoras e frases clássicas da cultura pop. O cinema descobriu que nostalgia não é apenas saudade. É mercado. E, às vezes, também é conforto. (SB)