Diário da Região
ONDE A TERRA FALA

Estação Cultural de Olímpia recebe exposição ‘Terra: Olímpia’, de Zilah Garcia

Mostra com curadoria de Agnaldo Farias articula memória, migração e identidade brasileira a partir de “Os Sertões”

por Salomão Boaventura
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
Zilah Garcia apresenta “Terra: Olímpia”  com 15 obras e mural inédito inspirado no muralismo mexicano (Maria Beatriz Nauiack/Divulgação)
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Zilah Garcia apresenta “Terra: Olímpia” com 15 obras e mural inédito inspirado no muralismo mexicano (Maria Beatriz Nauiack/Divulgação)
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Entre a seca e o pertencimento, entre o deslocamento e a permanência, a terra deixa de ser paisagem para se tornar matéria e memória. É a partir desse gesto — literal e simbólico — que a artista Zilah Garcia apresenta “Terra: Olímpia”, exposição individual em cartaz na Estação Cultural de Olímpia a partir de sexta-feira, 27, até março de 2027. Com curadoria de Agnaldo Farias, a mostra reúne 15 obras que investigam identidade nacional, diáspora nordestina e apagamentos históricos, tomando como ponto de partida o clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha.

A exposição dá continuidade a um projeto iniciado no Centro Cultural dos Correios do Rio de Janeiro, no começo de 2025, quando a artista mergulhou na primeira etapa de sua pesquisa sobre o Arraial do Monte Santo e o episódio da Guerra de Canudos. Ao revisitar fontes literárias, jornalísticas, relatos orais e manifestações da cultura popular, Zilah desloca o olhar para além do massacre do fim do século XIX, propondo uma leitura que reconhece a seca não apenas como fenômeno natural, mas também como questão política — elemento que ajuda a forjar não só a identidade nordestina, mas a brasileira.

Em Olímpia, o eixo investigativo se amplia. A mostra concentra-se nos fluxos migratórios nordestinos e na reconfiguração identitária no interior paulista ao longo do século XX. A escolha da cidade não é casual: destino de intensas migrações — inclusive da família da própria artista —, Olímpia consolidou-se como polo de preservação e reinvenção da cultura popular nordestina, sendo reconhecida como Capital Nacional do Folclore por meio da Lei Federal nº 13.566.

O núcleo da exposição é um mural inédito, de 3m x 5m, concebido especialmente para o espaço expositivo. A obra dialoga formalmente com o muralismo mexicano e investiga as tensões e potências de uma identidade construída simultaneamente no desenraizamento e na persistência cultural. Em sua produção, Zilah articula território, memória e matéria em um gesto que combina dimensão poética e comentário social.

“Essa mostra nasce da minha pesquisa sobre a terra, mas se expande para falar das pessoas que caminharam sobre ela. Ao tratar da trajetória dos retirantes que vieram do Nordeste para o interior de São Paulo, eu falo também da minha própria história e da minha família, da fundação de Olímpia e do sentido de pertencimento que me trouxe de volta à minha cidade natal para realizar minha primeira exposição individual no estado. Desenvolver obras especialmente para essa mostra, a pedido da Prefeitura de Olímpia, reforça ainda mais o vínculo afetivo e histórico que tenho com a cidade e com essa narrativa, o que me deixa extremamente feliz por este momento”, afirma Zilah Garcia.

Terra como matéria e linguagem

A série apresentada é composta por pinturas-objetos que incorporam tridimensionalidade por meio de um processo artesanal e experimental. A terra é o principal elemento construtivo das obras. Coletada em diferentes regiões do País, ela é misturada a pedras trituradas até se transformar em uma massa aplicada diretamente sobre a tela.

O efeito craquelado — que remete ao solo ressequido — resulta desse processo de secagem controlada. Para alcançar a consistência ideal, a artista utiliza instrumentos manuais, trituradores elétricos e até secadores de cabelo, ajustando o método conforme a natureza dos materiais encontrados. A seca, aqui, deixa de ser apenas tema e se converte em procedimento técnico, garantindo estabilidade e conservação das peças ao longo do tempo.

Em trabalhos como “Terra Ignota” e “Culto das Seis”, páginas de edições antigas de “Os Sertões” passam por impermeabilização antes de serem incorporadas à superfície terrosa, assegurando que o papel dialogue com os demais materiais sem perder integridade estrutural.

Serviço

A mostra “Terra: Olímpia”, de Zilah Garcia, com curadoria de Agnaldo Farias, fica exposta na ECO – Estação Cultural de Olímpia, localizada na rua Cel. José Medeiros, 477 – Patrimônio de São João Batista, a partir desta sexta-feira, 27, às 18h, até março de 2027. A visitação ocorre todos os dias, das 9h às 21h. Entrada franca | Classificação livre

Arquivo, paisagem e retorno

Obra "Terra Ignota" de Zilah Garcia que faz parte da mostra  "Terra: Olímpia" (Reprodução/Maria Beatriz Nauiack)
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Obra "Terra Ignota" de Zilah Garcia que faz parte da mostra "Terra: Olímpia" (Reprodução/Maria Beatriz Nauiack)

A exposição inclui ainda um filme que documenta a viagem da artista a Canudos, no interior da Bahia, no final de 2024. A projeção registra a paisagem descrita por Euclides da Cunha e evidencia como a experiência no território influenciou o desenvolvimento da pesquisa.

“As pinturas e instalações de Zilah Garcia, não representam a terra, elas são de terra, e com isso encurtam a distância entre arte e vida. Com a exposição de agora, Zilah demonstra que a beleza e a singularidade de Olímpia, como a de qualquer cidade, ultrapassa os limites da geografia, a fertilidade do chão, o encanto da paisagem local. Deve-se também a sua gente, as pessoas que ao longo do tempo chegaram até ela, trouxeram consigo a herança de seu passado e, alimentados pela esperança, fincaram suas raízes e cresceram. A poética de Zilah é assim, feita pela sobreposição da História à Geografia, do que restou do passado, fragmentos alegres e tristes, fertilizando o presente e o futuro.”, afirma Agnaldo Farias.

Natural de Olímpia, Zilah Garcia iniciou sua trajetória artística ainda na infância, em contato com o ateliê da mãe. Após quase três décadas dedicadas ao mercado de moda e estamparia, passou a concentrar-se nas artes plásticas há cerca de três anos. Estudou técnica de afresco na Itália e frequenta cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em 2024, realizou sua primeira individual na Casa Cor São Paulo. No ano seguinte, apresentou o projeto “Terra” no Centro Cultural dos Correios do Rio de Janeiro, marcando o início de uma pesquisa de fôlego que terá nova etapa prevista para a capital paulista após a temporada em Olímpia.