Espetáculo inspirado em Carlos Drummond será apresentado com entrada gratuita em Rio Preto
Protagonizado por Graziele Garbuio, solo “O Desaparecimento de Luísa” será apresentado no domingo, 8, às 19h, com entrada gratuita

Qual o paradeiro de Luísa Porto? A pergunta, lançada pelo imaginário inquieto de Carlos Drummond de Andrade, atravessou décadas para ganhar corpo e respiração no palco. Em Rio Preto, a personagem que habitava a Rua dos Santos Óleos ressurge em cena no espetáculo solo “O Desaparecimento de Luísa”, protagonizado por Graziele Garbuio, que será apresentado no domingo, 8, às 19h, no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto. A entrada é gratuita.
Fruto da inquietação artística da atriz diante do poema “Desaparecimento de Luísa Porto”, o espetáculo nasce de uma pesquisa iniciada em 2018, quando Graziele ingressou na Pós-graduação em Artes da Cena do Instituto de Artes da Unicamp. A semente do solo foi lançada em março de 2024, quando a artista iniciou o processo de criação em sala de ensaio.
“Este poema sempre teve um impacto muito grande em mim. Emocional mesmo! Por essa razão, entendi que queria representá-lo no teatro. O estudo que comecei sozinha virou projeto de espetáculo, e aqui estamos, com um trabalho original”, destaca Graziele.
A circulação faz parte do projeto Ações para não Desaparecer, contemplado pelo Edital Produção e Temporada de Espetáculo Teatral Inédito, do ProAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo. Ao todo, são 12 apresentações por cidades do interior e do litoral paulista, com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição. Em Rio Preto, a montagem conta com apoio da Secretaria Municipal de Cultura.
Do poema à cena
Transformar verso em ação dramática é tarefa que exige escuta fina. Para adaptar o poema, Graziele convidou a escritora, dramaturga e diretora Gabriela Guinatti. O desafio foi converter a densidade subjetiva da poesia em estrutura teatral.
“O maior desafio de adaptar um poema para a cena é que, ao fazer essa adaptação, precisamos encontrar nas entrelinhas do poema a ação que desencadeia a próxima, e assim sucessivamente, pois é dessa forma que se constrói um texto dramatúrgico. O poema parte do subjetivo, de uma palavra colocada para contemplar uma sensação. Já no texto dramatúrgico, é preciso que a palavra se some a uma ação, para que dela surja o movimento, a ação em si”, conta.
O resultado é uma fábula original, que preserva marcas caras ao universo drummondiano: ironia, imagens metafóricas, o dizer que sugere mais do que afirma e o compromisso crítico da arte. “Esse texto foi construído pensando em cada palavra. Quando a gente faz esse trabalho artesanal com a palavra no texto teatral, acaba tomando apreço por cada vírgula que está ali”, avalia Gabriela.
Muitas mulheres em uma
Em cena, Graziele interpreta diferentes personagens, entre elas Maria, mãe de Luísa, e Rita, sua melhor amiga. A multiplicidade exige precisão de gesto e de ritmo.
“Esses são os desafios da atuação e da encenação. Da atuação, porque necessito construir qualidades diferentes para cada uma delas, em transições rápidas. Da encenação, porque precisamos que todos os elementos do espetáculo, como som, luz e figurino, por exemplo, colaborem para construir essas transformações”, pontua.
Ao longo da narrativa, o mistério que envolve Luísa funciona como espelho. “A trama apresenta um mistério e mostra como ele se entrelaça com a particularidade dos indivíduos e suas histórias pessoais. É possível que cada espectador saia da peça com um pensamento próprio, uma percepção única. Ou, melhor dizendo, é possível que nossa história ecoe em cada um de um jeito diferente”, completa.
Mas quem é, afinal, Luísa? Para as criadoras, ela é uma das tantas mulheres que caminham anônimas pelas ruas: filha, amiga, sonhadora. Sua ausência levanta perguntas que ultrapassam o palco. “São profundas, complexas e abrangentes, como: por que determinadas coisas acontecem com determinadas pessoas? Por que escolhemos viver de uma forma e não de outra? Ou por que tratamos certas situações da vida e determinadas relações de um jeito e não de outro?”, instiga a atriz.
O espetáculo
Livremente inspirado no poema “Desaparecimento de Luísa Porto”, de Carlos Drummond de Andrade, o espetáculo narra episódios que envolvem a vida de Luísa, sua mãe Maria e sua melhor amiga Rita. Em uma manhã aparentemente comum, um acontecimento inesperado mergulha essas mulheres em um profundo mistério.