ENTRE MUROS E MEMÓRIAS

Tuike Souza transforma memória urbana em exposição que ocupa convento histórico de Barcelona

Com obras inspiradas nas cores do por do sol em Rio Preto, artista investiga a cidade como organismo vivo em mostra na Espanha

por Salomão Boaventura
Publicado em 07/04/2026 às 23:06Atualizado em 08/04/2026 às 11:15
Entre Barcelona e Rio Preto, Tuike Souza transforma memória em cor, como nos tons inspirados no pôr do sol do interior paulista presentes em “Ressonàncies Urbanes” (Arquivo Pessoal)
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Entre Barcelona e Rio Preto, Tuike Souza transforma memória em cor, como nos tons inspirados no pôr do sol do interior paulista presentes em “Ressonàncies Urbanes” (Arquivo Pessoal)
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Em um tempo de cidades aceleradas e imagens que se sobrepõem sem pausa, o artista visual rio-pretense Tuike Souza propõe o contrário: parar, respirar e observar. É desse gesto simples — e cada vez mais raro — que nasce “Ressonàncies Urbanes”, exposição que ocupa o Convent de Sant Agustí, em Barcelona, entre os dias 8 e 30 de abril, transformando o espaço histórico em um campo de diálogo entre passado e presente.

Memória

Radicado na cidade espanhola há cerca de dez anos, Tuike carrega na bagagem referências que vêm de muito antes — e de muito mais perto. “Morei na Itália e na Espanha entre 2003 e 2010. Depois disso, voltei para São José do Rio Preto durante cinco anos. Rio Preto é a cidade onde cresci, onde construí minha formação pessoal e profissional”, afirma. Mais do que lembranças afetivas, essas memórias seguem presentes na própria construção da obra. “São elementos que não vêm de referências externas, mas de memórias pessoais que acabam sendo incorporadas na minha construção pictórica. São informações que não estão nas bases de dados do Google.”

Essa relação íntima com o espaço é uma das bases do trabalho do artista, que, ao longo dos anos, passou a olhar a cidade não apenas como cenário, mas como estrutura. “A cidade deixou de ser apenas uma referência visual e passou a funcionar como um sistema de leitura”, explica.

Cidade

A exposição é uma intervenção pensada especialmente para o local — o que, no campo das artes visuais, se chama de “site-specific”. Na prática, significa que a obra foi concebida a partir das características do próprio espaço, estabelecendo um diálogo direto com a arquitetura do convento.

Esse encontro ganha força ao incorporar elementos históricos reais do edifício. “A obra não dialoga apenas com o presente urbano, mas também com o tempo acumulado no próprio espaço”, diz o artista, ao comentar a presença de uma parede original do convento, construída entre os séculos XIV e XVI, que integra a exposição.

Com estruturas tridimensionais revestidas por tecidos pintados, stencil e spray, “Ressonàncies Urbanes” articula referências da arte urbana com a materialidade da arquitetura. Os volumes funcionam como fragmentos deslocados da cidade, criando tensões visuais ao serem inseridos no interior do edifício histórico.

Em um dos núcleos, dominado por tons cinza, surgem marcas que remetem a muros urbanos atravessados por intervenções e apagamentos sucessivos. Já em outra estrutura, a cor ganha protagonismo ao evocar experiências pessoais do artista. “Nesta exposição, em algumas das obras a cor usada representa a tonalidade do céu durante o pôr do sol de Rio Preto, aquele tom entre o laranja e o vermelho que transforma completamente a paisagem”, afirma.

DESACELERAR

A proposta da mostra também dialoga com o ritmo contemporâneo das grandes cidades. Para Tuike, a aceleração cotidiana afeta diretamente a forma como as pessoas percebem o espaço urbano. “Na minha rotina diária, passo constantemente pela Sagrada Família e, muitas vezes, não paro para realmente observar uma arquitetura tão singular”, relata. “Em um desses dias, ao sair do metrô, tive um momento de consciência que me fez perceber essa necessidade de parar, sentar e simplesmente observar o entorno por alguns minutos”, completa.

A partir dessa percepção, a exposição surge como um convite à desaceleração. “É um convite para que o visitante dedique tempo à observação e se permita uma relação mais atenta com o espaço.”

Formado em arquitetura, o artista incorpora ao processo criativo uma lógica que transita entre planejamento e experimentação. “Em alguns momentos, o processo se aproxima de uma lógica arquitetônica, passando por etapas como esboço, projeto e execução”, explica. Ao mesmo tempo, a prática mantém espaço para o acaso, em um equilíbrio entre controle e liberdade.

Entre as obras apresentadas, uma das que melhor sintetizam a proposta da exposição é “Ressonàncies urbanes 002”, em que cor, matéria e figura humana se articulam como elementos de uma mesma paisagem. “A cidade reverbera em nós na mesma medida em que passamos a nos inscrever nela”, resume.

A mostra tem abertura no dia 9 de abril, às 18h30, e inclui visita guiada com o artista no dia 15, às 19h.