Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ALEGORIA EM CARNE VIVA

Companhia Cênica, de Rio Preto, estreia ‘Boi Material’ com sessões gratuitas em Araçatuba

Espetáculo dirigido por Pedro Kosovski tem apresentações acessíveis em Libras e atividades formativas

por Salomão Boaventura
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Montagem da companhia rio-pretense propõe reflexão sobre poder, arte e exploração a partir da figura do boi (Higor Arco/Divulgação)
Galeria
Montagem da companhia rio-pretense propõe reflexão sobre poder, arte e exploração a partir da figura do boi (Higor Arco/Divulgação)
Ouvir matéria

A imagem do boi — ora símbolo de força, ora de exploração — ganha contornos políticos e poéticos no espetáculo “Boi Material”, que estreia na cidade de Araçatuba com a proposta de tensionar as engrenagens de poder que atravessam arte, trabalho e existência. A montagem da companhia rio-pretense Cênica, dirigida pelo dramaturgo e encenador Pedro Kosovski, transforma o palco em uma espécie de arena simbólica onde artistas e público são convidados a encarar o jogo — e, quem sabe, subvertê-lo.

As apresentações acontecem no Centro de Tradições Afro de Araçatuba (CTAA), no sábado, 18, às 19h, e no domingo, 19, às 18h, com entrada gratuita e acessibilidade em Libras.

Ambientado em uma feira de exposição, o espetáculo parte de uma situação aparentemente banal: artistas contratados para entreter o público. Aos poucos, no entanto, essa estrutura se revela como parte de uma engrenagem maior, que reproduz relações de dominação e impacto direto sobre as formas de vida. Em meio a um leilão de gado — atravessado pela iconografia do boi na pintura brasileira —, os papéis se embaralham: os intérpretes ora assumem o lugar dos donos da terra, ora ensaiam possibilidades de ruptura.

A dramaturgia, assinada por Kosovski em parceria com Fagner Rodrigues, não segue uma narrativa linear. Em vez disso, constrói um percurso fragmentado, sustentado por imagens, deslocamentos e transformações de cena que apontam para a imaginação de outros mundos possíveis.

O elenco reúne Andrea Capelli, Beta Cunha, Christina Martins, Deivison Miranda, Fabiano Amigucci, Geovanna Leite, Glauco Garcia, Mayk Ricardo, Simone Moerdaui e Vanessa Palmieri. A direção musical é de Felipe Storino, com composições inéditas; a direção vocal, de Everton Gennari; e a direção de movimento, de Mayk Ricardo.

A encenação aposta na sobreposição de sentidos visuais. A cenografia de Lidia Kosovski e os figurinos de Fabiano Amigucci evocam, inicialmente, um ambiente que remete a um frigorífico — espaço de assepsia e controle —, onde os artistas se confundem com trabalhadores e, em certa medida, com os próprios bois. Ao longo da peça, surgem outras camadas, incluindo referências a figuras de poder e elementos míticos, reforçadas por figurinos que dialogam com cortes de carne bovina e expõem o corpo dos atuantes.

Para a equipe artística, o boi sintetiza uma ambivalência central: de um lado, representa estruturas de poder marcadas por exploração; de outro, aponta para a potência criativa e coletiva que emerge das margens.

“A figura do boi também cria um horizonte de visibilidade e debate sobre o lugar dos artistas no interior, também inscrito nessas ambivalências. A distância dos grandes centros de cultura os aparta sob alguns aspectos, especialmente pela manutenção de estereótipos que fazem subestimar suas potencialidades. Contudo, ajuntamentos artísticos interioranos seguem resistindo e desorganizando tais estereótipos por meio da sua arte, de seus modos de produção e da criação e fortalecimento de redes de articulação e afeto”, considera a equipe artística de forma conjunta.

Além das apresentações, o projeto prevê ações formativas. Após cada sessão, o público é convidado para o bate-papo “Sobre mundos possíveis”, com discussão sobre o processo criativo e os temas da obra.

No sábado, 18, às 14h, a atriz Beta Cunha conduz a oficina gratuita “Boi Material – reflexões e práticas sobre a potência da coletividade”, no Centro Cultural Associata. Voltada a artistas, estudantes e interessados a partir de 16 anos, a atividade propõe compartilhar procedimentos desenvolvidos durante a criação do espetáculo. As inscrições são online pelo formulário https://forms.gle/g1HYLyGXeKLyXCAc9.

‘Boi Material’ integra o projeto “Boi Material – Interior capital”, contemplado pelo Edital Fomento CultSP – PNAB nº 27/2024, que prevê circulação por cidades do interior paulista, com apresentações e atividades paralelas.

A montagem também marca o reencontro da companhia com Pedro Kosovski. Em 2019, os artistas trabalharam juntos na leitura dramática de ‘J’ai bien fait? (Fiz bem?)’, da autora francesa Pauline Sales, experiência que abriu caminho para uma colaboração mais ampla — agora concretizada no espetáculo.