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A VIOLA E O IMPROVISO

Cia Arte das Águas estreia espetáculo de rua inspirado na música sertaneja raiz em Ibirá

“Migalhas e Misérias em Mi Menor”, da Cia Arte das Águas, revisita o universo de Tião Carreiro e Pardinho misturando palhaçaria, crítica social e música caipira

por Salomão Boaventura
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Montagem da Cia Arte das Águas reúne cinco palhaços à margem da sorte para discutir arte, sobrevivência e memória caipira (Guilherme Di Curzio/Divulgação)
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Montagem da Cia Arte das Águas reúne cinco palhaços à margem da sorte para discutir arte, sobrevivência e memória caipira (Guilherme Di Curzio/Divulgação)
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Entre modas de viola, promessas de patrocínio que nunca chegam e a poeira simbólica das praças do interior, cinco palhaços tentam manter de pé um espetáculo que parece sempre à beira do colapso. É desse território entre o riso e a precariedade que nasce “Migalhas e Misérias em Mi Menor: Um Musical Mentiroso”, novo espetáculo de rua da Cia Arte das Águas, que estreia na terça-feira, 26, às 19h30, na Praça da Prefeitura de Ibirá, com entrada gratuita e acessibilidade em Libras.

Inspirada no universo da dupla Tião Carreiro e Pardinho e na tradição da música sertaneja raiz, a montagem aposta na linguagem da palhaçaria e da farsa poética para discutir sobrevivência artística, autenticidade e os conflitos entre memória afetiva e revisão crítica do passado. Após a apresentação, haverá bate-papo entre elenco e público sobre o processo de criação.

Com texto e músicas originais de Antonio Bucca, o espetáculo transforma clássicos caipiras e composições inéditas em fio condutor de uma narrativa marcada pelo humor ácido e pela reflexão social. Em cena, a companhia procura tensionar aspectos naturalizados em parte do cancioneiro sertanejo tradicional, como o machismo e a violência contra a mulher.

A proposta, segundo os criadores, é revisitar símbolos do chamado “Brasil raiz” sem recorrer ao saudosismo automático. Em determinados momentos, a obra contrapõe “a viola que encanta” à “viola que silencia”, numa tentativa de revelar contradições escondidas sob a nostalgia popular.

A direção é de Fabiano Amigucci, da Cênica, de Rio Preto, parceiro antigo da companhia em montagens como “Mazzaropi, um certo sonhador” e “A Vaca Lelé”. O retorno do encenador à Arte das Águas acontece após um intervalo de dez anos e marca uma nova aproximação da companhia com temas contemporâneos.

O elenco reúne Antonio Bucca, Duda Silva, Laisa Anselmi, Rian Gimenes e Victor Castioni, acompanhados pelos músicos Diego Guirado, no violão, e Márcia Morelli, na viola e percussão. A direção musical é de Dagoberto Feliz, fundador do grupo Folias, de São Paulo.

Também integram a equipe Ana Paula Mendonça, responsável pela preparação vocal e arranjos; Ricardo Moisés, nas melodias; Bete Dorgam, no treinamento de palhaçaria; e Linaldo Telles, na preparação corporal. O cenário é assinado por Léo Bauab e o figurino por Isaac Ruy.

“Em Migalhas e Misérias em Mi Menor: Um Musical Mentiroso, o público é convidado a participar de uma experiência que desconstrói o ‘Brasil Raiz’ para revelar o que pulsa por trás da cortina: as políticas públicas culturais, a fome de arte, a coragem de dizer a verdade e a reinvenção necessária das nossas origens”, reflete Bucca. “Uma obra vibrante, musicalmente rica e profundamente conectada com as feridas e as belezas do Brasil de hoje”, acrescenta.

Vivência gratuita

Além da estreia, a programação do projeto inclui a vivência gratuita “Música caipira: a tradição sertaneja”, também na terça, 26, às 9h30, na sede da companhia. A atividade propõe uma imersão nas tradições musicais presentes no repertório do grupo, a partir de memórias e referências da cultura caipira. Voltada a todos os públicos, a ação oferece 30 vagas e duração de 90 minutos.

As atividades fazem parte do projeto “Tião Carreiro e Pardinho, os Musicais”, realizado por meio do Edital Fomento CultSP PNAB nº 22/2024, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e do Ministério da Cultura. Ao todo, dez cidades paulistas recebem ações da circulação até 6 de junho.

A companhia também prevê transmissões ao vivo das atividades pelo canal da Arte das Águas no YouTube, além de oficinas online sobre direção, dramaturgia, figurino, cenário, voz e música. O vídeo completo do espetáculo ficará disponível na plataforma por 12 meses, com recursos de acessibilidade.