SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 2022
'GÊNIOS SÃO IMORTAIS'

Jô Soares deixa personagens memoráveis e obras para a posteridade

Criador de personagens memoráveis que fizeram os brasileiros rir até nos momentos mais difíceis, Jô Soares deixa também para a posteridade obras que atestam sua genialidade como multiartista

Agência Estado
Publicado em 06/08/2022 às 00:26Atualizado em 06/08/2022 às 09:20
O apresentador, escritor, humorista e diretor Jô Soares, um dos artistas mais populares do Brasil (Divulgação)

O apresentador, escritor, humorista e diretor Jô Soares, um dos artistas mais populares do Brasil (Divulgação)

As cortinas se fecharam para Jô Soares, aos 84 anos, na madrugada desta sexta-feira, 5. Mas o apresentador, escritor, humorista e diretor, que estava internado desde o dia 28 de julho no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, segue imortal na pele de personagens memoráveis que fizeram o brasileiro rir mesmo quando o mundo parecia não ter graça nenhuma, e também por sua obra em vários outros campos da arte e da literatura. Em publicação nas redes sociais, Flavia Pedras Soares, ex-mulher do apresentador, fez uma singela homenagem. “Viva você meu Bitiko, Bolota, Miudeza, Bichinho, Porcaria, Gorducho. Você é orgulho pra todo mundo que compartilhou de alguma forma a vida com você. Agradeço aos senhores Tempo e Espaço, por terem me dado a sorte de deixar nossas vidas se cruzarem”.

A história de Jô Soares

Nascido José Eugênio Soares em 16 de janeiro de 1938, Jô Soares estudou em Lausanne, na Suíça. Pensava em ser diplomata e aprendeu várias línguas, o que lhe deu sólida formação cultural e intelectual. Viu televisão pela primeira vez em 1952, nos Estados Unidos, e começou a trabalhar no veículo seis anos depois, aos 20, escrevendo e atuando nas peças policiais de TV Mistério, programa da TV Rio protagonizado por Paulo Autran, Tônia Carrero e Adolfo Celi.

Mas só seria apresentado ao público como comediante pouco tempo depois, na TV Continental, e a capacidade de fazer rir o levaria a todos os canais de TV do Rio de Janeiro na época. Em 1960, substituiria José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a convite do próprio, na redação do Simonetti Show, da TV Excelsior. Já na Record, em 1966, escrevia e atuava no lendário Família Trapo, sitcom que depois inspiraria tantas outras e faria a glória de Ronald Golias, Renata Fronzi, Renato Corte Real e Zeloni, além do próprio Jô. A redação era dividida com Carlos Alberto de Nóbrega, com quem combinava as cenas que caberiam a um e a outro, cada um na sua casa. Quando se encontravam, juntavam as duas partes e todo o enredo se encaixava perfeitamente, sem necessidade de ajustes.

Depois de ensaiar por algumas vezes sua saída da Record, Jô, que em 1969 foi processado pelo regime militar, estrearia na Globo em 1970. “Eu queria um programa de humor com uma nova cara”, relata Boni, ex-chefão da emissora, em seu livro de memórias, O Livro do Boni. E continua: “Tinha um nome pronto na cabeça: ‘Faça Humor, não faça a guerrra’. Havíamos contratado também o Renato Corte Real e o incluímos no projeto. As reuniões se sucederam com o Augusto César Vanucci, o Jô, o Renato, o Haroldo Barbosa, o Max Nunes e o João Lorêdo.” O horário era o das noites de sexta, na vaga que antes cabia a Dercy Gonçalves. E, se Dercy alcançava, naquela época, 60% dos lares com televisão, Jô bateu nos 70% e Boni foi celebrado até pelo patrão, Roberto Marinho. Faça Humor, não Faça a Guerra ficou por três anos no ar e foi substituído por Satiricom, que durou mais três anos, sucedida por Planeta dos Homens, que seguiu liderando a audiência pelos cinco anos seguintes.

Foi em 1981, ainda segundo o próprio Boni, que Jô sugeriu que já fosse hora de ter um programa todo seu. Nasceu daí o Viva o Gordo, que lançou personagens lendários, alguns deles atuais mesmo hoje. Com maquiagem e figurino a caráter, Jô fez barulho como o Capitão Gay e Norminha, entre outros.

Em 1987, Jô pleiteou à direção da Globo, ainda na figura de Boni, um talk show. Não houve acerto e ele se mudou para o SBT, levando consigo seu fiel redator Max Nunes e também o programa humorístico, lá rebatizado como Veja o Gordo. Boni o ameaçou, chegou a dizer que ele não poderia usar a palavra “gordo”, e Jô respondeu com um longo e bem argumentado texto no “Jornal do Brasil”, lido também durante o Programa Silvio Santos, já seu novo patrão.

Anos depois, os dois retomariam a amizade. “Gritei, fiz ameaças, mas prevaleceu o carinho que sempre tive pelos dois (Jô e Max Nunes)”, relata Boni. “Porém, profissionalmente, comprei a briga. Criei a sessão de cinema Tela Quente, que incinerou o Veja o Gordo, fazendo com que o programa saísse do ar”, completa.

Sem o humorístico, Jô passou a se dedicar integralmente ao programa de entrevistas, que cresceu, apareceu e se tornou referência do gênero na TV brasileira, mesmo que cenário e formato em muito lembrassem a matriz americana, com Johnny Carlson, da poltrona à caneca. Entre 91 e 92, foi uma das vitrines mais fortes para a crise política que levaria o então presidente Fernando Collor ao impeachment, e essa postura seria cobrada do programa por todas as ocasiões seguintes em que a política merecesse foco prioritário.

Em 2000, Jô voltou para a Globo, com o mesmo talk show e estrutura melhor de cenário e equipe. Junto, levou seu quinteto, que anos depois se tornaria sexteto, os diretores Diléa Frate e Willen Van Verelt, e, de novo, Max Nunes, amigo que perdeu em junho (2014).

Desde sempre, sua trajetória televisiva foi acompanhada de expediente permanente no teatro, dirigindo outros ou, durante um bom tempo, montando seus próprios espetáculos, precursores que foram - no caso dele e de Chico Anysio - dos chamados stand up de hoje.

Ninguém foi mais eclético do que Jô Soares. Ele também se debruçou sobre a produção literária, ao criar livros como O Astronauta Sem Regine, O Xangô de Baker Street!, que virou filme, O Homem que Matou Getúlio Vargas e Assassinato na Academia Brasileira de Letras. Esteve em clássicos do cinema como “O Homem do Sputnik (!959), de Carlos Manga, ao lado de Norma Bengel.

Vida pessoal

Jô, eternizado em seus inesquecíveis bordões, teve algumas mulheres. Foi casado com Teresa Austregésilo, apresentadora da TV Tupi, com Flavinha, que viria a se tornar sua melhor amiga, e namorou as atrizes Cláudia Raia e Mika Lins. Deixa um filho.

Já de volta à Globo, foi acusado, por longo período de falar mais que o entrevistado, o que contestava. Foi vítima do quadro Sandálias da Humildade, do Pânico, e não era exatamente conhecido por sua simpatia. Não que não fosse simpático. Era, e sabia como seduzir seus interlocutores com seu vasto repertório. E não negava algum egocentrismo, vá lá.

Em 2000, quando atendeu ao convite de Boni para escrever um depoimento para o livro 50/50 (Ed. Globo), organizado para celebrar os 50 anos da TV, registrou lá: “Devo confessar que me senti lisonjeado quando fui convidado para integrar este projeto, mas, sinceramente, acho que a minha participação não é a mais adequada. Digo isso sem falsa modéstia, pois com meus 115 quilos, sou um exibido’ pela própria natureza. Também por força da própria profissão, já que a exerço numa vitrine.”

Em processo de redução de peso, obra dos cuidados com sua saúde, Jô na época dizia que era “mais artista que intelectual”. “Trabalho mais com a intuição do que com a razão. A TV não me preocupa, me ocupa.”

Levou humor à literatura

Jô Soares foi um multiartista que brilhou também na literatura. Seus livros, tramas policiais com altas doses de humor, tornaram-se best-sellers nacionais, como Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (Companhia das Letras), de 2005, em que o autor coloca em xeque o termo “imortal’, usado na instituição para designar os membros da ABL.

Foi com o Xangô de Baker Street, de 1995, que Jô Soares se solidificou na literatura, sobretudo no gênero policial (... e humorístico). Antes do romance, ele publicou O Astronauta sem Regime (L&PM), em 1983, esgotado no catálogo da editora desde então. Livrinho curto, com menos de 100 páginas, já mostrava a habilidade do ator em crônicas rápidas e influenciadas pelo estilo das piadas que fazia na televisão. Vale lembrar que o humorista foi cronista de jornal, manteve uma coluna no caderno Ilustrada na década de 1980, em que escrevia sobre causos do cotidiano sem a leveza dos escritores populares do gênero na imprensa.

O estilo de Jô Soares na prosa publicada na imprensa é típico do showman: são frases muitas vezes curtas, impactantes, continham sarcasmo e ironia. O ritmo de O Astronauta Sem Regime foi comparado à prosa de Millôr Fernandes (1923-2012), escritor que Jô confessou ter admiração. Afinal, quem mais, além de Jô Soares, poderia fazer piada com a Lua Cheia?

Nas décadas de 1980 e 1990, Jô participou de coletâneas com outros humoristas, com textos publicados em Humor Nos Tempos do Collor (1992) e A Copa Que Ninguém Viu e a Que Não Queremos Lembrar (1992), sobre o fracasso da seleção brasileira na edição do torneio de futebol de 1990.

Em meados daquela década, quando a editora Companhia das Letras expandia seu catálogo, Jô Soares foi um dos nomes que a casa apostou. E deu muito certo. Ao mesmo tempo, o autor mergulhou no universo da literatura durante as pesquisas para seu primeiro romance, O Xangô de Baker Street, lançado em 1995. Best-Seller que influenciou obras seguintes, como O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998).

Entrevista em seu icônico Talk Show Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Nair Belo (Divulgação)

 
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