Grupo Realejo celebra 45 anos com o show 'Linha do Tempo'

Grupo se apresenta no Sesc Rio Preto com o show “Linha do Tempo”, que percorre diferentes fases da trajetória autoral

por Salomão Boaventura
Publicado em 17/03/2026 às 23:33Atualizado em 18/03/2026 às 11:47
César Meneguete, Luiz Jardim, Erico Ferreira, Lory Ferreira, Rogério Siri, Bene Ferreira, Sérgio Rufino, João Pazini e Hamilton Thomé em ensaio para o show “Realejo: 45 anos - Linha do Tempo” ( Edvaldo Santos 16/3/2026)
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César Meneguete, Luiz Jardim, Erico Ferreira, Lory Ferreira, Rogério Siri, Bene Ferreira, Sérgio Rufino, João Pazini e Hamilton Thomé em ensaio para o show “Realejo: 45 anos - Linha do Tempo” ( Edvaldo Santos 16/3/2026)
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Ao longo de 45 anos, o Grupo Realejo construiu uma trajetória marcada pela música autoral e pelo diálogo com as raízes da MPB. Esse percurso ganha forma no espetáculo “Realejo: 45 anos - Linha do Tempo”, que chega ao palco do Teatro do Sesc Rio Preto no sábado, 21, às 20h, e domingo, 22, às 18h, como um convite à memória e à escuta.

Rodeado por amigos, o trio revisita canções que ajudaram a contar sua própria história — e também a de quem os acompanha desde os anos 1980. Foi nesse período que Lory Ferreira, Benê Ferreira e César Meneghette começaram a desenhar a identidade artística do grupo, com composições que dialogam com a música popular brasileira e trazem influências da música mineira, da valsa e do cancioneiro caipira paulista.

Os ingressos podem ser adquiridos pelo Aplicativo do Sesc ou na Central de Atendimento da instituição por R$ 15, para credencial plena; R$ 25, meia-entrada e R$ 50, inteira.

TRAJETÓRIA

Ao longo das décadas, o Realejo marcou presença em festivais de música pelo País e consolidou seu nome como um dos mais representativos da cena regional. Mesmo com pausas e caminhos individuais, a retomada da formação original reafirma um vínculo que atravessa o tempo e se mantém vivo na criação artística.

Para Lory Ferreira, esse reencontro também revela aquilo que permaneceu como essência do grupo.

“O Realejo sempre manteve uma linha de não se prostituir por um tostão, mantendo a qualidade musical. Essa frase é de um de nossos parceiros de caminhada, o Sidney Olivio, no documentário do Realejo. O grupo se manteve muito fiel à qualidade, tanto poética como musical. O que o público vai ver no palco do Sesc vão ser as pessoas do início do Realejo”, conta.

Mais do que um show comemorativo, “Linha do Tempo” se apresenta como uma espécie de manifesto. “O repertório percorre diferentes fases da banda, reunindo composições que abordam desde memórias da infância até reflexões sobre a vida adulta e temas como igualdade, justiça e paz”, pontua Lory.

REPERTÓRIO

Entre as músicas apresentadas estão “Régio”, “Asa”, “Faltando Alguém”, “Navegador”, “Sonho de Adulto”, “Sou Brasileiro”, “Velhas Canções” e “Raimundo Rei”. Com direção artística de Pedro Ganga, o espetáculo conta ainda com participações especiais de Sérgio Rufino e Miltinho Ediberto, além de um tributo ao “Clube da Esquina”, movimento surgido no fim dos anos 1960 e uma das principais influências do grupo.

Benê Ferreira destaca que a escolha do repertório funciona como um retrato da trajetória, mas também das transformações ao longo do tempo.

“A escolha foi pensada exatamente sobre as músicas mais significativas do grupo, neste longo período. Temos várias canções que foram compostas e que até já fizeram parte de set list em outros shows; no entanto, pautamos por aquelas mais antigas e mais orgânicas que representam a sonoridade pura do Realejo”, explica.

Para Benê, o passar dos anos também trouxe novas camadas de interpretação às músicas. “Sentimos que algumas delas necessitavam de uma nova cor, por exemplo a canção ‘Anjo’ que ganhou um novo significado nos arranjos; o tempo fez com que mudássemos a interpretação sem deletar a característica da música; e o resultado está sendo interessante. ‘Raimundo Rei’ também ficou fortalecida com algumas alterações pontuais nos arranjos finais. Estamos satisfeitos e felizes com as mudanças”, afirma.

Origens do som do Realejo

A sonoridade do Realejo, marcada por elementos regionais, constrói um diálogo que ultrapassa fronteiras locais e encontra ressonância em diferentes públicos. Ao mesmo tempo em que preserva suas origens, o grupo mantém aberta a possibilidade de novos encontros e leituras.

César Meneghette lembra que a identidade do grupo nasceu justamente desse cruzamento de influências.

“O Realejo nasceu do encontro de jovens em festivais, o primeiro festival que rolou foi na engenharia, onde o Lory e o Benê se encontraram. Eles vêm fazendo as letras e as músicas muito inspirados em coisas mineiras, como o pessoal do Clube da Esquina, que marcou muito a nossa geração, na parte musical. A gente pegou um pouco também daquela época que entrou o Tarancón, com instrumentos como Zampoña e Charango, começando aquele movimento meio América Latina, com músicas andinas. A Folia de Reis, a viola e as congadas que a gente via em fazenda também juntou à nossa música”, diz.

“Além disso, tem muita coisa ligada à infância, pois nós três, mas principalmente os compositores Lory e Benê, são de famílias de trabalhadores, pessoas que sempre lutaram muito. Então, tem muita coisa de infância, quando jogavam bola, corriam nas ruas de terra. Nós pegamos aquela Rio Preto que só o Centro tinha calçamento e a periferia era toda descampada, era várzea. Acho que todos esses fatores influenciaram”, completa.

Ao celebrar 45 anos, o Realejo reafirma um compromisso construído com o tempo: o de fazer música com cuidado, coerência e atenção ao entorno. “Linha do Tempo” não se limita a revisitar o passado — aponta para a continuidade de um trabalho que encontra, na própria trajetória, matéria para seguir em frente. (SB)