Grupo Urban Sketchers Rio Preto celebra 10 anos com exposição inédita na Casa de Cultura Dinorath do Valle
Mostra reúne registros feitos ao longo de uma década e revela diferentes olhares sobre a cidade

Há cidades que se deixam ver na sombra de uma praça, na fachada de um prédio antigo, no movimento apressado de quem passa. Em Rio Preto, esse olhar atento ganhou forma em cadernos, traços e aquarelas ao longo da última década. É esse percurso que a exposição “Urban Sketchers Rio Preto, 10 anos – Narrativas Urbanas em desenhos à mão livre” apresenta ao público, até o dia 29 de maio, na Casa de Cultura Dinorath do Valle.
A mostra reúne trabalhos produzidos desde 2016 por integrantes do Urban Sketchers Rio Preto, grupo que faz parte de um movimento internacional dedicado ao desenho de observação feito diretamente no local. Mais do que técnica, a proposta é registrar o cotidiano de forma espontânea, captando não apenas a imagem, mas a experiência de estar naquele espaço.
O OLHAR
A arquiteta e urbanista Letícia Ravagnani, que faz parte do grupo desde 2017, conta que não imagina melhor maneira de registrar lugares ou coisas que não seja por meio do desenho. “Para mim, é a possibilidade de estar imersa no mundo que me cerca, valorizada pela observação atenta que o desenho exige. Assim como escrever ajuda a memorizar o conteúdo lido, desenhar ajuda a salvar coisas na memória”, diz.
“Mesmo como observadora profissional, já que minha profissão assim o exige, o USK me faz parar e aprofundar meu olhar sobre a cidade; fiz muito isso na faculdade. É uma forma de ver as muitas camadas do lugar, a marca do tempo na fachada, a gambiarra que conta uma história de uso, a árvore que cresceu ignorando o planejamento original, e também o cotidiano, as vidas ali presentes, as rotinas, a cidade viva. É um exercício de empatia urbana”, completa.
O recorte exposto evidencia a diversidade de estilos, suportes e interpretações. Há registros de pontos conhecidos da cidade, cenas do dia a dia e também incursões pela região. Em comum, os desenhos carregam uma dimensão narrativa: são relatos visuais que conectam memória, vivência e paisagem urbana.
O GRUPO
Criado em 2016, o grupo surgiu a partir da mobilização de artistas e interessados em desenho de observação, impulsionados por oficinas e pela troca com outros coletivos do País. Desde então, mantém encontros regulares, sempre gratuitos e abertos ao público, nos quais participantes de diferentes níveis de experiência se reúnem para desenhar juntos.
A prática segue princípios compartilhados globalmente pelo movimento Urban Sketchers, como o compromisso com a observação direta e o registro fiel do ambiente. Não há restrição de materiais ou técnicas — o foco está na experiência e na construção de um olhar próprio sobre a cidade.
Ao longo desses dez anos, o grupo realizou dezenas de encontros em Rio Preto e também em municípios vizinhos, ampliando o alcance da iniciativa e fortalecendo a conexão entre artistas e comunidade. A exposição, nesse sentido, funciona como um panorama dessa trajetória, reunindo fragmentos de diferentes momentos e lugares.
LINGUAGEM ACESSÍVEL
Além da celebração, a mostra reforça o desenho como linguagem acessível e como ferramenta de valorização do patrimônio cultural; algo que, para Letícia, ganha força justamente na diferença em relação à fotografia.
“A fotografia é a fração de um segundo. O desenho leva tempo para ser feito. Enquanto desenhamos, o sol muda de posição, as sombras se movem e as pessoas passam. O desenho final não é o registro de um único momento, mas a síntese de uma ou duas horas de convivência com aquele espaço. Ele carrega a experiência do lugar. A fotografia mostra o objeto. O desenho mostra o olhar. É a transição do ‘isso existe’ para o ‘eu estive aqui e percebi isso’”, conclui.