Trump não foi à Copa pois está ?ocupado?, diz chefe da força tarefa nos EUA
VIRGÍNIA, EUA (UOL/FOLHAPRESS) - A fase de grupos da Copa do Mundo já terminou e até agora o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prometeu presença no torneio, não apareceu em nenhum jogo em território norte-americano. Tampouco esteve no México ou no Canadá, os outros dois países anfitriões do evento. A ausência deve se repetir na partida desta quarta-feira (1º), às 21h, entre Estados Unidos e Bósnia, pela segunda fase do Mundial. O jogo acontece no São Francisco Stadium, na Califórnia.
Segundo Andrew Giuliani, diretor executivo da Força-Tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo de 2026, a ausência do republicano não tem qualquer relação com problemas de segurança, e se deve, em parte, à indisponibilidade de agenda do presidente e, em parte, ao seu cálculo político.
"Conheço Trump há quase 30 anos e ele gosta de criar expectativa. Então, por enquanto, só posso dizer: aguardem", afirmou Giuliani, filho do ex-prefeito de Nova York e aliado do presidente, Rudy Giuliani, ao ser questionado pela imprensa sobre o assunto.
"A ausência dele não tem relação com qualquer incidente de segurança. Ele simplesmente está muito ocupado, com eventos como o UFC, as comemorações dos 250 anos dos EUA e outras questões nacionais e internacionais", disse Giuliani, mencionando o torneio de lutas de MMA que Trump promoveu na Casa Branca no dia de seu aniversário de 80 anos e que teria sido alvo de um plano de ataque impedido pelas forças de segurança e as festividades em torno do 4 de julho, data da independência dos EUA.
Trump esteve com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, mais de "uma dúzia de vezes desde sua eleição em novembro de 2024", segundo Giuliani, e "continua muito envolvido com a Copa".
O presidente atuou diretamente para conquistar a condição de anfitrião do Mundial de 2026 durante seu primeiro mandato e, em agosto do ano passado, em um evento no Salão Oval da Casa Branca, chegou a dizer que pretendia tomar para si o troféu da Copa. "Essa é só para vencedores, mas como você é um deles, você também pode pegá-la", disse Infantino, na ocasião.
Por isso, a falta de engajamento de Trump na torcida nos jogos chamou a atenção de parte dos espectadores norte-americanos. Grande fã de esportes, Trump chegou a marcar presença em um jogo de basquete da final da NBA dias antes da abertura da Copa e acabou vaiado e não deixou de jogar golfe já com o torneio da Fifa em andamento. Ele segue sendo esperado na final da Copa, em 19 de julho, em Nova Jersey, mas sua agenda não prevê outras aparições no mundial até o momento.
IRÃ
A Copa, porém, ficou marcada pelas políticas e decisões do presidente dos EUA.
Nos dias que antecederam o início do torneio, Trump buscou com intensidade um cessar-fogo mais duradouro com o Irã, mas um acordo sobre o conflito só foi fechado com a Copa do Mundo em andamento. A guerra com o Irã representou um marco histórico para a Copa do Mundo: foi a primeira vez na história que um anfitrião esteve em conflito com um país convidado para o torneio. Por conta disso, o Irã, eliminado na fase de grupos, enfrentou uma série de restrições em sua participação no torneio. E o país foi excluído da coalizão de 46 países montada pelos EUA para garantir a segurança do torneio.
Mesmo jogando seus três jogos em território norte-americano, a seleção iraniana teve que estabelecer sua base na cidade mexicana de Tijuana. E só pôde entrar nos EUA com um ou dois dias de antecedência às partidas, o que gerou reclamações do time.
"Esta é uma Copa do Mundo desastrosa", disse o capitão da seleção do Irã, Mehdi Taremi, que criticou Infantino por prometer resolver as questões logísticas da equipe e falhar, segundo ele. Integrantes da delegação foram retidos algumas vezes em aeroportos.
Andrew Giuliani negou que o Irã tenha sido prejudicado pela dinâmica imposta ao time pelas questões de segurança dos EUA.
"Houve muita discussão em torno da seleção iraniana por causa do conflito e de tudo o que estava acontecendo. O que posso dizer é que, na força-tarefa da Casa Branca, buscamos garantir igualdade de condições para que eles pudessem competir, ao mesmo tempo em que assegurávamos a segurança da equipe, de seus torcedores e também dos torcedores adversários", disse Giuliani.
Segundo ele, as decisões sobre a chegada do time um dia antes dos dois jogos em Los Angeles e dois dias antes do último jogo, em Seattle, foram tomadas um mês antes do início do torneio, embora os vistos para os iranianos só tenham sido expedidos às vésperas da estreia da seleção na Copa.
Giuliani classificou como "corajosas" as atitudes dos jogadores do Irã de agradecerem a hospitalidade na Califórnia e se dizerem honrados de competir na Copa. "Entendemos que essa seleção pode ser controversa para algumas pessoas. Mas eu vejo aqueles atletas como jogadores que querem competir. Nosso papel foi garantir que eles tivessem uma oportunidade justa de disputar a competição em igualdade de condições. Acredito que isso foi possível graças à liderança do presidente Donald Trump", disse Giuliani.
HOSPITALIDADE
Não só os iranianos enfrentaram restrições de acesso ao território norte-americano. O torneio ficou marcado pela deportação do árbitro somali Omar Artan, que estava devidamente credenciado pela Fifa e que recebeu pagamento pelos jogos que deixou de apitar durante a Copa pela política migratória do governo Trump.
Em outro incidente, o craque da seleção iraquiana Aymen Hussein foi interrogado por sete horas em sua chegada aos EUA.
Políticas de restrição de vistos a dezenas de países tampouco foram relaxadas para acomodar a entrada de fãs, apesar do discurso de unidade mundial pelo futebol da Fifa.
E houve ainda muita tensão em relação à possibilidade de atuação do ICE, a polícia imigratória dos EUA, que tem feito operações ostensivas para capturar e deportar o máximo possível de imigrantes indocumentados, promessa de campanha feita por Trump. Desde o início da gestão, o governo do republicano tem retirado do país entre 30 mil e 40 mil pessoas por mês. Antes do início do torneio, porém, as autoridades de segurança descartavam operações do tipo durante a Copa, nas cercanias dos estádios, o que até agora foi cumprido.
"Muitas pessoas disseram que esta Copa não seria bem-sucedida por causa da política de imigração legal defendida pelo presidente Trump. Nós acreditamos que uma política de imigração é fundamental para manter a Copa segura e bem organizada. Ao mesmo tempo, criamos muitos caminhos legais para que torcedores viessem aos Estados Unidos", disse Giuliani, em uma espécie de balanço informal do torneio até agora.
Giuliani citou especificamente Brasil e Argentina como exemplos de países em que os serviços consulares foram intensificados para agilizar a concessão de vistos para os torcedores. E disse que os números de pessoas nos estádios desmentem as "narrativas políticas".
"Até agora, os estádios registram ocupação superior a 99%. O torneio já bateu o recorde de público, com quase um milhão de espectadores a mais do que a edição anterior", disse Giuliani, para quem "a hospitalidade é a marca desta Copa", a despeito das dificuldades de visto e dos altos custos dos ingressos, os mais caros da história.
Giuliani sugeriu ainda que a Copa deve servir como um exercício de soft power para os EUA, que enfrentam uma crise de imagem internacional depois de decisões de Trump como a imposição de tarifas a mais de uma centena de países incluindo aliados históricos e o fim de auxílios internacionais e da agência Usaid, uma presença de décadas dos EUA em países africanos e asiáticos.
"Quando conversei com o presidente Trump pela primeira vez sobre a Copa, em março do ano passado, falamos muito sobre o legado que esse evento deixaria para os Estados Unidos", disse Giuliani, que concluiu: "Na minha opinião, não existe palco maior para mostrar o excepcionalismo americano e as oportunidades que os EUA oferecem ao mundo".