Seleção joga a Copa em nome de 'mil motivos' e um acerto com a história
RIO DE JANEIRO, RJ, E NOVA JERSEY, EUA (UOL/FOLHAPRESS) - "A gente já tem mil motivos para correr, ganhamos um a mais", foi um trecho do discurso de lamento do volante Bruno Guimarães após o corte de Wesley, na semana que antecedeu a estreia do Brasil na Copa do Mundo.
O dia do jogo contra o Marrocos está as portas. Sábado, às 19h (de Brasília), é a hora de começar a correr para valer. Mas o que, dentro desses mil motivos, é possível identificar na seleção?
Quando Neymar falou com os colegas no vestiário, por ocasião do amistoso contra o Panamá, no Maracanã, uma das frases usadas foi: "A gente tem que ter na cabeça, como meta, é fazer história".
Por mais que o termo seja um certo clichê no mundo esportivo, essa, de fato, é uma discussão que está em jogo na seleção atual.
A história entra na equação porque o Brasil está há 24 anos sem ganhar a Copa do Mundo. Já igualou o jejum antes de 1970 e 1994, até agora o maior vivido pelo Brasil em Copas. Se as coisas derem errado agora, o jejum saltará para 28 anos.
O UOL apurou que esse componente está, sim, sendo tema nas conversas dos jogadores e da comissão técnica nos bastidores da seleção. A busca por uma alegria à torcida depois de tantos anos.
É muito tempo sem ganhar. E mais do que isso: tem uma parcela significativa dessa seleção que sabe só o que é perder. O que acrescenta uma dose de drama e memória traumática.
Há 15 remanescentes da última Copa: Alisson, Weverton, Danilo, Marquinhos, Casemiro, Alex Sandro, Lucas Paquetá, Raphinha, Bruno Guimarães, Vini Jr., Martinelli, Fabinho, Ederson, Bremer e Neymar. Oito deles devem ser titulares contra o Marrocos.
É uma escolha, se isso será um peso ou não. É uma escolha que cada atleta faz e nós como equipe escolhemos com que isso nos fortaleça. A gente não vai conseguir escolher como vai ser a nossa circunstância, as coisas ao nosso redor, mas a gente tem controle com as nossas decisões, como a gente vai lidar com cada situação. Nós escolhemos aqui que isso nos fortaleça e nos unisse ainda mais. Principalmente os jogadores mais experientes, que em determinados momentos tiveram que assumir uma responsabilidade maior do que um jogador já tem Alisson
Há dimensões coletivas e individuais para o aspecto histórico. Neymar, por exemplo, está na "última dança". Já tem três Copas em que lidou com a frustração de ficar pelo caminho.
Danilo e Alisson se frustraram em duas e também tratam a competição como última chance.
"E eu vou encarar como se fosse a última oportunidade, porque o futuro a Deus pertence. A gente não sabe o que vai acontecer no dia deste sábado (13)", acrescentou o goleiro, que será titular pelo terceiro Mundial consecutivo.
Se Neymar e outros jogadores que nasceram em 1992 (como Casemiro) conseguem pelo menos se lembrar do que foi o penta em 2002, a seleção também tem a parcela daqueles que nem do título mais recente conseguem/estavam vivos para se lembrar.
Vini Jr tinha dois anos em 2002. Danilo Santos, apenas um. Endrick e Rayan? Longe de nascer ambos são de 2006.
Para os jovens que se viram como gente já durante o jejum, a Copa 2026 é a chance de consolidação, de mostrar a que vieram no futebol. Com mais ou menos badalação na Europa ou na base vide Igor Thiago, um título pode catapultá-los à eternidade.
E o mister? Carlo Ancelotti também tem sua questão para resolver com a Copa. Como jogador, não foi a 1982 (quando a Itália foi campeã) porque machucou o joelho. Em 1986, foi reserva. Em 1990, começou como titular, mas se lesionou de novo. Em 1994. era assistente técnico da Azzurra que perdeu a final nos pênaltis para o Brasil.
Tem muita gente nessa seleção que quer acertar suas contas com a história. Ancelotti até tem contrato renovado para tentar de novo em 2030, independentemente do que aconteça. Mas outros na delegação não terão esse privilégio.