Rivalidade com Argentina começa aqui, mas racismo a piora, diz sociólogo
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Não há apaixonado por futebol no Brasil que, desde a eliminação do Brasil na Copa contra a Noruega, não tenha se deparado com discussões sobre qual equipe deveria apoiar agora.
Ou, mais precisamente, com os inesgotáveis argumentos para se torcer contra a Argentina, que aumentavam à medida que o time de Messi avançava na Copa do Mundo.
Muito disso se deve à rivalidade futebolística entre os dois países, evidentemente. Mas, como começou essa rixa e o que a tem tornado tão intensa nos últimos anos?
RIVALIDADE COMEÇA COM BRASILEIROS, INDICA ESTUDO
Pelo que há de registros, o início da rixa partiu dos brasileiros. É o que aponta o sociólogo Ronaldo Helal, que dedicou sua tese de pós-doutorado, em 2006, à rivalidade entre as duas seleções, partindo da cobertura jornalística. A ideia era avaliar, a partir de jornais locais, como os dois países retratavam o vizinho nas décadas anteriores.
O resultado foi que, por muitos anos, de modo geral, os argentinos admiravam e exaltavam o futebol brasileiro e seus jogadores. Na Copa de 1970, lembra Helal, os jornais estudados apresentavam uma torcida aberta ao Brasil na final contra a Itália. Entre 1974 e 1978, o clima era de preocupação com "o Brasil não se parecer com o Brasil" em campo, em referência ao chamado "jogo bonito".
Nos Mundiais de 1982 e 1986, o trato voltava a ser muito elogioso, o que se repetiu em forma de reverência em 1990. O diário Clarín, cita Helal, teve Pelé como colunista por quatro Copas e se referia a ele como "o maior do futebol". Na final de 1994, uma pesquisa do diário argentino Clarín apontava que 60% da população torceria pelo Brasil, 10% pela Itália e 30% para nenhum dos dois.
"Fiquei muito surpreso com o resultado da pesquisa", relata o sociólogo.
Nos estudos ao longo de dois anos na Argentina, Helal compreendeu que os principais rivais dos vizinhos na bola sempre foram outros. Os ingleses, devido à Guerra das Malvinas, o Chile, por apoiar a Inglaterra na guerra, e o Uruguai, uma rivalidade futebolística mais antiga.
POR QUE, ENTÃO, OS VÍAMOS COMO RIVAIS?
O brasileiro não tinha rivais como os argentinos tinham fora do âmbito futebolístico, argumenta Helal.
"Era o Uruguai, por causa de 1950, e depois se tornou a Argentina, por volta dos anos 1970 e 1980: o Galvão Bueno tem uma importância grande nisso, quando dizia que 'ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é ainda melhor'. Era importante para nós termos um antagonista, e construímos o argentino como o nosso 'outro'. E eles não sabiam disso", afirma o estudioso.
Segundo o sociólogo, os argentinos entraram com maior intensidade na rixa nos início dos anos 2000, sobretudo com o advento da internet:
"Eles ficarem sabendo que torcemos contra eles os trouxe para essa rivalidade."
RACISMO CONTRA BRASILEIROS ELEVA A TENSÃO?
Para Ronaldo Helal, as constantes manifestações de racismo nas competições sul-americanas, não somente de torcedores argentinos, mas muitas vezes vindas deles, colaboraram com o acirramento da rivalidade e geraram um sentimento de repulsa no brasileiro.
"Influenciou. Observei na Copa de 2022 brasileiros mais jovens torcendo pela Argentina, pelo Messi, como se fosse um atleta de todos nós. neste sábado (18), até esses jovens não torcem mais", pontua o sociólogo. Pesam muito, segundo ele, as ofensas racistas, os xingamentos de macaco ano após ano na Libertadores. "E na maioria das vezes vêm do argentino. Vai acirrando cada vez mais a rivalidade", completa.
Roberta Pereira, doutora em estudos de futebol, não assegura necessariamente a correlação entre o racismo dos argentinos e o acirramento da rivalidade, mas faz uma ressalva: "O que sei é que, ao menos de dez anos para cá, a gente tem um número maior de denúncias em relação a esse tipo de racismo."
Os dois pesquisadores relembram que, embora os casos de racismo de argentinos continuem muito frequentes no futebol, o Brasil também é um país racista. "O argentino chama todos os brasileiros de macaquitos, não só os brasileiros negros. Isso incomoda os brasileiros porque eles são comparados aos negros. Como o Brasil é um país extremamente racista e racializado, ser chamado de macaco é ofensivo, no sentido de que 'eu não sou negro e estou sendo chamado de macaco'", diz Pereira.
Ronaldo Helal argumenta no mesmo sentido e cita exemplos: "O brasileiro também é muito racista, mas aqui ninguém diz que é. Se há um garoto preto no shopping, o segurança vai atrás dele. Nos lugares de elite, só tem brancos. A UERJ, onde estudei, foi pioneira de cotas, e na época a universidade foi massacrada."
RACISMO ESTAVA PRESENTE ANTES DA RIVALIDADE
Uma distinção apontada pelos especialistas se faz necessária, neste caso. O que o estudo publicado por Ronaldo Helal trata é da origem da rivalidade futebolística entre os dois países.
O fato de argentinos entrarem posteriormente na rixa não significa, no entanto, que as manifestações racistas por parte dos vizinhos também tenham começado depois. Na verdade, elas já ocorriam ao menos desde o início do século, como lembra Roberta Pereira.
A estudiosa cita o caso da Copa América, em 1920, quando, após uma eliminação, a seleção brasileira passou pela Argentina para fazer um amistoso. Por lá, o jornal La Crítica publicou uma charge de "boas-vindas" aos brasileiros, retratando-os como macacos.
"Essa charge reverberou tanto que houve uma reunião para saber se, em 1921, o Brasil levaria jogadores negros ou não. Isso não é novo. Uma das expressões do racismo é não reconhecer no outro a humanidade. Então, na medida em que eu não reconheço o outro como igual, eu não o reconheço como humano. E aí eu chamo de macaco", afirma Pereira.