Público LGBT se volta à Copa do Mundo com programas e livros para redimir o futebol
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma Copa do Mundo dos gays. Não o Grammy ou um show da Madonna, mas o torneio de futebol mesmo, que na edição deste ano virou pano de fundo de livros, programas e festas que usam símbolos e referências da cultura pop LGBTQIA+ para ressignificar não apenas o Mundial, mas todo o ambiente esportivo, do qual esse grupo é historicamente excluído.
É o que fazem os romances "Os Dois Tempos de Beto Garcia" e "Te Vejo na Final", que em sua utopia imaginam jogadores se apaixonando por outros rapazes nos gramados da Copa deste ano, dividida entre estádios dos Estados Unidos, do México e do Canadá.
Mais pé no chão mas nem tanto é o programa Camisa 24, no YouTube, em que influenciadores comentam ao vivo os jogos do Brasil com piadas pensadas para o público LGBTQIA+. Na estreia do Brasil, na partida contra o Marrocos, por exemplo, a atração começou com um debate sobre o prazer de "levar uma bolada".
Em paralelo, no Instagram, um rapaz "traduz" regras do futebol para gays. Na página Futebicha, ele explica, por exemplo, a divisão de jogos da Copa com analogias ao reality de drag queens RuPaul's Drag Race. Os times eliminados, ele diz, "dão sashay away" citando a frase que a dona do programa usa para mandar embora as perdedoras, hoje um bordão da comunidade LGBTQIA+.
Há, ainda, bares que organizam transmissões das partidas em eventos voltados ao público LGBT. É o caso do Bandeira Bandeira, casa em São Paulo para mulheres lésbicas e bissexuais, e do karaokê Toca Uma pra Mim, que misturou verde e amarelo às cores do arco-íris em sua decoração.
Boa parte do público vai às festas com roupas de "sportcore", estética que tenta tornar fashion peças esportivas, e que virou tendência entre muitos homens gays.
Embora essas jogadas representem um avanço na relação entre a comunidade LGBTQIA+ e o futebol, elas ainda ocorrem "em terreno movediço", diz Marco Bettine, professor e vice-coordenador do Ludens, grupo da Universidade de São Paulo, que estuda o futebol como fenômeno cultural e político.
"A sociedade só está aceitando porque o público LGBT tem lutado por esse espaço depois de apanhar", ele afirma. "Essa é a Copa do Mundo das redes sociais e dos algoritmos, em que várias vozes vão construir as narrativas. A gente não vai ficar restrito à do homem branco."
É um movimento cultural que vem após duas Copas especialmente polêmicas nesse sentido, ele lembra. Em 2022, o evento tomou o Catar, país que criminaliza as relações homoafetivas e que proibiu a bandeira LGBTQIA+ nos estádios. Com o aval da Fifa, a nação árabe reprimiu quaisquer manifestações à comunidade queer. Quatro anos antes, a Copa foi na Rússia, que proíbe o que chama de "propaganda de relações sexuais não tradicionais" ou seja, aquelas não heterossexuais.
Além disso, nunca um jogador homem que já foi à Copa declarou ser LGBTQIA+ enquanto estava em atividade. Os únicos dois atletas com passagem pelo Mundial que saíram do armário o fizeram depois de se aposentar foram o francês Olivier Rouyer e o alemão Thomas Hitzlsperger. No Brasil, o ex-volante Richarlyson afirmou ser bissexual em 2022, também depois de pendurar as chuteiras.
Foi no clima nada amistoso da Copa do Catar que o sergipano Ayslan Monteiro lançou "Te Vejo na Final", que narra como um jogador gay tem de ir ao torneio rodeado de colegas homofóbicos e sem a adesão de patrocinadores. O livro saiu de forma independente em 2022 e, há dois anos, ganhou uma edição nas livrarias pela Harlequin.
Convencer a editora de que daria certo misturar gays e futebol não foi difícil, mas conseguir leitores, sim, diz Monteiro. "O público heterossexual, maioria que consome futebol, não se interessa por histórias LGBTQIA+. E esse público, por sua vez, vê futebol e pensa: não é para mim. Caí num limbo."
Tramas assim ainda estão ocupam uma prateleira diminuta. "Apito Final", lançado pela brasileira Rafaela Silva em 2022, narra os dramas de um jogador convocado à Copa que é gay e assexual. Já o americano "Jogando no Seu Time" apresenta um relacionamento lésbico na seleção de futebol feminino.
Monteiro precisou esperar até a estreia desta Copa para ver as vendas do seu livro crescerem. De certa forma, ele se aproveitou agora da popularização dos "sports romance", que narram amores em ambientes esportivos e tomaram o mercado literário no ano passado. Lá fora, histórias com jogadores de hóquei são as favoritas do público.
Não surpreendeu, portanto, o sucesso de "Rivalidade Ardente", em que dois atletas desse esporte vivem um relacionamento gay às escondidas. Canadense, o título chegou este ano ao Brasil e virou também uma das séries de TV mais comentadas por causa das cenas de sexo quase explícitas.
Foi nessa onda que surfou também o escritor e influenciador Luca Guadagnini, que viu na Copa do Mundo uma chance de tropicalizar a jogada. "Os Dois Tempos de Beto Garcia", lançado neste mês pela editora Seguinte, narra como atletas apaixonados na juventude se reencontram nas partidas da Copa.
E, embora seja um romance, há muito drama nele também. "Quis trazer a dualidade que é ser gay num esporte que maltrata as pessoas LGBT", diz Guadagnini.
Ele próprio diz ter se afastado do futebol conforme crescia, enojado do preconceito gritado nos estádios ofensas homofóbicas como "bicha" e "bambi" ainda são recorrentes nas arquibancadas.
Embora hoje os grandes clubes do país tenham coletivos de torcedores LGBTQIA+, o futebol segue um ambiente agressivo para a comunidade. Há dois anos, o Flamengo foi denunciado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro após sua torcida gritar cânticos homofóbicos.
Em 2022, a CBF e o coletivo Canarinhos LGBTQ+ mostraram que os casos de LGBTfobia dentro e fora dos campos aumentaram 76% em relação ao ano anterior.
Foi pensando nisso que Rafa Dias, fundador da DiaTV, uma espécie de emissora de TV no YouTube, criou o programa Camisa 24. Desafeto do futebol, ele decidiu aproveitar a Copa para ressignificar um trauma infantil uma vez, na escola, ele diz que foi forçado a vestir uma camisa com o número 24, associado aos gays por corresponder ao número do veado no jogo do bicho e por evocar o trocadilho sexual "vir de quatro".
Na bancada comandada pelo casal Eduardo Camargo e Felipe Oliveira, do canal Diva Depressão, e pela influenciadora Camila Fremder, as conversas vão dos "babados" dos jogadores aos looks das famosas nas torcidas. Quando sai um gol, eles celebram batendo leques verdes e amarelos.
"Até cogitamos um especialista, mas vi que o legal seria não interromper a zoeira", afirma Rafa Dias. "Se alguém quiser ver algo sério sobre a Copa, deve procurar outro lugar."
"O programa é para pessoas que, como nós, se deparam com notícias sobre a Copa o tempo todo, mas não se identificam com as linguagens usadas", diz Camargo. "É para que esse público se sinta acolhido e saiba das fofocas. O futebol ainda é machista, hostil, homofóbico."
Enquanto a DiaTV aproveita a liberdade criativa da internet, os canais de TV aberta ainda não fazem grandes lances nesse sentido. Na avaliação de Camargo, isso se explica por um temor de afastar os grandes patrocinadores. Dias, por sua vez, diz que a mídia tradicional precisa diversificar sua programação se quiser atingir todos os públicos.
Por isso, talvez, a Globo, historicamente a principal emissora do Mundial no país, tenha aberto o estúdio do programa Central da Copa para o influenciador Lorenzo Pôrto, da página Futebicha.
Em vídeos nas redes sociais, ele entrevista nomes da casa, como o comentarista Caio Ribeiro, e Tadeu Schmidt, a quem pergunta de que diva pop a seleção do Brasil mais se aproxima. O apresentador não hesita: "Madonna, a maior de todas".