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Portugal exala otimismo e se apega a superstição para a Copa

por Folhapress
Publicado em 17/06/2026 às 10:37
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LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - "Comer bacalhau para Portugal ganhar." O anúncio da maior rede de supermercados do país lusitano evoca uma superstição e exala otimismo para esta Copa.

Pela primeira vez desde o longínquo 1966, Portugal vem sendo incluído no rol de favoritos ao Mundial pela maior parte dos especialistas, ao lado de Espanha, França, Argentina e Inglaterra. A seleção estreia nesta quarta (17), às 14h, contra a República Democrática do Congo, pelo Grupo K.

Em 1966 Portugal tinha Eusébio, o lendário Pantera, e acabou em terceiro lugar no Mundial disputado na Inglaterra. Sessenta anos depois, os gramados da América do Norte verão a última dança de Cristiano Ronaldo, maior artilheiro da história do futebol em jogos oficiais, recentemente eleito pela imprensa britânica como o maior jogador europeu de todos os tempos.

"Tecnicamente Lionel Messi é melhor que Cristiano Ronaldo, mas Ronaldo é mais importante para Portugal que Messi para a Argentina", diz João Nuno Coelho, escritor, sociólogo, comentarista esportivo e autor de vários livros sobre a importância do futebol para a cultura portuguesa. "Ele tem toda uma aura de ética, de trabalho, de esforço, de superação, com a qual a maior parte dos portugueses se identifica."

Segundo Coelho, o futebol é atualmente a manifestação cultural mais importante para a identidade portuguesa. "Vocês brasileiros têm também a música, reconhecida no mundo inteiro. Para nós, que sempre nos consideramos periferia na Europa, o futebol assumiu enorme centralidade. Tornou-se um exemplo de sucesso construído com organização e competência."

O ponto de viragem, de acordo com o sociólogo, é relativamente recente. "No século 20 vivíamos de explosões de talento, muitos deles de origem africana, como Eusébio e Mário Coluna em 1966. Participamos de apenas duas Copas. Já no século 21 estivemos em todas as Copas, fomos campeões europeus em 2016 e conquistamos duas vezes a Liga das Nações." Para Coelho, isso se deve a um trabalho feito nas universidades e nas federações.

Ele se refere à formação de técnicos com diploma acadêmico e ao trabalho feito nas seleções de base. "Portugal espalhou jogadores de ponta e treinadores nas principais ligas europeias, dando aquela ideia de que se quisermos e nos organizarmos podemos ser tão bons quanto os melhores da Europa", afirma Coelho. "Cristiano Ronaldo de certa forma corporifica essa ideia."

Entre os técnicos, o exemplo mais reluzente é o de José Mourinho, que acaba de ser contratado a peso de ouro para dirigir o clube mais rico do mundo, o Real Madrid. Na primeira década do século, Mourinho foi o pioneiro em usar análise de dados na elaboração de esquemas táticos revolucionários. Hoje é considerado um dos três técnicos mais influentes do futebol europeu, ao lado do espanhol Pep Guardiola e do alemão Jurgen Klopp.

O otimismo dos portugueses para esta Copa se assenta em bases sólidas. Três dos titulares do time são estrelas do Paris Saint Germain, o lateral-esquerdo Nuno Mendes e os meias João Neves e Vitinha –este último o principal articulador de jogadas no bicampeão europeu. Neves e Vitinha formam um meio-campo de sonhos com dois supercraques: Bruno Fernandes e Bernardo Silva.

Fernandes, do Manchester United, foi escolhido nesta temporada o melhor jogador do campeonato inglês, a principal liga nacional do mundo. Bateu também o recorde de assistências –passes que resultam em gols– ao superar o lendário francês Thierry Henry, ídolo de infância do prefeito novaiorquino Zohran Mamdani. Jogando no rival Manchester City, Bernardo Silva era o cérebro do esquema tático de Pep Guardiola, e vem sendo anunciado como novo reforço do Madrid de Mourinho.

É a melhor equipe da história de Portugal? "Eu diria que sim se Cristiano Ronaldo fosse dez anos mais jovem", diz João Nuno Coelho, que fará análises da Copa do Mundo na emissora de televisão RTP e na rádio TSF, dois dos principais veículos da mídia portuguesa.

"A equipe de 2006, dirigida pelo carismático brasileiro Luís Felipe Scolari, também era excepcional." A escalação, lembra Coelho, alinhava Pauleta e Luís Figo, outra lenda do futebol português, além de um Cristiano Ronaldo no auge da capacidade física.

O goleiro na época era Ricardo Pereira, que brilhava nas disputas de pênaltis depois de, reza a lenda, comer fartas doses de bacalhau no almoço. A superstição começou ainda na Copa de 1966 quando os jogadores portugueses eliminaram vários favoritos, incluindo o Brasil, almoçando bacalhau todos os dias. Comenta-se que faltou bacalhau no dia da semifinal, quando Portugal perdeu para a Inglaterra.

Não se sabe ao certo o que há de verdade na construção da superstição. Luís Lavrador, que foi chef da seleção portuguesa durante 25 anos, assegurou em entrevista recente que o prato nunca faltou à mesa durante sua gestão, e que a variedade preferida de Cristiano Ronaldo é o bacalhau a Brás, com muitos ovos, muita cebola, muito alho e batata palha. Se Portugal for longe na Copa, pode faltar bacalhau nas redes de varejo lusitanas.