O que explica a crise de Brasil, Alemanha e Itália, maiores campeãs da Copa
(UOL/FOLHAPRESS) - A Copa do Mundo de 2026 será a terceira edição seguida em que os maiores campeões não marcam presença nas semifinais. A crise vivida por Brasil, Alemanha e Itália aumentam cada vez mais de quatro em quatro anos, com semelhanças e algumas diferenças.
A CRISE E OS TRAUMAS DOS GIGANTES
Brasil, Alemanha e Itália somam 13 títulos de Copas do Mundo. Ainda assim, nenhuma delas chegou perto de voltar a conquistar o título em 2026 o Brasil (penta) e a Alemanha (tetra) já foram eliminados nas fases iniciais do mata-mata, e a tetra Itália sequer conseguiu se classificar para o torneio. A última participação da Azzurra foi no Brasil-2014.
O curioso é que a decadência das três seleções começa após a conquista de um título. O Brasil foi penta em 2002 e, desde então, não passou mais das semifinais. A seleção brasileira já vive o seu maior jejum no torneio: são 24 anos sem levantar a taça e, em 2030, vai bater 28 anos mesmo período equivalente entre a Copa de 1930 e a conquista de 1958.
Além disso, vive o trauma de não conseguir superar adversários europeus no mata-mata. São 6 eliminações em sequência: França (2006), Holanda (2010), Alemanha (2014), Bélgica (2018), Croácia (2022) e Noruega (2026).
A Itália conquistou o tetra em 2006 e tem colecionado um vexame atrás do outro. A Azzurra sequer avançou da fase de grupos em 2010 e 2014, e já soma 12 anos de ausência na Copa do Mundo, com três eliminações na repescagem e sem participar das Copas de 2018, 2022 e 2026.
A Alemanha vive momento ruim. A má fase começou logo depois do tetra, em 2014, com o título conquistado contra a Argentina dentro do Maracanã. A campanha ainda teve o famoso 7 a 1 contra o Brasil, na semifinal. Depois disso, caiu na fase de grupos em 2018 e 2022 e, agora, em 2026, foi eliminada na segunda fase pelo Paraguai a primeira derrota alemã em disputa de pênaltis na história das Copas.
BRASIL: POLÍTICA E BASE
A crise brasileira tem, antes de tudo, um fundo institucional. O ciclo que terminou na eliminação para a Noruega, nas oitavas de final, na pior campanha da seleção desde 1990, teve instabilidade de comando com trocas de técnico e uma CBF caótica.
O Brasil trocou de treinador quatro vezes nos últimos quatro anos. Após a saída de Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior passaram pelo cargo até a chegada definitiva de Carlo Ancelotti. Além disso, foram dois presidentes no ciclo: Ednaldo Rodrigues e Samir Xaud, em uma disputa política que chegou na Justiça.
Polêmicas fora do campo não são uma novidade. Nos anos 90, a gestão de Ricardo Teixeira já era alvo de denúncias e acusações de pagamentos superfaturados. Já na década passada, José Maria Marin (12-15) e Marco Polo Del Nero (15-17) apareceram nas páginas policias, com Marin sendo preso e Del Nero banido do futebol.
Mesmo depois, com a estabilidade de Tite à beira do campo, uma geração talentosa não conseguiu fechar o ciclo na seleção com o título da Copa do Mundo. Liderados por Neymar, nomes como Casemiro, Alisson, Marquinhos, David Luiz, Thiago Silva, Marcelo, Fernandinho e Philippe Coutinho tiveram muito sucesso no futebol europeu, mas fizeram a relação com o torcedor brasileiro esfriar cada vez mais.
Soma-se tudo isso a um problema de mercado e formação de jogadores nas categorias de base. A seleção enfrenta carências recorrentes em posições específicas: faltam laterais, armadores que imponham ritmo de jogo e um centroavante de referência desde os tempos de Ronaldo.
Os clubes brasileiros cada vez mais miram o mercado e formam jogadores para posições com maior valor de venda. O resultado são jogadores talentosos concentrados nas pontas Vini Jr, Rodrygo, Raphinha, Rayan, Luiz Henrique, Martinelli e outros o que gera um desequilíbrio prático na seleção brasileira.
ALEMANHA: ETERNO PROCESSO DE TRANSIÇÃO
Na Alemanha, talento nunca foi o maior problema. A seleção sempre teve jogadores de qualidade, basta olhar para os convocados de 2026: Rudiger, Tah, Kimmich, Musiala, Wirtz e Undav, por exemplo, são destaques em gigantes europeus e em diferentes funções no campo.
A crise alemã, no entanto, passa um problema de processo, de comando e de hierarquia. Desde o título em 2014, a equipe mergulhou em derrotas e demorou para sacar Joachim Low do cargo de técnico. A chegada de Hansi-Flick, na sequência, teve pouco respaldo da federação (DFB) e a aposta foi em Julian Nagelsmann, de apenas 38 anos e já demitido após a eliminação nos 16 avos para o Paraguai, nos pênaltis.
"As pessoas responsáveis precisam enfrentar as consequências. Não há outra forma de dizer isso. Essa situação precisa ser enfrentada. Tanto pelo técnico da seleção quanto pela federação", disse Hummels, campeão mundial com a Alemanha em 2014, à Magenta TV.
Outra influência direta é a baixa competitividade da Bundesliga. Nas últimas 14 temporadas de Campeonato Alemão, o Bayern de Munique venceu 13 edições. O domínio dificulta o trabalho de outros times na revelação de jogadores que se destaquem.
ITÁLIA: IDENTIDADE E OPORTUNIDADE
A Itália vive o cenário mais dramático entre os três gigantes, assistindo a Copa do Mundo pela televisão pela 3ª vez seguida. O título da Eurocopa conquistado em 2021 já parece uma miragem dentro das duas décadas de frustrações.
Um dos grandes problemas italianos é a perda de identidade tática no futebol. Nas palavras do ex-presidente da federação italiana, Gabriele Gravina, o futebol deixou de ser "aquele estilo técnico no qual a Itália costumava reinar soberana" e passou a acontecer de forma mais veloz e ofensiva nos últimos anos um reflexo do estilo de jogo adotado por Pep Guardiola desde o Barcelona em 2008.
"Temos vergonha de quem somos há vinte anos. Durante todo esse tempo, senti que tentávamos jogar como a Espanha e, com isso, desistimos da nossa história. O talento desaparece por causa disso", falou Buffon, campeão mundial pela Itália em 2006, à Sky Sports.
O ex-técnico Cesare Prandelli, hoje primeiro diretor técnico da história do futebol italiano, disse que o problema não é falta de talento: "Se a Itália tivesse nesta sexta-feira (10) um jogador do nível de Lamine Yamal, provavelmente o estragaria", disse ao Corriere della Sera.
O último campeão europeu da Itália foi a Inter de Milão, em 2010, sob a batuta de José Mourinho. Aquele time histórico não tinha nenhum jogador italiano entre os titulares.
Os clubes italianos têm influenciado diretamente também para a situação da seleção. Na última temporada, 68% dos jogadores que atuaram na liga não eram italianos. Os times pouco apostam nos jovens da base e ficam presos a contratações de impacto, como Luka Modric, que chegou no Milan aos 39 anos.