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'Nunca me senti incluído no futebol', diz criador do Camisa 24, programa sobre a Copa para gays e não-iniciados

por Folhapress
Publicado em 17/06/2026 às 08:22
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Durante décadas, assistir a uma partida de futebol foi quase um ritual obrigatório para boa parte dos brasileiros. Mas nem todo mundo se sentia confortável naquele ambiente. Para o empresário e criador de conteúdo Rafa Dias, 40, fundador da DiaTV, a relação com o esporte sempre foi marcada por uma sensação de deslocamento.

Foi justamente dessa experiência que nasceu o Camisa 24, programa da emissora digital que acompanha a Copa do Mundo com uma proposta pouco convencional: trocar análises táticas, estatísticas e debates acalorados por humor e comentários de cultura pop de quem não entende nada (ou pouco) do assunto.

A aposta parecia arriscada. Mas bastou a estreia para que o projeto se transformasse em um dos assuntos mais comentados das redes sociais. Rafa sabia o que estava fazendo.

"O futebol sempre foi um lugar em que eu nunca me senti incluído, diz. "Foi através dele que sofri alguns dos primeiros episódios de bullying e homofobia na escola. Depois, quando fui a estádios, continuava encontrando um ambiente muito agressivo e cheio de xingamentos homofóbicos. Então eu nunca tive uma relação saudável com o futebol", afirma.

A ideia do programa surgiu em uma conversa com a escritora e apresentadora Camila Fremder. Segundo o empresário, ela o procurou com o desejo de criar algum conteúdo relacionado à Copa do Mundo. A partir daí, nasceu um projeto que fugia completamente dos formatos tradicionais.

"Eu já tinha vontade de fazer uma mesa-redonda que não levasse o futebol tão a sério. Sempre existe aquela ideia de fazer um programa para quem não entende de futebol. Mas eu acho que tem uma coisa que todo mundo entende: a piada. Todo mundo consegue rir das situações que acontecem em campo", diz.

Inicialmente, a produção cogitou contar com um comentarista esportivo tradicional. A ideia foi abandonada depois do piloto.

"Havia uma discussão para ter um especialista no programa, mas quando vimos a química entre Camila, Edu Camargo e Fih Oliveira, do Diva Depressão e o restante da equipe, ficou claro que não precisava. O programa funcionava justamente porque era um espaço de humor."

A escolha dos apresentadores também não foi por acaso. Camila Fremder e os integrantes do Diva Depressão já eram nomes próximos à trajetória da DiaTV e tinham conexão com o público da emissora. "Eu confio muito neles. Sabia que teria química, mas o resultado foi até maior do que eu imaginava."

Lançada em 2023, a DiaTV tem programação gratuita e transmitida por streaming, e aposta em formatos ao vivo, realities, entrevistas e atrações voltadas principalmente para a comunidade LGBT+, mas não só.

Em relação ao Camisa 24 (cujo nome é uma referência a um tabu históruico ao numero 24 nas camisas dos jogadores brasileiros, por ser frequentemente associado de forma pejorativa ao público LGBTQIA+), ele virou um, digamos, babado forte antes mesmo da estreia oficial.

Um programa especial sobre a convocação da seleção brasileira já havia mobilizado milhares de espectadores e gerado memes nas redes sociais. O volante Bruno Guimarães, por exemplo, ganhou elogios não por seu retrospecto em campo, mas por ter cara que quem "faz uma boa caipirinha", e as piadas foram por esse caminho, meio papo de bar, fazendo uma legião de fãs.

"O público ficou enlouquecido. As pessoas começaram a pedir programas para os amistosos, para a abertura da Copa, para tudo. A repercussão foi muito maior do que a gente imaginava."

O sucesso também surpreendeu pelos números. Durante os jogos da seleção, a hashtag do programa figurou entre os assuntos mais comentados no X, antigo Twitter, disputando espaço com gigantes da transmissão esportiva.

"Chegamos ao Top 10 dos assuntos mais comentados durante o jogo. Em alguns momentos ficamos à frente de transmissões muito maiores. Isso mostra uma audiência extremamente engajada."

Para Rafa, os resultados comprovam uma mudança no consumo de conteúdo esportivo. "Os veículos tradicionais entenderam que o público está cada vez mais pulverizado. Não existe mais um único jeito de acompanhar um evento. Tem gente que quer análise técnica, mas também tem gente que só quer se divertir."

Agora, o sucesso do Camisa 24 já faz a equipe pensar em novos formatos para além do futebol masculino.

Rafa cita transmissões ligadas ao vôlei, à seleção feminina e a eventos esportivos internacionais como possibilidades futuras. "Existe espaço para fazer isso com vários outros esportes. O público está mostrando que quer acompanhar eventos ao vivo de uma forma mais leve e divertida."

No fim das contas, ele afirma que o que começou como uma tentativa de criar um programa para quem nunca se sentiu representado pelo futebol acabou encontrando uma audiência muito maior do que a esperada.

"Eu costumo brincar que é um programa de futebol para gays, mulheres e para qualquer pessoa que queira apenas se divertir. E acho que foi justamente isso que fez o projeto funcionar."