Não se pode achar Messi o maior sem conhecer Pelé, diz escocês que lança biografia do Rei do Futebol
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Uma pessoa não pode dizer que Messi é o melhor de todos os tempos sem saber o que Pelé fez nem o contexto em que ele fez".
Às portas do jogo da seleção contra a Escócia, quem tenta pôr as coisas no lugar, num momento em que o argentino está na crista da onda, é um escocês, o jornalista Andrew Downie, autor de uma alentada biografia sobre o Rei do Futebol a ser lançada em novembro.
Num primeiro momento, "Epic - The Many Lives of Pelé" (Épico - As muitas vidas de Pelé), sairá apenas em inglês, pela Penguin. O autor diz que negocia com editoras brasileiras.
Para Downie, até 2022 parecia incontestável que Pelé morto em 2022 aos 82 anos foi o maior jogador de futebol da história.
Após liderar a Argentina na conquista da Copa do Qatar, o argentino começou a tornar o veredito mais difícil, ainda mais após seus feitos no Mundial-2026. Com cinco gols em dois jogos, passou a ser o maior goleador da história das Copas é também o artilheiro isolado desta edição.
O autor diz que não pretende alimentar um fla-flu em torno da questão e conta que evitou afirmar na biografia que Pelé é o maior de todos os tempos, mas comenta que, se a controvérsia fosse um julgamento, seu livro poderia ser a tese de defesa do brasileiro.
Downie usa uma metáfora para a tarefa de apresentar o Rei não só aos súditos de sempre, mas sobretudo às novas gerações. "Falar da importância de Pelé para o futebol nos dias de hoje é como explicar para um garoto que só ouve Spotify a importância do gramofone".
Quando menciona a importância do contexto histórico, dá exemplos prosaicos. "Pelé ia a alguns jogos no interior de São Paulo dividindo um carro ou táxi com colegas do Santos. Messi viajou a várias partidas em seu jatinho particular."
Downie diz que tende a achar Pelé o maior, por vários motivos: cabeceava bem (Messi não); era mais mortal com as duas pernas (o canhoto Messi também chuta com a direita); desarmava e auxiliava na marcação (o argentino não muito); ganhou três Copas (Messi por enquanto só uma).
Há ainda o capítulo do número de gols. Downie considera "ridícula" a "invenção recente" de contabilizar apenas os gols de Pelé em jogos oficiais, o que faz com que tanto Messi quanto Cristiano Ronaldo o ultrapassem na lista dos maiores artilheiros da história o que não ocorre quando se consideram também amistosos, e aí Pelé soma 1.283, mais que os dois.
Ele lembra que o brasileiro fez dezenas de gols em amistosos contra equipes europeias fortíssimas da época, como Inter de Milão, Benfica, Napoli, Roma, Barcelona, Real Madrid e Milan, entre outras.
E, para ilustrar a força dos adversários locais de Pelé, informa que mais times ganharam o Campeonato Paulista quando Pelé jogava pelo Santos do que outros clubes além do Barcelona venceram o Espanhol no período de Messi no clube catalão.
"Isso acaba com o mito de que precisava estar na Europa para jogar um torneio competitivo. O Brasil para o futebol nos anos 1960 e 1970 correspondia ao que o Reino Unido era para a música na mesma época ou o que a Califórnia representou para os computadores nos anos 1980/1990", compara.
Downie, 59, morou no Brasil por 20 anos (1999 a 2019) e fala português fluente hoje vive em Madri.
Ex-correspondente ou colaborador de jornais, revistas e agências de notícias do Reino Unido e dos EUA, é autor de "Doutor Sócrates", biografia do craque do Corinthians e da seleção, e de "México 70", sobre a Copa que consagrou Pelé, ambos publicados no Brasil pela editora Grande Área.
Fez uma entrevista exclusiva com Pelé para a revista Time em 2001, além de ter participado de várias coletivas com o ex-craque e ter colaborado em livros sobre ele.
Inúmeros volumes já foram lançados ao longo da história, principalmente autobiografias escritas com parceiros, casos de "Eu sou Pelé", de 1961, com Benedito Ruy Barbosa, "My Life and the Beautiful Game", de 1977, com Robert Fish, "Pelé: a Autobiografia", de 2006, com Orlando Duarte e Alex Bellos, e "Pelé - A Importância do Futebol", de 2014, com Brian Winter. Ou ainda "Viagem em torno de Pelé", de 1963, uma biografia romanceada escrita por Mário Filho.
Mas não havia até hoje uma biografia jornalística de fôlego, com pesquisa ampla e escrutínio dos mitos em torno de Pelé.
No início deste ano, o colunista PVC lançou um livro com traços de biografia, mas ele próprio evitou definir como tal. No caso de Downie, não há dúvida. "Epic" é fruto de quase oito anos de apuração, iniciada em 2017 e concluída no final do ano passado nos três anos finais, de 2022 a 2025, o autor esteve dedicado somente à biografia.
Foram mais de 250 entrevistas em dez países que, agregada a pesquisas em arquivos, resultaram em 528 páginas e mil notas de referência (o autor queria mais, teve de cortar).
Entre os entrevistados estão familiares de Pelé, como as filhas Kely e Flávia, e a ex-mulher Assíria, mãe dos gêmeos Celeste e Joshua.
Downie relata que a ideia do novo livro ocorreu enquanto ele lia, anos atrás, uma biografia do maestro italiano Arturo Toscanini (1867-1957). "O livro tinha 944 páginas. [Pensei:] se Toscanini vale 944 páginas, quantas vale Pelé? Quem dos dois trouxe mais alegria ao mundo?", questiona.
Ao sugerir a ideia a editoras, argumentou que há biografias detalhadas da maioria dos grandes nomes do século 20 Charles Chaplin, García Marquez, Marilyn Monroe etc, mas não havia uma de Pelé.
Pelé é um mito, e há vários mitos em torno dele. Dá um exemplo de que há três ou quatro versões sobre como surgiu o icônico soco no ar, e o próprio Pelé deu ao longo da vida explicações contraditórias entre si. "Em casos assim, eu tento colocar as várias opções possíveis. Em outros, dá para reconstituir claramente os episódios, a partir de entrevistas e pesquisa."
Downie conta que assistiu a apenas os dois primeiros episódios da minissérie "Brasil 70", da Netflix, sobre a Copa em que a seleção foi tricampeã, e não gostou do que viu.
Mesmo sabendo que há ficção misturada à realidade, o desconforto começou numa das cenas iniciais, quando João Saldanha, recém-contratado como técnico, busca Pelé para convencê-lo a voltar à seleção que ele anunciara ter abandonado após a Copa de 1966. "Pelé já tinha voltado à seleção, em 1968, quando Saldanha assumiu. Não foi convencido por ele."
Também o desagradou a imagem de um Pelé fraco emocionalmente retratada na série. O biógrafo conta dois episódios.
No primeiro, após um treino da seleção no Itanhangá Golf Clube, no Rio, alguns jogadores sugeriram dar um mergulho na praia da Barra, ali perto. "Pelé disse que não, porque os dirigentes não iam gostar, não tinham autorizado e poderiam cortá-los do grupo. É ridículo achar que Pelé era [moralmente] fraco, um frouxo", diz Downie.
A outra história: numa excursão, Pelé cruzava os céus da África num avião turboélice. Estava sentado ao lado do jornalista Orlando Duarte. De repente, muito assustado, Duarte percebeu que a hélice havia parado, e cutucou Pelé. "Orlando, você é piloto? É engenheiro aeronáutico?", respondeu o Rei, e voltou a dormir.
"O superpoder de Pelé era o temperamento", sintetiza o biógrafo.