Lixo 'invisível' das figurinhas da Copa desafia reciclagem e gera campanha
RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Por trás da febre do álbum da Copa do Mundo há um problema desafiador e de difícil resolução por parte do sistema de reciclagem do Brasil: o verso das figurinhas.
PAPEL PODE VIRAR LIXO COM DURAÇÃO DE 100 ANOS NO AMBIENTE
Ao abrir um pacotinho e descolar uma figurinha, resta o papel que sobra e que é responsável por manter a cola. Ele é composto por um material chamado "liner" e que possui uma camada de silicone.
A maioria das cooperativas de reciclagem não conseguem reciclá-lo justamente por ser uma folha siliconável. E quando descartado no lixo comum, vai para aterros sanitários ou lixões irregulares e pode demorar até cem anos para se decompor.
Um álbum completo da Copa do Mundo de 2026 reúne um total de 980 figurinhas, isso sem contar as repetidas.
ÚNICA EMPRESA QUE RECICLA FAZ CAMPANHA DE RECOLHIMENTO
No Brasil, a única empresa de grande escala que consegue fazer esse tipo de reciclagem é a "Polpel Fibras", sediada em Guarulhos (SP), que pratica a chamada "economia circular", que transforma esse material em celulose e o reutiliza fabricando diversos tipos de papeis como toalha, cartão, sulfite (A4), térmico e embalagens.
Desde a Copa do Mundo passada, ela realiza uma campanha de recolhimento destes liners. A grande parceira nesta iniciativa é a empresa de cosméticos "Natura", que disponibilizou suas lojas físicas espalhadas pelo Brasil como ponto de coleta e oferece desconto em produtos para quem aderir.
Em 2022, foram recolhidos 230kg de liner, o que corresponde a mais de um milhão de figurinhas. Agora, a estimativa é muito maior, de cerca de 10 toneladas, algo ainda pequeno considerando a quantidade de liner gerado no Brasil.
A Polpel recicla por ano, em média, 3,6 mil toneladas de liners. Porém, isso não chega a 10% do total gerado no país. Infelizmente falta informação, legislação e muitas vezes vontade das empresas saírem do discurso à prática. Essa campanha das figurinhas da Copa tem sido uma grande aliada na divulgação da informação e da conscientização da necessidade de destinação correta de todos os resíduos. Esperamos que mais empresas comecem a separar esse material, deixando de ir para aterro e passem a enviar para a reciclagemAílton Alves, diretor-executivo da Polpel Fibras, ao UOL
MOBILIZAÇÃO ORGÂNICA TEVE INÍCIO EM ESCOLAS
Hoje com uma adesão cada vez maior à causa, a campanha de recolhimento dos versos de figurinhas para a destinação correta teve como ponto de partida a iniciativa de crianças.
Gerente de Sustentabilidade da Natura, Sérgio Talacchi juntamente com sua esposa Patrícia Meirelles - lembrou da reciclagem da Polpel ao notarem seus filhos colando figurinhas no álbum.
A partir dali, o executivo resolveu fazer uma campanha na escola deles e também no condomínio, além de divulgar em grupos de Whatsapp. A ação surtiu efeito, viralizou e se espalhou pelo país.
Hoje, além da Natura, as empresas Avery Dennison e MD Papéis são outras parceiras da campanha, assim como shoppings pelo Brasil e 118 colégios.
Um deles é a "Escola Nova by SIS", do Rio de Janeiro. Lá, os aluno Rafael Barros Uchoa e Bia Secchin de Sá, do 7º B, idealizaram e elaboraram um projeto interno para a correta destinação do resíduo.
Uma das maiores contribuições da escola é ensinar os estudantes a enxergar oportunidades de transformação em que a maioria das pessoas veem apenas situações do cotidiano. Quando pesquisamos com eles a composição do verso das figurinhas e entendemos os desafios envolvidos em sua reciclagem, percebemos que havia ali uma excelente oportunidade de aprendizagem. Mais do que discutir sustentabilidade em teoria, a iniciativa permite que os alunos investiguem um problema real, mobilizem a comunidade escolar e compreendam que pequenas atitudes podem gerar impactos positivos para o meio ambienteCintia Areno, diretora da Escola Nova by SIS
EMPRESA IRÁ DOAR 100% DA RECEITA PARA HOSPITAL
Após reciclar os versos das figurinhas para celulose, a Polpel Fibras promete doar 100% da receita adquirida com a venda dos produtos fabricados para o hospital do GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), localizado em São Paulo (SP) e que é referência no tratamento de câncer infantojuvenil.
A grande lição dessa campanha é constatar que a sociedade se engaja quando se tem algo que verdadeiramente vale a pena. Além disso, ver crianças envolvidas numa causa ambiental nos dá esperança de uma nova geração mais preocupada e consciente com a preservação do meio ambiente. Essas crianças não só estão influenciando seus pais, mas no futuro elas mesmas irão trabalhar em empresas, liderar equipes e já levam essa bagagem da necessidade de se destinar corretamente os resíduos gerados no dia a diaAílton Alves