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Livro didático com história de Pelé está na raiz da paixão de Bangladesh pela seleção brasileira

por Folhapress
Publicado em 04/07/2026 às 13:01
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Entre tantos torcedores de outros países que escolhem a seleção brasileira nas Copas do Mundo, os de Bangladesh costumam chamar a atenção pela fidelidade e pelo fervor.

É uma tradição de décadas, e que tem entre as suas raízes um livro sobre o maior jogador de todos os tempos: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

O auge da fama de Pelé e da seleção, após a conquista do tricampeonato mundial em 1970, coincidiu com a guerra de independência de Bangladesh, em 1971.

Ainda naquela década, o governo de Sheikh Mujibur Rahman –o líder da libertação, que foi também premiê e presidente do país e jogou futebol na juventude– incluiu como leitura obrigatória nas escolas bengalis um livro com a história do craque do Santos e da seleção.

"A ex-embaixadora de Bangladesh no Brasil Sadia Faizunesa me contou ter ela mesmo lido a biografia do Pelé na escola. Há igualmente até hoje, ao vivo e a cores, declarações de bangladeses que afirmam ter começado a torcer pelo Brasil depois de ler a biografia", disse à reportagem o embaixador do Brasil em Bangladesh, Paulo Fernando Dias Feres.

Há menções ao fato em jornais bengaleses. Quando Pelé morreu, em dezembro de 2022, o Daily Star lembrou o episódio, mas mencionou o "capítulo de um livro do ensino fundamental que apresenta as conquistas do brasileiro".

Segundo essa referência, muitos no país ainda conhecem Pelé como "Kalo Manik" (pérola negra), pois o apelido estava no título do conto biográfico sobre o craque.

Reportagens em outros veículos bengalis descrevem a história contada no livro como uma narrativa de sucesso, a fábula sobre um garoto de família pobre do interior do Brasil que chegou a ser engraxate para ajudar em casa e seu caminho até se tornar o maior jogador do mundo.

Feres afirma ter ouvido relatos de que a história de Pelé incluída na grade curricular bengali teria sido um trecho traduzido de "Viagem em Torno de Pelé", uma biografia romanceada do jogador escrita pelo jornalista Mário Filho (irmão de Nelson Rodrigues) com a colaboração do jogador. A reportagem não conseguiu confirmar essa hipótese.

"A narrativa que prevalece aqui é a de que Mujib mandou traduzir a biografia do Pelé para o bengali, e muita gente leu esse livro", diz Feres.

"O fato é que Bangladesh evoluiu com a seleção brasileira entranhada nele", prossegue ele. "Essa paixão , que passou de pai para filho, começou em algum momento mágico do passado, não caiu do céu sobre um país que, ao ficar independente, tinha US$ 2 em suas reservas. Alguém impulsionou essa identidade. Pode ter sido Mujib, pode ter sido um conjunto de pessoas, isso não importa. O que importa é que a identidade existe."

Segundo o embaixador, "com o passar do tempo, outras ‘identidades’ surgiram, como a que tem com a Argentina. Mas ela é diferente. No caso do Brasil, eles torcem pela seleçāo; no da Argentina, pelo Lionel Messi. Não é ufanismo, eles admitem esse fato. Não se vê multidões jubilosas de torcedores argentinos pelas ruas, como se vê de torcedores brasileiros".

De acordo com o jornalista Asmaul Mottakin Sarker, as gerações mais velhas do país continuam a idolatrar Pelé, enquanto para as mais novas a paixão pela seleção surgiu com a Copa de 2002, "com as atuações brilhantes de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho –e mais tarde de Kaká".

"Depois disso, Neymar manteve viva essa paixão junto à geração atual", disse Sarker, que é repórter de esportes da TV Maasranga.

"Mas é o nome de Pelé que une todas as gerações. Para os fãs de futebol em Bangladesh, ele permanece como a figura máxima, simbolizando a identidade, o legado e a paixão do Brasil."

O futebol também teve seu papel durante a guerra de 1971 que libertou Bangladesh do domínio paquistanês –depois de ter sido colonizado pelo Império Britânico.

Uma seleção nacional, batizada Swadhin Bangla, foi criada e disputou amistosos na Índia, chamando a atenção para a causa da independência.