Jogo da Paz entre Brasil e Haiti em 2004 foi marco para país em frangalhos
NOVA JERSEY, EUA (UOL/FOLHAPRESS) - O jogo da paz entre Brasil e Haiti, em 2004, é uma das partidas mais importantes da história do segundo adversário da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026.
Em meio a uma guerra civil no país, mais de um milhão de haitianos receberam a equipe do técnico Carlos Alberto Parreira e viram o início de uma evolução no futebol local, que agora retorna a um Mundial após 52 anos.
A seleção brasileira contava com estrelas de nível mundial como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Cafu, Roberto Carlos, Juninho Pernambucano e outros grandes nacionais. Já o Haiti, que perdeu por 6 a 0, tentava se inserir no cenário internacional, como Stephane Guillaume, que disputou 30 jogos pelo país e fez carreira em clubes dos Estados Unidos.
"Aquela partida foi um marco para o futebol do Haiti. O Brasil é um país que vive e respira futebol. Para o Haiti, ter a oportunidade de jogar contra a Seleção era algo muito especial", disse Guilaume. "Não era só uma partida de futebol. Era um evento que trouxe paz, alegria e orgulho para o nosso povo."
Brasil e Haiti jogaram no dia 18 de agosto de 2004. O resultado elástico pouco importou diante de tudo que o Haiti enfrentava. Após uma revolta armada, o presidente Jean-Bretrand Aristide deixou o cargo em fevereiro daquele ano, com medo de que a violência se intensificaria no país caso ele continuasse no cargo.
Um novo governo provisório, chefiado por Gérard Latortue, tomou posse com o respaldo da ONU. Como parte de uma política de protagonismo internacional, o presidente Lula, em seu primeiro mandato, liderou uma missão de paz e enviou ao Haiti o exército brasileiro para garantir a segurança no país que sofria com a pobreza que afligia 80% da população.
"Eu fiquei impactado sim com a pobreza no país. Eu tinha uma noção do que é a pobreza. Nós vivemos em país pobre e eu vim de uma situação simples. Eu tinha noção, mas era uma noção de pobreza como é no Brasil", disse à reportagem o ex-jogador Roger Flores, hoje comentarista, que vestiu a camisa 10 do Brasil naquela tarde.
"Por isso eu fiquei impactado ao ver o Haiti. Lá não era só pobreza. Era abaixo da pobreza. Faltava tudo. Faltava comida, luz, água, as pessoas sobreviviam. Era uma situação muito angustiante", afirma ele, que foi o camisa 10 do Brasil no Jogo da Paz.
"Eu me senti honrado em usar a 10. Isso mexe com a sua vaidade. A camisa 10 é icônica e eu usei em um jogo com Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Eu tenho essa foto guardada. Eu gosto de dizer que essa foto abre cadeados no mundo inteiro. Do palácio mais imponente até o casebre mais simples. Com essa foto eu sou bem recebido em qualquer lugar do mundo", brincou Roger.
PASSAGEM-RELÂMPAGO
A passagem da seleção brasileira pelo Haiti foi rápida. Os jogadores desembarcaram pela manhã, disputaram a partida à tarde e logo após já deixaram o país. No desembarque, os jogadores se deslocaram em cima de tanques de guerra e foram ovacionados pelos haitianos nas ruas de Porto Príncipe.
"Uma das minhas memórias mais vivas daquele dia foi de quando eu estava no quarto do hotel e vi a chegada do time brasileiro na televisão. Era incrível o amor e a empolgação dos haitianos", relembra Guillaume. "Eu lembro de ver os jogadores chegando em tanques militares e milhares de fãs seguindo do aeroporto até o caminho para estadio. Isso mostra quão forte é a admiração e o respeito nosso pelo futebol brasileiro."
"O jogo contra o Brasil é um dos eventos mais importante da história do futebol do Haiti", disse o jornalista haitiano Childo Geffrard sobre aquela tarde.
"Receber a seleção brasileira, neste contexto, era muito mais que esporte. O Brasil é, sem dúvida alguma, a seleção estrangeira mais amada no Haiti. Poder enfrentar o Brasil era um sonho para nós."
DÉCADAS DEPOIS, A RECONSTRUÇÃO
Duas décadas depois, Brasil e Haiti voltam a se enfrentar. Dessa vez em uma Copa do Mundo, competição que o país da América Central não disputava desde 1974, na primeira e até então única participação em um Mundial.
Apesar de ser a pior equipe no ranking da Fifa entre os 48 participantes da Copa do Mundo, o Haiti já conta com alguns jogadores em grandes ligas, com destaque para Jean Ricner, meio-campista do Wolverhampton, clube da primeira divisão da Inglaterra. Outro nome relevante é Wilson Isidor, do Sunderland, também da Premier League.
O surgimento de jogadores em países da elite mundial é de certa forma uma parte do legado que aquele jogo deixou para o Haiti, que buscava se reconstruir após anos de problemas e guerra política.
"Para os jovens do Haiti, aquele jogo impacto muito. Muitos perceberam que aquelas estrelas não eram figuras intocáveis. Era seres humanos que começaram a vida jogando futebol na rua", diz Childo." Aquela partida inspirou toda uma geração e reforçou a ideia no Haiti de que é possível acreditar, que é sonhar. Mais de duas décadas depois, muitas pessoas ainda se lembram exatamente onde estavam naquele dia, um testemunho da impressão duradoura que ele deixou na memória coletiva da nação."
Brasil e Haiti se enfrentam nesta sexta-feira, às 21h30 (horário de Brasília), na Filadélfia. Uma vitória praticamente garante o Brasil na segunda fase da Copa do Mundo de 2026.