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Interferência de Trump lança sombra sobre a Copa e abala imagem da seleção dos EUA

por Folhapress
Publicado em 06/07/2026 às 18:31
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NOVA JERSEY, EUA (FOLHAPRESS) - Até este domingo (5), Donald Trump ainda não havia marcado presença em nenhum jogo da Copa do Mundo. Ainda assim, sua sombra passou a pairar sobre o torneio após o presidente dos Estados Unidos admitir que intercedeu diretamente junto ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, para rever o cartão vermelho recebido pelo americano Folarin Balogun no duelo com a Bósnia, na quarta-feira (1º), na abertura do mata-mata.

Trump ainda classificou como "suspeito" o árbitro brasileiro Raphael Claus, responsável pela expulsão do atacante. "Esse árbitro é um tanto suspeito se você verificar o passado dele", afirmou.

Em nota, a CBF saiu em defesa do profissional, que tem 18 anos de carreira e está em sua segunda Copa -também atuou no Mundial do Qatar em 2022. "A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de Raphael Claus."

A confessa interferência do republicano -em um telefonema também admitido por Infantino, embora o dirigente tenha assegurado a autonomia dos órgãos de ética da entidade que ele comanda- não só mudou a repercussão do Mundial nos EUA, como também provocou reações em várias partes do mundo.

Nos principais veículos americanos, o episódio passou a ser tratado menos como uma discussão sobre a arbitragem de Claus e mais como um teste para a independência da Fifa, cujo presidente mantém notória amizade com Trump.

Nenhum líder político mundial foi visto mais vezes nos últimos anos no Salão Oval da Casa Branca do que Infantino, que, em dezembro de 2025, concedeu ao presidente dos EUA o primeiro Prêmio da Paz da Fifa. A escolha para a honraria virou alvo de denúncias no Parlamento Europeu e no Comitê de Ética da Fifa.

Nesta segunda-feira (6), The New York Times, The Washington Post, NBC News e ABC News destacaram a relação de ambos e a admissão de Trump de que telefonou para Infantino. Os veículos também noticiaram a reação imediata de dirigentes, federações e comentaristas, que passaram a discutir os limites da influência política sobre decisões disciplinares da entidade máxima do futebol.

"Uma decisão como essa levanta claramente questões sobre a integridade do maior evento do futebol mundial", escreveu The Athletic, braço esportivo do New York Times. De acordo com a ABC News, a Casa Branca chegou a oferecer seus advogados à Federação de Futebol dos Estados Unidos para ajudar no recurso junto à Fifa.

A versão americana do britânico Guardian afirma que a intervenção de Trump com os cartões vermelhos prejudica mais do que ajuda a participação dos EUA na Copa do Mundo. "A percepção de que os EUA receberam uma vantagem injusta -e receberam, sem dúvida- prejudica seu potencial de classificação", escreveu a publicação.

Em entrevista a Gary Lineker no programa "The Rest Is Football", da Netflix, o ex-goleiro da seleção dos Estados Unidos Brad Friedel também criticou a revisão da punição aplicada a Balogun. "Na verdade, fico triste que isso tenha acontecido com o país", afirmou, ao comentar o impacto do episódio sobre a imagem da seleção americana.

Friedel afirmou que a intervenção do governo em uma decisão esportiva compromete o princípio de imparcialidade. "Ter um governo intervindo em uma decisão... O esporte deveria ser puro, deveria ter suas regras. As regras foram definidas antes do torneio", disse.

Questionado sobre como reagiria se estivesse no lugar de Mauricio Pochettino, técnico da seleção dos EUA, caso soubesse que a federação teria participado do episódio, Friedel foi ainda mais duro. Disse que, nessa hipótese, "talvez eu pedisse demissão antes do jogo".

Nem todos os veículos e comentaristas do país tiveram, porém, a mesma abordagem. A Fox News, mais alinhada à administração de Trump, deu mais destaque ao argumento do presidente de que a reversão da suspensão de Balogun corrigiria uma expulsão considerada injusta.

Comentarista da Fox, emissora que detém os direitos de transmissão da Copa do Mundo em inglês nos EUA, o ex-zagueiro da seleção americana Alexi Lalas teve uma discussão com um usuário nas redes sociais, após ele afirmar que a seleção americana estaria avançando no torneio por meio de uma trapaça. "Quem está trapaceando e como?", questionou Lalas.

O ex-jogador acrescentou que a decisão do árbitro Raphael Claus, responsável pela expulsão do americano, foi um "absurdo" e criticou a arbitragem do Mundial. "É preciso dizer que, se o nome dele fosse Messi, como vimos no início do torneio, ele ainda estaria em campo", em referência a uma falta do argentino no jogo contra a Argélia, na primeira rodada da fase de grupos.

Em seu ataque a Claus, Trump disse que não achou falta de Balogun no bósnio Tarik Muharemovic, mas admitiu que nem sequer sabia o que era um cartão vermelho até o lance. "Quando descobri, pensei: 'só pode ser uma brincadeira'."

Claus só expulsou o jogador americano após uma sugestão do VAR, comandado naquela partida pelo venezuelano Juan Soto.

Ao admitir a conversa com Trump, Infantino disse que tentou explicar ao presidente dos EUA como funcionam os processos da Fifa. "Expliquei que havia um processo legal em andamento envolvendo os órgãos judiciais independentes da Fifa e que o caso seria decidido no devido tempo pelos órgãos competentes", afirmou o cartola em nota.

A Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) disse que a decisão da Fifa "ultrapassou uma linha vermelha".

"A decisão de ontem de suspender por um período probatório de um ano a implementação da suspensão automática de um jogo após o cartão vermelho dado ao jogador Folarin Balogun ultrapassou uma linha vermelha. O futebol, como qualquer outro esporte, depende de regras, que são a base para uma competição justa, honesta e transparente. Às vezes, as regras são alvo de interpretação. Neste caso, não", escreveu a entidade.

A Uefa foi uma das primeiras confederações a se manifestar sobre o caso porque a Bélgica se sentiu especialmente prejudicada com o episódio, principalmente porque a Fifa rejeitou um recurso apresentado pela federação belga sobre a elegibilidade de Balogun para o jogo desta segunda-feira (6), em Seattle.

A Bélgica contestou formalmente a decisão da Fifa, afirmando que "não tinha outra alternativa senão contestar a elegibilidade [de Balogun] para a partida".

O comitê de apelação da Fifa, no entanto, considerou o pedido apresentado pela RBFA (Real Associação Belga de Futebol) "inadmissível". A decisão foi tomada sob o argumento de que "a RBFA não é parte no processo e, portanto, não tem legitimidade para recorrer da decisão".

Em meio à polêmica criada por Trump, a Fifa escolheu Adham Makhadmeh, da Jordânia, para apitar o duelo entre EUA e Bélgica pelas oitavas de final da Copa do Mundo.