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Inglês veio ao Brasil por causa da seleção de 82 e nunca mais foi embora

por Folhapress
Publicado em 11/06/2026 às 17:35
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O inglês Ian Bloom nasceu em Leeds, no norte da Inglaterra, e vive há quase quatro décadas em São Roque, no interior de São Paulo. Veio ao Brasil movido por uma paixão antiga pelo futebol brasileiro, especialmente a seleção de 1982, e acabou transformando essa admiração em uma mudança definitiva de vida.

Hoje, aos 63 anos, é professor de inglês, construiu família no país e se tornou cidadão honorário da cidade onde decidiu ficar.

O primeiro contato de Ian Bloom com o futebol brasileiro aconteceu ainda na infância. O pai havia comprado um filme 8 milímetros sobre a final da Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil venceu a Itália por 4 a 1 e conquistou o tricampeonato mundial. Mesmo sem assistir ao vivo, o inglês ficou impressionado com a forma diferente como os brasileiros jogavam.

A paixão cresceu nas copas seguintes, especialmente em 1974 e 1978, mas foi em 1982, com a seleção de Telê Santana, que tudo mudou. Ficou fascinado pelo futebol de Zico, Sócrates, Falcão e Júnior. Depois que viu uma foto do zagueiro Oscar com a camisa da seleção em uma revista, ele decidiu que precisava ter a camisa brasileira. Procurou em lojas inglesas, mas não encontrou.

A obsessão pela camisa levou Ian a escrever cartas para brasileiros que conheceu por um dono de um pub inglês que frequentava. Sem falar português, iniciou uma troca de correspondências com pessoas de Campinas, São Roque e Ribeirão Preto. A partir dali, começou também a aprender o idioma.

Anos depois, em 1984, veio passar férias no Brasil. Ficou hospedado nas casas dos amigos que conheceu por cartas e, durante uma visita ao Morumbi para assistir a uma partida entre São Paulo e Vasco, adotou o clube paulistano para a vida.

"São Paulo perdeu de 1x0 mas desde então virei são paulino."

Hoje, a paixão continua espalhada pela casa: pulseira do São Paulo, cadeira do São Paulo, decoração tricolor no quarto e bandeira do clube na porta de sua casa. Como bom são-paulino, Ian brinca que detesta o Corinthians.

O RECOMEÇO NO BRASIL

Em 1986, Ian decidiu voltar ao Brasil definitivamente. Formado para ensinar inglês a estrangeiros, desembarcou no país com pouco dinheiro e um sonho: construir a vida aqui.

O plano inicial deu errado logo na chegada, quando descobriu que não teria onde morar. Ele tinha conversado, por cartas, com um amigo em São Roque, que disse que poderia hospedá-lo. Mas quando o encontrou, disse que não seria mais possível.

"Fiquei pensando em duas coisas, pegar o avião de volta ou ficar desabrigado e me virar, mas eu não queria desistir do meu sonho que era dar aula de inglês aqui."

Foi então que um desconhecido mudou sua trajetória. Um homem chamado John, natural de Macau, na China, ouviu a conversa e ofereceu abrigo no apartamento dele.

Sem falar português direito, Ian sobreviveu como podia. Aprendia palavras em lanchonetes, andava com um dicionário de bolso e chegou a viver de mexerica comprada em feiras.

"Eu apontava para fruta e eles me davam um saco cheio de mexerica."

Pouco tempo depois, conseguiu emprego em uma escola de inglês em São Roque. Após nove meses, saiu da escola e começou a dedicar-se a aulas particulares.

"Eu ia de porta em porta perguntando se alguém precisava de um professor de inglês."

Foi em São Roque também que conheceu a esposa, Regina, também professora. Os dois tiveram uma filha, Laura Bloom, que recentemente se mudou para Oxford, na Inglaterra, na mesma idade em que Ian veio para o Brasil: 25 anos.

Em 2014, após quase 40 anos vivendo na cidade, Ian recebeu o título de cidadão honorário de São Roque, reconhecimento que, para ele, marcou sua trajetória no Brasil sua trajetória no Brasil. "Para mim, parecia noite de Oscar, eu nunca vou esquecer na minha vida."

Futebol, memória e o Brasil de hoje

A paixão pelo futebol, que levou Ian ao Brasil, nunca desapareceu. Hoje, ela divide espaço com a rotina de professor de inglês e a vida em família em São Roque. Ainda assim, os jogos da Seleção Brasileira seguem sendo tratados como compromisso importante dentro de casa.

"Sempre peço para minha esposa remarcar as aulas para eu assistir aos jogos." Recentemente, ele comprou duas bandeiras de mesa da seleção e diz que gostaria de acompanhar todos os jogos da Copa.

Após décadas assistindo futebol brasileiro, Ian acredita que o estilo que o encantou nos anos 1970 e 1980 foi se perdendo com o tempo.

Mesmo assim, continua acompanhando o futebol brasileiro de perto. Para ele, foi justamente aquela forma de jogar que viu nas copas que mudou o rumo da própria vida.