Influência de Trump não é inédita: Copa de 1934 'serviu' ao regime fascista
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A interferência direta de um líder político trouxe uma atmosfera de perplexidade para a Copa do Mundo de 2026. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou ter intercedido junto à Fifa para reverter a suspensão do atacante Folarin Balogun, expulso contra a Bósnia.
Com o perdão da entidade, o atleta foi liberado para enfrentar a Bélgica pelas oitavas de final. Embora o caso tenha trazido revolta principalmente em entidades e outras seleções, a história dos Mundiais mostra que a influência de chefes de estado sobre a Fifa está longe de ser inédita.
PROPAGANDA PARA O FASCISMO
O exemplo mais emblemático ocorreu em 1934, quando Benito Mussolini transformou a Copa do Mundo da Itália em um massivo veículo de propaganda fascista. O ditador controlou pessoalmente cada detalhe do evento para projetar ao mundo uma imagem de superioridade do seu regime. A submissão da Fifa foi tamanha que o presidente da entidade na época, Jules Rimet, admitiu a criação até de um troféu próprio para o torneio, a Coppa Del Duce, bem maior do que a taça oficial.
Para abrir caminho para a Itália, Mussolini mudou a legislação e facilitou a naturalização de atletas estrangeiros de origem italiana. O regime "importou" astros argentinos vice-campeões em 1930, como Luisito Monti, Raimundo Orsi e Enrico Guaita, além do brasileiro Guarisi. A manobra desestruturou a rival Argentina e fez com que o Uruguai, então detentor do título, boicotasse o torneio e se recusasse a viajar para a Europa.
O controle sobre a competição estendeu-se à arbitragem. Refém do governo, a Fifa aceitou que a Itália selecionasse juízes de partidas. O sueco Ivan Eklind foi escalado para apitar os dois jogos decisivos da Itália: na semifinal contra a Áustria e, surpreendentemente, repetido na final contra a Tchecoslováquia.
No dia 10 de junho de 1934, a Itália venceu por 2 a 1 na prorrogação sob os olhares de Mussolini e ao som do hino fascista, consolidando uma engrenagem política que, quase um século antes de Trump, já utilizava os gramados como palanque.
RESPOSTA DA FIFA
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu a autonomia da entidade e afirmou que, embora tenha recebido uma ligação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, as decisões do Comitê Disciplinar são soberanas e tomadas com base nas regulamentações aplicáveis. O dirigente reforçou que o respeito à independência dessas instituições é fundamental para proteger a integridade das competições.