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Herói do Brasil sofreu na Série D e hoje encanta Ancelotti na Copa

por Folhapress
Publicado em 01/07/2026 às 11:00
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NOVA JERSEY, EUA (UOL/FOLHAPRESS) - Gabriel Martinelli tem conquistado a confiança de Carlo Ancelotti a cada dia na seleção brasileira. Além do gol da classificação na vitória por 2 a 1 sobre o Japão, o atacante do Arsenal se tornou o modelo perfeito de alguns mantras que o treinador tem repetido nesta Copa do Mundo, um cenário bem diferente de quando foi ignorado pela CBF nas seleções de base —ele era jogador do Ituano, onde atuava como meia, posição em que foi escalado no 2º tempo diante dos japoneses.

A escolha por Martinelli, de 25 anos, para o Mundial foi uma decisão de Ancelotti. O atacante não era unanimidade entre a comissão técnica por conta da temporada irregular com apenas um gol em 30 jogos na Premier League, mas o italiano optou por bancar o brasileiro que já o encantava desde os tempos em que ele comandava o Real Madrid.

Nesta Copa do Mundo, o jogador do Arsenal conquistou o restante da equipe e se tornou uma referência do discurso de Ancelotti, que tem reforçado em todos os jogos a necessidade de ter calma e não se abalar nos momentos de pressão. Essa é uma qualidade que o ex-jogador Edu Gaspar, que foi coordenador técnico de seleções da CBF até 2019 e depois diretor do Arsenal até 2024, vê como ponto forte em Martinelli.

"O Martinelli tem algo que é espetacular. Ele trata todas as situações da mesma maneira. Não importa se ele é titular, reserva, destaque, ele é sempre a mesma pessoa e vai treinar forte como todos os dias. Ele é um cara muito equilibrado. Ele não vai ser aquele cara empolgado na vitória. Também não é aquele que fica abatido na derrota. Ele quer vencer e trabalha forte todos os dias da mesma maneira para isso. Eu valorizo muito essa qualidade no Martinelli. Não tinha uma pessoa melhor pelo Brasil para fazer este gol", disse Edu ao UOL.

"Eu fiz a negociação das três renovações de contrato do Martinelli. Eu tenho muito orgulho disso porque ele entregou muito para o clube. Quando negociamos o último contrato, eu jantei com ele e a família dele. Falei que era um contrato para mudar para sempre a vida de todos. Falei com um tom de cuidado, mas nem precisava porque o Martinelli é tão simples, tão educado. Ele não é um cara que fica deslumbrado com as coisas e se perde", complementou Edu.

CBF IGNOROU MARTINELLI NA BASE

Embora seja um jogador consolidado no futebol europeu após sete anos no Arsenal, Martinelli ainda era desconhecido de uma boa parte da população que não acompanha futebol internacional. Revelado pelo Ituano, ele não passou por uma grande equipe do Brasil e isso causou alguns prejuízos na sua carreira.

Um deles foi não ter passado pelas seleções sub-15, sub-17 e sub-20, apesar de ser alvo desde adolescente de grandes equipes do futebol europeu. Chegou a fazer testes no Barcelona e Manchester United, mas decidiu permanecer e não recebeu chances de usar a amarelinha pela base.

Em um primeiro momento, o motivo era o desconhecimento da comissão técnica. Depois, foi por opção técnica mesmo após receber relatórios e vídeos de Juninho Paulista, então gestor de futebol do Ituano e atual dono da SAF do clube. O argumento pela não-convocação era que Martinelli não enfrentava as grandes equipes do Brasil e que o profissional do Ituano estava na Série D do Brasileirão.

Só em 2019, quando saiu da base e subiu para o profissional do clube paulista, é que Martinelli ganhou a atenção no país e foi notado pela CBF. Marcou seis gols no estadual e entrou na mira de grandes clubes do Brasil.

A melhor investida foi do Palmeiras, mas o atacante já tinha um acordo avançado com o Arsenal e foi para a Inglaterra por 7 milhões de euros. Quem decidiu fazer a aposta foi Everton Gushiken, então observador técnico do clube inglês no Brasil e que já monitorava Martinelli desde criança.

"Eu acompanho o Martinelli desde que ele tinha 14 anos de idade. Ele não era aquele jogador de habilidade especial, mas era muito acima da média na parte técnica, tática e mental e cresceu muito no sub-17. É um cara concentrado, que trabalha forte. Isso chama a atenção", explicou Gushiken, observador do Arsenal na época e que nesta quarta-feira (1) trabalha na equipe técnica da liga da Arábia Saudita.

A princípio, Martinelli chegaria para ser jogador da equipe sub-23. Mas bastou uma semana de treinamentos para que ele mudasse de categoria.

"Quando eu cheguei no Arsenal, a contratação do Martinelli já estava feita. Nós chegamos juntos. O projeto para ele era jogar no sub-23, mas ele foi para a pré-temporada nos Estados Unidos e o Unai Emery (técnico do Arsenal) se apaixonou pelo Martinelli. Ele me chamou e disse 'Edu, que garoto é esse?'. Ele conhecia o Martinelli, mas não sabia que o potencial dele era tão grande. Ele ficou bem impressionado e pediu para ele ficar no profissional. O Martinelli foi contratado para jogar no sub-23 do Arsenal, mas nunca nem vestiu a camisa do time de base", disse Edu.

Martinelli se consolidou no Arsenal. Já são sete anos de clube, com 278 partidas e 62 gols marcados. Foi campeão da Premier League, quebrando um jejum de 24 anos sem conquistas do Campeonato Inglês.

Avesso a entrevistas e comerciais, Martinelli foi novidade para milhões de brasileiros na segunda-feira (29) ao marcar o gol da vitória sobre o Japão. Mas nem no dia de herói tentou explorar isso de forma mais midiática. Após a partida, ele evitou falar com a imprensa na zona mista. O comportamento mais recluso faz com que ele não receba tanta atenção e carinho da torcida brasileira, diferente do Arsenal, onde Edu o define como "queridinho".

"O Martinelli é o cara do trabalho. Por isso que eu acho que ele foi a pessoa certa para marcar este gol. Ele não se deslumbra. É amoroso, educado, um exemplo para todos do time. Nem quando ficava no banco ele causava algum problema. Ele é o queridinho do Arsenal", apontou Edu.

Com Martinelli em alta, o Brasil volta a campo no domingo (5) para enfrentar a Noruega, às 17h, em Nova Jersey. O vencedor do duelo avança para as quartas de final da Copa do Mundo.