Gremista viaja de fusca até os EUA para acompanhar seleção brasileira na Copa
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se o hino do Grêmio eternizou o verso "até a pé nós iremos" em 1953, o torcedor gaúcho Guilherme Martin, 33, mostrou que também dá para seguir o time de fusca --e bem longe.
O gremista, que acompanhava o clube viajando pela América do Sul de carro, ampliou seu roteiro neste ano e já percorreu mais de 20 mil quilômetros para assistir aos jogos da seleção brasileira na Copa, nos Estados Unidos.
Dono do projeto "Até de Fusca Nós Iremos", Martin saiu de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no início do mês de março. De lá para cá, passou por 13 países até chegar a terras americanas.
O projeto teve início em 2024, quando o gaúcho decidiu acompanhar o clube pela América do Sul. O primeiro destino foi La Paz, na Bolívia, em partida contra o The Strongest pela Copa Libertadores.
"Até o final do ano passado, eu já tinha percorrido mais de 80 mil quilômetros andando por Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Peru, além de quase todos os estados brasileiros para ver os jogos do Grêmio na Série A", disse Martin em entrevista à Folha.
A relação do torcedor com o futebol começou na infância. Filho de pais colorados, ele passou a frequentar o antigo estádio Olímpico com amigos quando tinha 10 anos.
"Na década de 90, o Grêmio ganhou muitos títulos e a criançada da minha rua era gremista. Acho que acabei sendo influenciado por isso. Quando o Grêmio está mal, a minha família debocha."
Com o passar dos anos, as idas ao estádio no bairro Azenha, na capital gaúcha, transformaram-se em viagens para acompanhar o time, relembra o gaúcho.
"Quando comecei a trabalhar e ter o meu dinheiro, passei a viajar para ver os jogos do Grêmio. Comecei pelo interior do estado nos campeonatos regionais, aí fui para o primeiro jogo fora do Rio Grande do Sul e depois para as partidas da Libertadores. Eu sempre gostei de viajar para ver jogos do Grêmio de ônibus ou avião, quando dava."
Para arrecadar dinheiro, decidiu vender uma miniatura da taça da Libertadores comprada nos arredores do La Bombonera, estádio do Boca Juniors. A iniciativa mobilizou cerca de 50 seguidores no Instagram.
Ao cruzar a fronteira entre Argentina e Uruguai, as autoridades entenderam que ele transportava a mercadoria para comercialização irregular. A miniatura foi apreendida, e o fusca também ficou retido.
"Comprei o meu primeiro fusca em 2021 e o perdi na fronteira em junho de 2024. Em agosto, comprei outro, que é o que eu uso hoje, para dar continuidade ao meu projeto", conta Martin.
O veículo anterior foi recuperado somente neste ano, em fevereiro, quando ele conseguiu regularizar a situação.
O segundo fusca escolhido pelo gremista é um modelo de 1971 e tem a pintura azul em homenagem ao tricolor gaúcho. O capô está adesivado com o escudo do time. As portas levam a logomarca do projeto, e o teto conta com uma bandeira do Brasil.
O plano de levar o fusca à Copa dependia da aprovação do visto americano. Com o documento em mãos em junho do ano passado, o torcedor começou a organizar a viagem que cruzaria o continente rumo aos Estados Unidos.
"No final das contas, pesquisei na internet e vi que não era tão complicado. Na grande maioria das fronteiras, pedem passaporte e documento do carro. Lá [EUA], tu tens que fazer um seguro e um documento de importação temporária para cruzar o país. Cada país cobra um valor", conta Martin.
A estimativa inicial para bancar a viagem era de R$ 80 mil. Segundo o gaúcho, os gastos ficaram entre R$ 80 mil e R$ 90 mil apenas na ida, sem contar o retorno ao Brasil após o Mundial.
Vaquinha virtual
Para financiar a aventura, Martin utilizou economias pessoais, abriu uma vaquinha virtual e promoveu sorteios nas redes sociais.
Hoje, ele trabalha como criador de conteúdo e soma mais de 178 mil seguidores, que acompanham registros da viagem. Antes, atuava como dealer de pôquer em competições.
"Eu me planejo para rodar de 500 a 600 quilômetros por dia. À noite, procuro postos de gasolina para parar em segurança e tomar banho." A velocidade média do carro nas viagens se mantém em 80 km/h.
Ao longo do caminho, ele contou com a ajuda de amigos e seguidores que o receberam em suas casas em países como Chile, Colômbia, Panamá e Costa Rica. As hospedagens ajudaram a reduzir os custos da jornada.
"A parte mais complicada para mim foi o México, porque lá não existem muitos postos para parar. Eu fiquei até uns três dias sem tomar banho. Coisa mais triste do mundo", conta.
Contratempos no trajeto
Perrengues também marcaram a viagem de Martin. Na Argentina, dois pneus traseiros estouraram ao mesmo tempo depois de o fusca passar por um buraco.
Na Colômbia, Martin teve celular e drone roubados, além de enfrentar falhas nos freios, que se repetiram no México.
No Panamá, a quebra dos parafusos que sustentavam a caixa de câmbio o deixou quatro dias parado.
Ao chegar aos Estados Unidos, ainda precisou lidar com um grande vazamento de óleo.
O torcedor cruzou a fronteira dos Estados Unidos em 3 de junho e chegou a Nova York no dia 9.
Sem entradas compradas até então, conseguiu ingressos para as partidas da seleção brasileira como representante da torcida jovem do Grêmio no Movimento Verde e Amarelo, ligado à União das Torcidas. Segundo ele, os tíquetes foram comprados com valores abaixo do mercado.
A intenção é permanecer no país até o fim da Copa do Mundo mesmo que o Brasil não avance na competição.
Depois, o gaúcho deve percorrer a histórica rota 66, passando pela Califórnia, antes de iniciar o retorno a Porto Alegre.