EUA apostam em herança de 1994 para mascarar fracasso da venda de ingressos
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Copa do Mundo traz sentimentos distintos em um território continental como os Estados Unidos, um dos três anfitriões do evento de 2026 ao lado de México e Canadá. As cidades que vão receber os jogos têm a tendência natural de viver a competição com maior intensidade, principalmente com a chegada dos visitantes estrangeiros, mas o desafio dos norte-americanos é aproveitar a evolução do futebol no território ao longo dos últimos anos.
Basquete, futebol americano, beisebol e hóquei ainda atraem mais atenção, mas a paixão pelo chamado soccer encontra espaço nos Estados Unidos. Sobretudo em uma geração que começou a ser construída no Mundial de 1994, realizado exclusivamente no território norte-americano, quando havia o temor pelo desinteresse total da população local.
Para a Copa de 2026, um estudo divulgado pela Nielsen aponta que os fãs norte-americanos de futebol tendem a ser mais jovens e de maior poder aquisitivo com 76% pertencendo às gerações millennial (nascidos entre 1981 e 1996) e Geração Z (entre 1997 e 2012) e um engajamento feminino mais alto do que na Europa. Esses grupos estão empurrando o futebol para o centro do debate.
Em 1994, a realidade era alarmante 16 semanas antes do Mundial. Uma pesquisa do Instituto Harris revelou que quatro em cada cinco norte-americanos não sabiam que o torneio seria realizado em seu país naquela ocasião. Apenas 25% da população tinha conhecimento de que o evento estava relacionado ao futebol. Mesmo com esse cenário desértico de entusiasmo, a Copa quebrou recordes e se tornou a edição com a maior média de público da história (68.991 pessoas por jogo), marca que perdura até nesta sexta-feira (12).
OBSTÁCULO FINANCEIRO
Para a edição atual, problemas jogam contra a popularização do Mundial. Há o temor interno pela presença dos Estados Unidos na guerra do Oriente Médio e uma política migratória agressiva no país.
O obstáculo principal é o alto valor dos ingressos. A FIFA promoveu uma inflação elevada nos preços das entradas dos jogos, decisão que motivou críticas até mesmo do presidente Donald Trump. A Fifa rebateu: "O valor é inferior à média dos preços dos grandes esportes americanos", disse o presidente da entidade, Gianni Infantino.
O sintoma disso é que os ingressos para a estreia dos Estados Unidos contra o Paraguai, no SoFi Stadium, não foram 100% esgotados com antecedência. Essa é uma situação atípica para partidas de abertura. "A esperança ou a aposta da FIFA é que, assim que as partidas começarem e os maiores jogadores do mundo competirem pelo prêmio mais prestigiado de todos, a ótica do esporte como negócio fique em segundo plano e a Copa do Mundo seja vista e vivenciada como a instituição global duradoura que ela é", diz Ben Shields, professor sênior da MIT Sloan School of Management, um estudioso transformação digital nos setores de esportes, mídia e entretenimento.
HISTÓRICO CONTRA O FUTEBOL
A raiz histórica do distanciamento americano com o futebol passa pela consolidação da televisão no século 20. Financiada por receitas publicitárias, a mídia dos Estados Unidos moldou o público antigo para esportes cheios de interrupções comerciais. O fluxo contínuo do futebol tradicional, sem pausas para anúncios, sabotava o faturamento das antigas emissoras.
Os jovens ajudaram a descentralizar esse modelo, por preferirem o consumo via plataformas de streaming. E também por possuírem maior conexão com o mercado global.
Para abraçar de vez esse público jovem e urbano, o ecossistema do esporte se adaptou. A FIFA promoveu parcerias com redes sociais e a Netflix para expandir a audiência da modalidade e encontrar fontes de receitas adicionais. "Os fãs serão levados para trás da cortina e mais próximos da ação do que nunca", promete seu secretário-geral da FIFA, Mattias Grafström.
Também houve a expansão do torneio para 48 seleções, ampliando o calendário para 104 partidas e gerando as narrativas de superação que o público adora. A grande final ainda contará com um show de intervalo estendido nos moldes do Super Bowl.
Paralelamente, há respaldo na evolução do mercado doméstico nos EUA: a Major League Soccer (MLS) conta com 30 times, registra médias de 22 mil torcedores por partida e já planeja migrar para o calendário europeu em 2027 para disputar a elite dos talentos globais. O crescimento do futebol na América do Norte, que registrou uma alta de 10,9% na base de fãs nos últimos cinco anos (superando 136 milhões de pessoas), foi alimentado por fenômenos sob medida para o consumo dessa geração mais conectada.
NÚMEROS FAVORÁVEIS NOS EUA
A chegada de Lionel Messi ao Inter Miami causou um impacto imediato, gerando um aumento de 173% na audiência linear. De acordo com a pesquisa da Performance Research, os millennials também comandam o principal motor familiar do torneio: o engajamento é esmagadoramente maior entre entrevistados com filhos menores de 16 anos (43% assistirão a muitos jogos, contra 17% dos que não têm filhos), mostrando que essa geração está ativamente transferindo a paixão pelo futebol para seus herdeiros.
Se em 1994 o torneio precisou "apresentar" o futebol para os EUA, em 2026 a missão é consolidar a paixão de uma geração que já consome o esporte, mas anseia por protagonismo global. Uma boa campanha da seleção norte-americana, que inicia o torneio nesta sexta-feira (12), contra o Paraguai, é um ponto fundamental para unir a população em torno da Copa do Mundo.