Culpa da geladeira: intervalo de jogo do Brasil explode consumo de energia
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Quando o árbitro apita o fim do primeiro tempo nos jogos da seleção brasileira, começa uma verdadeira corrida em milhões de lares: ir ao banheiro, abrir a geladeira para pegar uma bebida e até esquentar uma comida no micro-ondas para repor as energias. O hábito, aparentemente comum e inofensivo quando feito individualmente, ganha proporções gigantescas quando multiplicado por uma nação inteira de torcedores. O resultado? Uma explosão no consumo de energia que desafia os limites do setor elétrico nacional.
Durante a primeira fase da Copa do Mundo de 2026, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registrou oscilações históricas. No confronto contra a Escócia, o chamado 'efeito retomada' no intervalo gerou a maior rampa de elevação de carga das últimas três Copas: um salto de 5.632 MW em apenas nove minutos volume que equivale à soma do consumo médio de estados inteiros. O mesmo padrão de esvaziamento das redes durante a bola rolando (com quedas que superaram 9.000 MW) e disparadas abruptas no intervalo e pós-jogo já foram observados nos duelos anteriores contra Haiti e Marrocos.
PERIGO: O ABRIR E FECHAR DE PORTAS
De acordo com Leonardo Santos Caio Filho, engenheiro eletricista e diretor de Regulação e Tecnologia da COGEN (Associação da Indústria de Cogeração de Energia), o fenômeno tem 'culpados' muito bem desenhados na rotina do torcedor.
"Nos jogos, no intervalo, a maioria abre as geladeiras. Milhões ao mesmo tempo. Com isso, os compressores são acionados e demandam muita energia. Além disso, as pessoas ligam os micro-ondas para colocar pipoca ou aquecer alimentos. Isso dá um pico de energia", disse Caio Filho, em entrevista ao UOL..
O grande desafio para o Sistema Interligado Nacional (SIN) não é a falta de energia em si, mas sim a capacidade de entregar potência de forma imediata quando o consumo explode. "O Brasil tem uma grande intermitência, um excesso de energia e falta de potência. A energia está em sobra, principalmente a solar e a eólica", pontua o diretor da COGEN.
O problema crítico acontece quando a necessidade de rampa rápida coincide com o final do dia. "A energia solar acaba por volta das 17 horas, então você precisa repor o sistema muito rápido com hidrelétricas e termelétricas. A gente sofre para prover potência no fim do dia. Se for um jogo no fim da tarde, quando o sol estiver acabando, é difícil prover essa potência", explica Caio Filho.
PRÓXIMO DESAFIO: PARTIDA CONTRA O JAPÃO
Se os jogos no fim da tarde ligam o sinal de alerta para as usinas térmicas e hidrelétricas, a partida desta segunda-feira (29) contra o Japão, às 14h (de Brasília), trará um cenário distinto, mas igualmente complexo para o ONS. Por ser no início da tarde, o jogo acontecerá exatamente no momento de pico da geração fotovoltaica (eletricidade gerada a partir da luz solar por meio de painéis solares).
A previsão é de que, enquanto a bola estiver rolando, a demanda nacional desabe mais do que nos jogos anteriores - passando de uma média de 10% para cerca de 20% -, portanto a missão é equilibrar uma oferta elevada de energia com uma redução forte do consumo e, é claro, depois seguir com as ações necessárias para a retomada.