Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal

Copa dos 'filhos da diáspora' ocorre em país dividido com imigração

por Folhapress
Publicado em 13/06/2026 às 12:51
Ouvir matéria

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Suas certidões de nascimento exibem Madri, Marselha, Leeds, Berlim, entre tantas outras cidades natais na Europa. Mas os hinos que eles ouvirão em campo logo antes de cada apito inicial na Copa do Mundo são de nações africanas, caribenhas, asiáticas e oceanienses. O movimento que antes ocorria praticamente em só uma direção agora se capilariza: quase 300 jogadores atuarão por seleções que não são de seus países de nascimento.

A Copa do Mundo de 2026 é a Copa dos chamados "filhos da diáspora", marcada pelo fenômeno da globalização e movimentos migratórios resultantes de séculos de colonização europeia pelo mundo. Sobram os exemplos de atletas nascidos europeus atuando por seleções de outros continentes, movimento incomum no passado. E este Mundial é sediado, em sua maioria, em um país mal resolvido com a imigração.

"Esta Copa tem um peso político enorme. Ela acontece justamente nos Estados Unidos, um país construído pela imigração, mas hoje profundamente dividido em torno dela", afirma Alexandre Coelho, professor da Faap e doutor em Relações Internacionais pela USP.

'FILHOS DA DIÁSPORA': OS NÚMEROS DE UMA COPA GLOBAL

Em 2026, ao todo, 289 atletas vão jogar a Copa por países em que não nasceram, o que representa quase um quarto (23%) dos 1.248 atletas que disputarão o torneio. Somente oito seleções não têm jogadores nascidos em outro país.

Um dado curioso é a presença de irmãos jogando por diferentes seleções no Mundial. Serão quatro casos: Desire Doué (França) e Guela Doué (Costa do Marfim), Nico Williams (Espanha) e Iñaki Williams (Gana), Derrick Luckassen (Gana) e Brian Brobbey (Países Baixos) e Harry Souttar (Austrália) e John Souttar (Escócia).

"Claro que representar o país dos pais ou dos avós pode aumentar as chances de disputar uma Copa. Mas há também uma busca real por pertencimento. Muitos desses atletas estão dizendo, de certa forma: 'minha história não começa apenas no país onde nasci'. Ela passa pela família, pela diáspora, pela memória colonial e pelas raízes ancestrais", pondera Alexandre Coelho.

O cenário não é necessariamente atual, uma vez que a Itália bicampeã em 1934 e 1938 também contou com jogadores nascidos na Argentina e no Uruguai, incluindo Raimundo Orsi, o autor de um dos gols do primeiro título do país. O que muda hoje é a expansão desse cenário.

O movimento em 2026 é especialmente simbólico, segundo o professor, porque inverte uma lógica antiga. "Durante muito tempo, vimos jogadores africanos ou filhos de africanos fortalecendo seleções europeias. Agora, vemos muitos nascidos na Europa voltando a representar os países de origem de suas famílias. É quase um retorno simbólico da diáspora", prossegue.

Dois exemplos são mais marcantes: o dos convocados à seleção de Curaçao e dos jogadores nascidos na França.

No primeiro caso, são 25 jogadores nascidos na Holanda entre os 26 que representarão Curaçao. Trata-se de um projeto esportivo iniciado há mais de uma década para atrair jogadores nascidos no território holandês, mas que possuíam raízes na ilha do Caribe, que ainda pertence aos Países Baixos.

O segundo caminha por outra direção. São 99 jogadores nascidos na França que atuarão por 12 seleções espalhadas pelo mundo -além da francesa- com distintas motivações. Entre elas, evidentemente, um resgate das raízes familiares e da ancestralidade.

"Pela ótica étnico-racial, essa escolha representa também a busca desse orgulho de ser descendente de um lugar diferente daqueles que nasceram. Têm a oportunidade de resgatar esse orgulho, seja pelos pais deles, seja por eles mesmos. Não é uma escolha só pela Copa, esses atletas têm ligações", diz Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

PAÍS-SEDE DIVIDIDO PELA IMIGRAÇÃO

Embora três países sediem a Copa, 75% dela ocorrerá em apenas um: os Estados Unidos. E, enquanto no âmbito esportivo o torneio será representado pelos movimentos de diáspora, no político o Mundial é marcado pelos problemas de imigração desde antes de seu início.

Vistos atrasados aos jogadores do Irã, país em guerra com os EUA, e negados a outros membros da delegação iraniana, presença barrada a um árbitro somali, interrogatório de horas a um atacante iraquiano são alguns dos exemplos que fizeram essa Copa distinta das anteriores em relação à recepção em um país-sede aos visitantes.

Embora boa parte da população local apoie ações contra imigrantes ilegais, cerca de seis em cada dez consideram que as políticas repressivas de agentes do ICE foram longe demais.

"As restrições de vistos, as tensões com o Irã e o debate sobre segurança migratória mostram uma contradição: celebra-se um evento global, mas ao mesmo tempo se controla duramente quem pode circular, torcer e representar", considera Alexandre Coelho.

EUROPEU QUANDO GANHA, AFIRCANO QUANDO PERDE: CENÁRIO EXPÕE RACISMO

Encaminhando-se para sua quarta Copa do Mundo, o centroavante Romelu Lukaku, da Bélgica, deu uma entrevista marcante às vésperas do Mundial da Rússia, em 2018, sobre as relações raciais que enfrenta por ser descendente de congoleses e representar uma nação europeia em campo. "O racismo está aí. Se eu vou mal em um jogo, eles se dizem que sou "belga com descendência congolesa", afirmou o atacante à The Players Tribune.

Em 2020, o lateral Patrice Evra, ídolo do Manchester United e da França, também abordou o tema ao reagir a uma entrevista de Nöel Le Graët, então presidente da FFF (Federação Francesa de Futebol), que disse não haver racismo no futebol. "Há muitos exemplos [de racismo] e me sinto obrigado a contestar Le Graët. Quantas cartas racistas recebemos? Em quantas estava escrito: 'Deschamps, pegue seus macacos e vá para a África'? Quantas cartas nós recebemos? Vocês esconderam, mas eu vi algumas. Recebemos até caixas cheias de fezes", protestou Evra.

Ao avaliar as escolhas atuais de atletas nascidos europeus por seleções africanas, como Senegal, Costa do Marfim e Gana, Marcelo Carvalho aponta o racismo como uma possível influência. "Não podemos esquecer que eles devem, né, como a maioria dos jogadores devem sofrer racismo. Devem perceber, principalmente os franceses, o quanto muita gente não gosta deles", comenta o diretor do Observatório do Racismo.

O problema na França remonta a tempos anteriores: a seleção foi campeã pela primeira vez em 1998 com a chamada geração "black-blanc-beur" (negra-branca-árabe). Nomes como Thuram, nascido em Guadalupe, Desailly, nascido em Gana, e Zinedine Zidane, descendente de argelinos, foram alguns dos grandes destaques da conquista até então inédita para a França.

À época, em 1996, o fundador do partido Frente Nacional e um dos nomes mais relevantes da extrema-direita francesa, Jean-Marie Le Pen afirmou se sentir frustrado pela maioria dos jogadores de sua seleção ser "artificial". Le Pen não considerava atletas oriundos de colônias como aptos a representar a seleção e os criticava por supostamente não saberem cantar o hino nacional. Após dois anos, o país celebraria sua primeira Copa graças a Zidane, Thuram e companhia.

Para Alexandre Coelho, o olhar de setores das sociedades europeias sobre esses jogadores expõe contradições profundas. "A fala de Lukaku [sobre racismo] é muito forte porque mostra que, em várias sociedades europeias, o pertencimento ainda é condicional. A nacionalidade plena muitas vezes é concedida no sucesso e retirada no fracasso", diz ele.

A globalização, segundo o professor, ajudou a tornar essas identidades mais visíveis e pode combater preconceitos ao mostrar que as nações modernas são plurais, mestiças e formadas por migrações. Porém, continua, ela não eliminou o racismo.

"Em alguns casos, a globalização até torna o racismo mais evidente. O jogador circula pelo mundo como talento global, mas continua podendo ser tratado como estrangeiro dentro do próprio país onde nasceu", completa.