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Conheça a cartola da Noruega que peita a Fifa e ousou criticar prêmio dado a Trump

por Folhapress
Publicado em 04/07/2026 às 12:14
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RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Quando a câmera da transmissão focar no camarote dos dirigentes durante o Brasil x Noruega de domingo, não se surpreenda com a mulher que estará ali. Lise Klaveness é a presidente da Federação Norueguesa.

A presença dela no ambiente político do futebol já seria um recado por si só. Afinal, mulheres ainda são raridade nos assentos mais importantes do mundo da bola. Na Federação Norueguesa, ela foi a primeira, em 120 anos de história da entidade.

Mas além da questão de representatividade, a dirigente de 45 anos, que é ex-jogadora e advogada, notabilizou-se por ser uma voz que toca em algumas feridas.

Klaveness tinha semanas no cargo, ao fim de março de 2022, quando tomou a palavra para um discurso no congresso da Fifa (Federação Internacional de Futebol), em Doha, no Qatar. Na ocasião, ela apontou alguns elefantes na sala do país que sediaria a Copa daquele ano: questões humanitárias relativas a trabalhadores imigrantes nas obras da Copa e defesa dos direitos e segurança da comunidade LGBTQIA+.

Recentemente, já em 2026, a Federação da Noruega destoou da complacência de outras associações nacionais em relação ao prêmio da paz dado pela Fifa ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

'ESTREIA' CHAMOU ATENÇÃO

Naquele Congresso de 2022, o ambiente para Klaveness era novo, apesar de ser ex-jogadora. Ela disse em entrevista ao Sports Management Podcast que agir de forma direta e transparente lhe pareceu natural.

A dirigente atribui essa disposição à cultura da própria federação. Segundo Klaveness, há na Noruega o entendimento de que as pessoas precisam se manifestar e contribuir para uma boa governança.

"Eu não sou uma política. Não tenho ambições pessoais. Minhas ambições são mais relacionadas ao processo. A cultura nórdica é mais direta do que outras. Não temos que ofender pessoas deliberadamente. Eu tento ajustar. Não tem valor ofender as pessoas", afirmou Klaveness.

Ao ser questionada se estaria extrapolando um papel diplomático, Klaveness disse que os próprios estatutos da Fifa preveem regras de boa governança e transparência. E resguardar o princípio de que uma Copa do Mundo não deveria representar riscos de direitos humanos a ninguém.

Raciocínio parecido guia a oposição ao processo de escolha da Arábia Saudita como sede da Copa de 2034. Para ela, o problema não é o país em si, mas a condução que neutralizou uma disputa real entre possíveis candidatos.

De todo modo, Klaveness faz questão de separar essas críticas institucionais de hostilidade pessoal. Ela também não é tão radical e apolítica a ponto de não transitar nos corredores e no processo de decisão das entidades, tanto que foi eleita para o Comitê Executivo da Uefa neste ano.

"Sempre fui tratada com muito respeito quando viajei para países do Oriente Médio. (...) É importante que o futebol seja jogado em qualquer lugar, não só em países democráticos, onde a igualdade foi tão longe", afirmou.

O gesto de discursar em Doha tinha, ainda assim, um componente pessoal. Klaveness é casada com uma mulher e tem três filhos.

OPOSIÇÃO A PRÊMIO PARA TRUMP

Klaveness também optou por ser uma voz contra o prêmio da Paz da Fifa, dado a Donald Trump. "Queremos que o Prêmio da Paz da Fifa seja abolido", disse.

A Federação Norueguesa apoiou formalmente uma queixa movida pela ONG FairSquare, que pede investigação no Comitê de Ética da Fifa sobre a origem do prêmio e possível violação das regras de neutralidade política da entidade. O caso nasceu depois de Trump receber o troféu em dezembro de 2025, durante o sorteio dos grupos da Copa.

A RELAÇÃO COM O CAMPO

Fora dos gramados políticos, a trajetória de Klaveness ajuda a explicar essa disposição para o confronto. Ela jogou 73 vezes pela seleção norueguesa entre 2002 e 2011. Isso envolveu a Copa do Mundo feminina de 2003 e a Eurocopa de 2005.

Enquanto jogadora, ela se formou como advogada. Em entrevista à Uefa, contou que a vocação vinha dos tempos de adolescente, quando assistia toda semana à série americana LA Law.

Antes de chegar à presidência, ela era diretora técnica da Federação Norueguesa, supervisionando o futebol masculino e feminino. Era ela quem contratava técnicos e vivia perto do gramado, de jogadores e treinadores. A chegada à presidência não fazia parte dos planos.

"Nunca pensei nisso, era da administração. Não queria desafiar o chefe, o presidente na época. Eu tinha o trabalho dos sonhos, não me considerava uma política", disse.

Depois que o antecessor renunciou, perguntaram novamente se ela toparia disputar a vaga. Queriam que ela fosse a primeira mulher no posto, e assim aconteceu.

É com Klavennes na principal cadeira que a Noruega voltou a uma Copa do Mundo depois de 28 anos e chega às oitavas de final, embalada por uma geração que tem Erling Haaland e Martin Ødegaard como destaques.

Klaveness tem como filosofia de gestão manter o futebol de base e o de elite "muito próximos". Segundo ela, jogadores como Haaland, Ødegaard, Ada Hegerberg e Caroline Graham Hansen treinam no mesmo centro que crianças e equipes de futebol para pessoas com deficiência.

Na captação, há um aplicativo próprio desenvolvido pela federação para ajudar técnicos a diversificar os treinos e formar jogadores em todo o país. É também uma resposta a um desafio geográfico e estrutural. A Noruega tem poucos campos de qualidade, o que torna os gramados sintéticos essenciais para ter futebol o ano todo.

A dirigente já assegurou mais um mandato de quatro anos —até 2030. É esse histórico que Klaveness carrega para o camarote do MetLife Stadium, em Nova Jersey, domingo, quando Brasil e Noruega se enfrentam pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.