Complô e acusações de racismo: como redes sociais elegeram a Argentina vilã
ATLANTA, EUA, E SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Argentina chega à semifinal da Copa do Mundo para enfrentar a Inglaterra com uma das grandes histórias do torneio. Vitórias de virada conquistadas de forma épica e com Lionel Messi como protagonista. Ao mesmo tempo, a seleção se tornou uma espécie de vilã, ao menos nas redes sociais, herdando o posto dos Estados Unidos após o caso Balogun.
As acusações de que a Argentina tem sido favorecida pela arbitragem foram ganhando força ao longo do torneio. Os rumores explodiram no duelo contra o Egito quando o gol de Ziko foi anulado por falta em Lisandro Martínez no início da jogada. Outros lances também geraram reclamação como o pênalti em Tagliafico, em que Messi perdeu a cobrança, e um suposto pênalti não marcado em Salah.
Para quem acredita em tal tese, outros jogos também deixaram dúvidas. Houve quem reclamasse da expulsão de Embolo no duelo entre Argentina e Suíça. Em uma dividida com Leandro Paredes, o argentino levou cartão amarelo. Porém, o atleta havia sido punido de forma errada, já que se tratava de uma simulação por parte do suíço.
Aplicando uma nova regra da Fifa, o árbitro de vídeo acionou o árbitro de campo por erro de identidade. Desta forma, quem levou cartão foi Embolo que já tinha um amarelo e, por isso, foi expulso.
A repercussão sobre um suposto favorecimento tem sido tão grande que o jornal inglês Daily Mail ironizou a escolha do árbitro que vai apitar a semifinal. O norte-americano Ismail Elfath foi o escolhido.
A reportagem diz que Elfath seria o "árbitro favorito de Lionel Messi" e levanta suspeitas devido ao retrospecto dele nos jogos de Messi nos Estados Unidos, onde o craque argentino joga desde junho de 2023. O periódico afirma que o Inter Miami venceu todos os jogos apitados por Elfath desde a chegada de Messi.
As críticas sobre um suposto favorecimento da arbitragem à Argentina tomaram tal proporção que chegaram ao elenco. O zagueiro Lisandro Martínez reagiu aos comentários após a vitória contra o Egito.
"Acho que eles [árbitros] estão fazendo um excelente trabalho. Isso é algo para vocês [imprensa], que às vezes geram as controvérsias. Nós nos preocupamos em dar o nosso melhor em campo e nada mais", afirmou o defensor.
Ao analisar o tema, o treinador Lionel Scaloni pontuou que os julgamentos podem servir de motivação ao elenco argentino:
"Em 1986 [quando a Argentina venceu a Copa], também diziam que nos favoreciam, isso não vem de agora. A Argentina é uma das equipes que sempre animam o torneio. Há pessoas que não querem que a Argentina ganhe, mas é normal. Há bastante gente querendo que não ganhemos, talvez porque já vencemos a última."
Nas redes sociais, muitos são os que não gostam da Argentina pela forte rivalidade envolvendo o Brasil. Mas também por episódios de racismo envolvendo argentinos, desde os recorrentes casos de torcedores de clubes argentinos na Copa Libertadores aos próprios jogadores, que em 2024 comemoraram o título da Copa América com cânticos racistas sobre a seleção francesa.
Nesta edição do Mundial, dois casos recentes foram mais marcantes, um deles incluindo uma autoridade. A vice-governadora de Mendoza, Hebe Casado, postou uma mensagem no X após o duelo entre França e Paraguai pelas oitavas de final do Mundial. "Muito bem, Paraguai. O time africano, sem modos. Não suporto Mbappé". Após o episódio, a embaixada da França declarou Casado como "persona non grata".
Mas o caso que ganhou mais visibilidade foi com o influenciador norte americano IShowSpeed. No duelo contra o Egito, Speed foi hostilizado por argentinos e filmou um deles imitando um macaco. No jogo anterior contra Cabo Verde, Speed estava presente usando uma camisa do país africano. Há registros de vídeos em que ele foi hostilizado. A Fifa iniciou uma investigação para apurar os fatos.
NEGAÇÃO DO RACISMO PERSISTE NA ARGENTINA, DIZ SOCIÓLOGO
Um ponto importante para observar o problema na Argentina - e que difere de outros países, como o Brasil - é a incompreensão de seu povo sobre o racismo, destaca Nicolas Cabrera, doutor em antropologia e sociólogo argentino que estuda a violência entre torcidas de futebol.
"A principal característica é a negação do racismo na Argentina. Não é só a persistência do racismo, senão a dificuldade para reconhecê-lo como um problema, o que faz com que essas expressões racistas sejam tratadas como brincadeiras", afirma.
O racismo dos argentinos não opera apenas a partir da cor da pele, mas articulado com classismo, xenofobia e aporofobia, explica Cabrera: brasileiros, bolivianos, peruanos, indígenas ou até pessoas brancas em situação de pobreza são chamadas de "negros" de forma pejorativa no país:
"É o que chamam de 'marrón', cor que expressa os mestiços. Pobres também são chamados de negros, muitos com a pele branca. É o chamado 'racismo sem necessidade de raça'."
Para avaliar o problema no país, é preciso considerar a existência do mito da branquitude, argumenta o sociólogo. Trata-se de um projeto nacional baseado na ideia de que a Argentina devia se tornar uma nação branca e europeia, a partir da imigração europeia em massa - foram seis milhões de imigrantes europeus na virada do século XX -, campanhas militares contra o povo indígena e do desaparecimento das categorias raciais nos censos nacionais.
Acerca da torcida contra a Argentina intensificada nas fases eliminatórias, Cabrera lembra que também há como problematizar debates raciais dos outros três países semifinalistas:
"A França atualmente tem 13 colônias no mundo, muitas com populações negras. Na Espanha, vimos um monte de casos de racismo, o melhor exemplo é o que sofre Vinicius Júnior. Já a Inglaterra é o maior império colonial do século XIX, que lucrou por décadas com o tráfico de ilegal de escravizados", afirma o pesquisador do Observatório Social do Futebol da UERJ e professor da UFRJ.