Como nasceu a regra do VAR que gerou anulação de gol no Egito x Argentina
RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - A anulação de um gol do Egito contra a Argentina deixou revoltados os faraós e quem torcia contra o time de Messi nas oitavas de final da Copa do Mundo. Por trás da comemoração frustrada de Zico, uma definição prevista no protocolo do VAR.
"Para decisões/incidentes relacionados a gols, pênaltis (ou não marcação de pênaltis) e cartões vermelhos por impedir uma oportunidade clara de gol (DOGSO), pode ser necessário revisar a fase de ataque que levou diretamente à decisão/incidente; isso pode incluir a forma como a equipe atacante recuperou a posse de bola com a bola em jogo", diz o documento.
Ou seja, por esse princípio, é preciso checar a fase de ataque completa antes de validar um gol -ainda que não haja definição exata ou detalhamento sobre quando a fase de ataque começa.
Esse conceito está presente desde a primeira versão do protocolo desenvolvido pela International Board (Ifab), órgão que define as regras de futebol. Não basta apenas analisar a ação imediatamente anterior ao gol, mas é preciso checar a jogada como um todo.
"Isso foi muito debatido nos painéis do Ifab antes de formular o protocolo. Havia ideia inicial que só jogadas imediatamente antes do gol pudessem ser anuladas. Mas, por consenso, chegou-se à decisão de que toda infração que impacta o resultado final de um gol ou pênalti deve ser checada e não pode beneficiar o infrator, independentemente da distância e do tempo", disse à reportagem o brasileiro Wilson Seneme, que era presidente da comissão de arbitragem da Conmebol e fazia parte do painel técnico do Ifab quando o protocolo do VAR foi desenvolvido.
Segundo Seneme, o Ifab identificou essa necessidade nas análises das jogadas ocorridas durante os testes com a nova ferramenta.
Outro brasileiro, Manoel Serapião, também participou do pontapé inicial do debate sobre a implementação do VAR no futebol. Para ele, a fase de ataque hoje em dia ficou muito longa.
"Nosso projeto, que foi discutindo em 2015, já contemplava isso. Mas em uma jogada imediatamente anterior. Que fosse uma questão de causa e efeito. Não em um caso em que a defesa estivesse completamente montada. Eles alteraram. Chegamos a criticar isso, dizendo que o futebol tinha que preparar seus árbitros para não errarem", lembrou ele à reportagem.
No caso concreto de Argentina x Egito, quando o VAR francês Jerome Brisard chamou o árbitro de campo, o compatriota François Letexier, foi para verificar que Lisandro Martínez tinha recebido um pisão na origem do contra-ataque do Egito.
Como efeito direto da roubada de bola -na visão da arbitragem, faltosa-, veio o gol de Zico, anulado. Naquele momento, seria o segundo gol do time africano.
"O segundo gol do Egito foi anulado de forma correta pela arbitragem. Na origem da jogada, antes da finalização do Zico, houve uma infração por parte do jogador do Egito ao recuperar a bola do seu adversário. Há um pisão no pé. E na sequência, nessa jogada vertical, sai o gol do Zico", disse a comentarista e ex-árbitra assistente, Ana Paula de Oliveira.
"Apesar de eu entender a marcação da falta, é uma jogada que você pode interpretar como não falta, em função dos critérios que a Fifa vem adotando. Para mim, perde bastante a possibilidade do uso da ferramenta VAR nesse tipo de jogada muito interpretativa", contrapõe Seneme.
No Brasileirão, já houve polêmica pela anulação de gol em caso similar, como foi o do Fluminense sobre o Mirassol, em 2025.
QUANDO COMEÇA A FASE DE ATAQUE?
Nos áudios do VAR aqui no Brasil, dá para perceber um jargão: "Checando app". É a sigla para a expressão em inglês attacking phase of play (fase de ataque), que está no documento do VAR.
No Argentina x Egito, a reclamação ficou mais direcionada à interpretação de que o pisão foi faltoso do que se necessariamente foi ali que começou a fase de ataque.
Além da discussão sobre a existência de falta, o Ifab e a Fifa não deram até hoje uma orientação mais clara, no papel, sobre quando começa a fase de ataque. Por isso, há um componente interpretativo na aplicação da recomendação.
"Isso sempre ficou muito aberto. É muito sobre o entendimento e a leitura da jogada. Do começo ao final dela. Tem que ter essa construção de fase de ataque, sem que se interrompa. Tem que ser um caminho direto para o ataque. Tem que ver se um passe para trás armou a defesa, se houve um rebote lá para o meio de campo. Toda vez que a defesa consegue se reorganizar e aparentemente se inicia uma nova ação, se interrompe a APP. É interpretativo", ressaltou Seneme.
Depois da anulação do gol, o Egito até teve mais um ataque de sucesso. Nele, sim, Zico comemorou o placar parcial de 2 a 0, já no segundo tempo diante dos argentinos. Mas Messi e Cia. não desistiram e buscaram uma virada épica para chegarem às quartas de final da Copa do Mundo.