Cafés com Vozinha e clima de subúrbio: brasileiro viveu Copa com Cabo Verde
RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Todos os brasileiros torceram e se emocionaram com Cabo Verde na Copa do Mundo. Porém, um teve o privilégio de vivenciar tudo de perto, integrado à delegação, participando das refeições, acompanhando as preleções e até mesmo assumindo o papel de churrasqueiro nas horas vagas. O nome dele é Roberto Silva, escalado pela Fifa para dar apoio logístico à equipe africana.
CLIMA DE SELEÇÃO DE 70 E DE SUBÚRBIO DO RIO
Roberto trabalhou como TLO (oficial de ligação de equipe, na sigla em inglês) de Cabo Verde. Trata-se de um cargo criado pela Fifa para cada seleção da Copa. Ele tem como missão ser um elo logístico entre a delegação e a entidade, oferecendo suporte na hospedagem, no transporte e em tudo o que for necessário na parte operacional.
Roberto já havia exercido a mesma função ano passado com o Flamengo, no Mundial de Clubes. Anteriormente, no Brasil, trabalhou no Athletico-PR, no Coritiba, no Fluminense, entre outros, até se mudar para os Estados Unidos, em 2014.
Mesmo com larga experiência no futebol, a vivência com os cabo-verdianos o marcou. Ele chegou a comparar com as seleções brasileiras das décadas de 70 e 80 no quesito da personalidade.
"O sentimento que tive com Cabo Verde é como se estivesse com a seleção brasileira nas décadas de 70 e 80. Um pessoal simples, que só queria jogar futebol, ser quem eles são, estar jogando pela nação. Eles sabiam da importância que tinham para a nação deles", diz Roberto à reportagem.
O clima leve e descontraído o fez voltar no tempo e se sentir em seu berço familiar, no subúrbio do Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro da Penha.
"Cada conversa que tinha com eles parecia que estava no IAPI da Penha (conjunto habitacional do bairro) com os vizinhos dos meus avós. Um clima gostoso, uma cultura que passei a conhecer mais a fundo e que é parecida com a nossa. Um povo caloroso, de braços abertos. Fiquei muito feliz pelo sucesso deles e pela forma como me receberam", afirma.
VIROU CHURRASQUEIRO APÓS PEDIDOS PARA COMER CHURRASCO BRASILEIRO
A língua portuguesa ajudou muito na forte influência da cultura brasileira em Cabo Verde. As músicas, a culinária e até mesmo os times de futebol são admirados pelos cabo-verdianos. Roberto revelou que muitos torcem para clubes do Brasil.
"Você vai conversando e eles vão falando: 'sou São Paulo, sou Flamengo, sou Corinthians, sou Vasco...", disse.
No quesito gastronômico, alguns dias eles fizeram a tradicional "cachupa" cabo-verdiana, que lembra bastante a nossa feijoada, mas com alguns ingredientes diferentes, como milho. Certa vez, porém, a delegação quis comer um churrasco brasileiro, e coube a Roberto ser o churrasqueiro.
"Eles pediram para fazer um churrasco porque queriam comer picanha. Virei o churrasqueiro da delegação (risos). Me convidar assim para fazer churrasco para eles, duvido que outra seleção tenha uma abertura dessa tão legal", afirma Roberto.
CAFÉS DA MANHÃ COM VOZINHA
O brasileiro revelou que Vozinha goleiro sensação da Copa era um dos primeiros a chegar para o café da manhã, algo que virou uma rotina e criou um laço entre eles.
"Ele sempre era o primeiro a chegar no café da manhã. Tinha uma varanda, ele chegava e a gente sempre batia um papo de manhã vendo o mar da Flórida. Ele não mudou, do primeiro ao último dia. Lembro que no terceiro jogo, quando já era sensação, atendeu todo mundo, todos que chegaram perto dele no hotel. Em nenhum momento deixou de dar um autógrafo, tirar uma foto", conta Roberto.
AZARÕES?: 'TODO MUNDO ACHAVA ISSO, MENOS ELES'
Cabo Verde foi taxado como azarão antes da Copa do Mundo. Na estreia contra a Espanha muitos apostavam numa goleada dos europeus, mas o empate e a boa atuação deram o recado de que eles não estavam a passeio.
"Todo mundo achava isso, menos eles. Incrível a confiança que tinham de que iriam fazer uma boa Copa. Eles acabaram me convencendo lá atrás com esse excesso de confiança, isso me contagiou. Eu realmente acreditava na classificação deles", diz.
O espírito corajoso se repetiu ao longo da competição, tanto nos outros jogos que garantiram a classificação na fase de grupos quanto no histórico duelo contra a Argentina na segunda fase, quando foram eliminados somente na prorrogação após empatarem em 2 a 2.
"O Bubista (treinador) é um cara incrível. Certa vez ele me falou: 'a gente joga do jeito que a gente joga, tem que ter o nosso estilo independentemente de quem enfrentarmos", disse Roberto, complementando:
A filosofia deles é a pessoa em primeiro lugar. Se não cuidar das pessoas, do relacionamento, não interessa o futebol. E outra coisa que o Bubista falou e que me marcou foi: 'a gente foca nas nossas deficiências, não nas virtudes'. E isso me pegou, porque normalmente focamos no que somos bons. Eles focavam onde tinham que melhorarRoberto Silva, ao UOL
TENTARAM LEVAR ROBERTO PARA FESTA EM CABO VERDE
A relação de amizade criada entre o brasileiro e a delegação de Cabo Verde foi tanta que eles tentaram até o último momento levar Roberto para a viagem de retorno ao país, onde foram recepcionados por um mar de gente.
Tentaram me convencer durante dias para eu ir com eles. Acabei não indo por questões da Fifa, dos procedimentos a serem feitos e eu tinha que voltar para casa porque era meu aniversário de casamento. Mas uma das coisas muito legais foi que, no meio da celebração, eles ficavam me mandando fotos, vídeos da chegada deles...
Um fato curioso é que minha esposa me viu e perguntou: 'você está triste?'. Aí respondi que só estava meio cansado. E no dia seguinte acordei meio baixo astral, e aí umas 11h, 12h toca meu telefone e era o chefe de segurança de Cabo Verde, um cara que passei muito tempo junto, o Chico. Ele me ligou e falou: 'só estou ligando para te dizer muito obrigado por tudo, meu irmão. Você é da nossa família, é um cabo-verdiano, venha para cá'. Então desliguei e meu astral subiu. Percebi que estava triste mesmo (risos)Roberto Silva, ao UOL