Brasileiro ex-Fluminense virou lenda no Marrocos e deixou legado para Copa
NOVA JERSEY, EUA (FOLHAPRESS) - O primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo é de certa forma um legado da vitoriosa história do país e do prestígio conquistado mundo afora. Sem trabalhos expressivos no Rio, onde nasceu, José Faria aproveitou da fama de ser brasileiro para se tornar uma lenda no Marrocos, onde passou a ser conhecido como Mehdi Faria após ter atingido um dos maiores feitos do futebol marroquino e africano.
Até 1986, nunca uma seleção da África havia passado de fase em uma Copa do Mundo. A primeira vez foi no Mundial do México, sob o comando do brasileiro que morreu em 2013 sem reconhecimento em sua terra, mas com status de lenda no Marrocos.
"Mehdi Faria é uma lenda do futebol do Marrocos. um mestre da estratégia. Ele foi um treinador vitorioso e brilhantemente inteligente na Copa do Mundo de 1986. Ele sabia como administrar os jogadores mentalmente, individualmente e coletivamente. Ele foi nosso mentor, nosso guia, nosso pai e aquele que nos propiciou a viver essa nova era no futebol", disse Mustapha El Hadaoui, um dos jogadores da seleção marroquina na Copa do Mundo de 1986 sob o comando do treinador brasileiro.
O feito de Mehdi Faria e o Marrocos segue ainda relevante nos dias de hoje. Fora 2022, quando foi semifinalista, o país nunca mais chegou no mata-mata em uma Copa do Mundo. Na história do torneio, apenas outras cinco seleções do continente se classificaram na fase de grupos: Camarões (1990), Nigéria (1994, 1998 e 2014), Senegal (2002 e 2022), Gana (2006 e 2010) e Argélia (2014).
A Copa do Mundo de 2026 será a sétima do Marrocos na história e a terceira consecutiva. Se hoje o país conta com nomes de relevância internacional, como Hakimi, que joga no PSG, Brahim Diaz, do Real Madrid, e Maszraoui, do Manchester United, muito se deve ao trabalho feito pelo brasileiro quatro décadas atrás.
O legado deixado pelo brasileiro fez com que ele passasse da ter uma forte identificação e idolatria no país a ponto de mudar de nome de José Faria para Mehdia Faria. A decisão aconteceu após ele se converter ao islamismo na década de 1990, quando já estava estabelecido como um grande nome no país por conta da campanha histórica na Copa do Mundo de 1986.
Quem acompanhou Mehdi Faria no Marrocos foi Jorvan Vieira, brasileiro que anos depois faria história ao comandar o Iraque, campeão da Copa da Ásia em 2007 em meio a uma guerra do país com os Estados Unidos. O feito virou o livro "Eu dedico o gol a (George W.) Bush", presidente do país norte-americano.
Apesar de ter recebido várias honrarias no Iraque e no futebol asiático, Jorvan não se coloca acima do homem que o levou para o Marrocos em 1983.
"O Faria érea um treinador fantástico, um estrategista fantástico. Eu aprendi muito com ele, mas eu nunca serei igual a ele. Ele foi um professor para mim", disse.
"Eu não queria sair do Brasil porque eu já tinha ganhado um bom dinheiro quando eu saí em 1978. Eu lembro que eu tinha um contrato de 6 mil dólares por mês e mais 30 mil dólares de luva. Minha ex-esposa até perguntou o que eu tinha feito na época, se eu tinha ficado maluco", relembrou com bom humor Jorvan Vieira antes de completar sobre a nova proposta.
"O Faria queria muito que eu fosse. Eu lembro que um general do Marrocos veio ao Brasil para conversar comigo. Eu falei que não ia, que tinha filho pequeno. Mas ele não aceitava. Disse que o Faria tinha prometido ao rei se classificar para a Copa do Mundo se eu aceitasse a proposta. Eu disse não, mas eles voltaram duas semanas depois e finalmente eu aceitei", contou Jorvan.
"Eu vim com essa promessa forte de classificar o time. Eu fiquei assustado. É muita responsabilidade. Mas era também muita confiança em mim. Naquela época era muito difícil se classificar para a Copa do Mundo. Muito mais que hoje. Qualquer um se classifica para a Copa do Mundo hoje. Nosso último jogo foi contra a Líbia. Nós fomos muito maltratados, a torcida arremessava pedras na gente, jogava prego com estilingue".
Após aceitar o convite da Federação Marroquina de Futebol, Jorvan Vieira foi peça importante no projeto de Mehdi Faria para mudar o futebol local não só como preparador físico, como foi contratado, mas também em outras funções que não existiam na época, como administrador e responsável pela logística de viagens da equipe.
"Nosso maior trabalho era melhorar a equipe fisicamente. Os clubes não faziam este trabalho. Era tudo muito precário. Mas se fizéssemos isso, tudo seria mais fácil porque o marroquino é de uma riqueza técnica grande. Faltava só o trabalho físico para depois trabalhar a estratégia e a tática. A tática no país era muito limitada também. Mas o Faria era um grande estrategista. Ele não falava francês, mas passava as mensagens de uma forma impressionante. Ele fazia uns gestos, dava sinais. Ele sempre dava um jeito".
Mesmo sem saber falar o árabe ou francês, línguas mais populares do Marrocos, Mehdi Faria conseguiu classificar a equipe para a segunda Copa do Mundo na história. Na primeira, em 1970, o time terminou em último em um grupo que tinha Alemanha Ocidental, Peru e Bulgária.
Com o brasileiro no comando, o time teve melhor sorte 16 anos depois. Em um grupo com Inglaterra, Polônia e Portugal, o time classificou com uma vitória e dois empates. Na fase seguinte, caiu com uma derrota por 1 a 0 para a Alemanha, mas suficiente para ganhar o status de lenda no país.
"Eu não sabia o que fazer. Eu lembro que o rei do Marrocos ligou para a gente. Era um telefone gigante, com uma antena enorme. Fomos recebidos com tapete vermelho no aeroporto e depois fomos para estádio para ser condecorados. O rei gostava muito do Faria. Eu lembro que uma vez ele nos chamou no palácio real, mas estava muito frio. O rei percebeu que ele estava com frio e colocou uma capa para cobrir ele do frio. Olha o respeito. Era assim que o rei do país tratava o Faria".
Se estivesse vivo, Mehdi Faria teria 93 anos e assistiria o segundo confronto entre Brasil e Marrocos em Copas. O primeiro foi em 1998, vitória do Brasil por 3 a 0, com gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto. Em caso de um novo confronto, o treinador ficaria dividido sobre qual lado torcer.
"O coração do Mehdi estaria dividido entre seu país e o país que o adotou. Ele se casou com uma marroquina, converteu-se ao islamismo, teve uma maravilhosa filha e um filho marroquino", disse Mustapha El Hadaoui antes de complementar a relação do treinador.
"O Mehdi pediu para ser enterrado em um cemitério muçulmano. O desejo dele foi atendido. Eu lembro do seu funeral, eu estava lá cercado pelo povo de todo Marrocos. Muitas pessoas mesmo. O Mehdi se foi, mas ele permanece eterno nos corações de nós marroquinos", relembrou El Hadaoui.