Polarização política: posso expor minhas opiniões no ambiente de trabalho?
Para minimizar os conflitos e manter a harmonia no ambiente de trabalho, especialistas orientam sobre os limites que devem ser respeitados no ambiente corporativo

No ambiente de trabalho, é normal, que ocorram conflitos, afinal todos possuímos valores, personalidades e modos de pensar diferentes uns dos outros. Lidar com essas divergências é uma tarefa complexa, principalmente quando o assunto é política.
A situação política é um debate recorrente na rotina dos brasileiros, mas a situação, agravada nos últimos tempos, polarizou o assunto. Assim como acontece no futebol, as discussões sobre o tema são acaloradas, os debatedores não dão o braço a torcer e, muitas vezes, transformam a conversa em um diálogo nada saudável.
Diretora de recursos humanos da ActionRH e especialista em gestão de pessoas, Ellen Leandra Mateus Anholeto avalia que tudo que é em excesso é prejudicial, e, quando envolve questões polêmicas, como tema político, é sempre algo que exige muita atenção, pois pode afetar a sua imagem profissional. “Quando for se posicionar, principalmente nas redes sociais, faça isso de forma respeitosa e educada, sem ofensas, não tente impor sua opinião e não entre em discussões, porque é sempre importante você preservar a sua imagem e carreira. Para manter um bom convívio no ambiente de trabalho, o ideal é não discutir sobre política e sempre respeitar as opiniões", afirma Ellen.
Para minimizar os conflitos e manter a harmonia no ambiente de trabalho, a consultora de gestão de pessoas Silvana Parreira de Jesus orienta a sua equipe quanto ao respeito, limite para conversar e questionar. "Sempre bato na tecla do respeito e do limite da conversa. O jeito de conversar, falar. Ter cuidado com as perguntas e tom de voz da conversa", afirma a consultora.
Discussão ou conflito?
Já para o historiador e sociólogo André Luiz Mattos, a discussão sobre política, futebol, religião tem sido estigmatizada como algo negativo no ambiente público, quando, na verdade, deveria ser justamente o contrário. Para ele, o debate político fazer parte do cotidiano das pessoas, e no trabalho também.
"No Brasil, principalmente nessa eleição, há resultados muito conflituosos nessas discussões, de ameaçar o outro com demissão, de cortar relações. Nós já tivemos relatos de homicídios em ambiente de trabalho. A discussão política, hoje, virou um grande conflito também dentro do ambiente de trabalho. Esse conflito extrapolou todos os limites", afirma o historiador.
Uma pesquisa realizada pelo Centro de Profissionalização e Educação Técnica, no ano passado, revela que três em cada cinco funcionários (60%) acreditam que discutir política no trabalho é inaceitável e 54% acreditam que as empresas devem incentivar seus funcionários a votar ou ser politicamente ativos fora do trabalho.
Assédio eleitoral
O advogado Paulo Cesar Baria de Castilho ressalta que o posicionamento político de um empregado não deveria afetar sua carreira profissional. "Quando um empregado é contratado, ele está vendendo não só seu trabalho, mas também seu tempo de vida ao empregador, em troca de dinheiro. Por estar pagando por aquele tempo do empregado à disposição da empresa, é o patrão que tem o direito legal de dirigir e controlar a relação de emprego. A mesma regra vale para o posicionamento político. É a empresa que define quais os limites da manifestação política partidária dentro da empresa", afirma o Advogado.
Paulo Cesar ainda destaca os limites do posicionamento político do patrão em relação aos empregadores. Segundo ele, o empregador pode ter sua preferência política, mas não pode impor que seu empregado siga suas ordens em assuntos não relacionados ao trabalho, como, por exemplo, em quem votar, já que isso se trata de um direito individual inviolável do cidadão.
Impor aos empregados que votem em determinado candidato sob pena de perder o emprego configura crime, que tem sido combatido Brasil afora pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), especialmente nessas eleições de 2022 em que os ânimos estão exaltados.
(Colaborou Sarah Belline)