Uma revolução nasceu por aqui
Foi lecionando em Rio Preto que a professora Branca Alves de Lima deu início à cartilha Caminho Suave

Uma revolução silenciosa foi gestada no coração da primeira unidade pública de ensino de Rio Preto. Curiosamente, a secular escola Cardeal Leme, que já havia tido participação indireta na Revolução Constitucionalista de 1932, como base de apoio para os soldados que partiam daqui rumo aos fronts do conflito, foi palco de uma outra transformação histórica, feita com giz e apagador em lugar de arcabuzes e baionetas. Foi em 1936, quando aqui lecionou, que a professora paulistana Branca Alves de Lima aprofundou seus estudos e experimentos que resultariam, mais tarde, na cartilha Caminho Suave, que alfabetizaria mais de 48 milhões de brasileiros durante quase o meio século em que foi utilizada País afora.
Um feito que impactou gerações, evitou que milhares de brasileiros entrassem na escuridão do analfabetismo, mas que não garantiu à professora Branca um lugar merecido nas páginas da história. Mas como a normalista do bairro paulistano do Brás, autora do revolucionário método do "olhar-e-dizer", associando imagens e letras com o objetivo de facilitar o aprendizado, foi parar em salas de aula interioranas?
Nascida em São Paulo em 1910, Branca Alves de Lima iniciou sua jornada em escolas do interior de São Paulo na década de 1930. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, no ano de 1991, registrou que começou a sua carreira profissional em uma escola rural de Jaboticabal, pois naquela época, segundo ela, no início da profissão era obrigatório lecionar, pelo menos, um ano na zona rural e aprovar, alfabetizando, no mínimo quinze alunos, para depois poder dar aulas em uma classe de uma boa escola urbana.
Não há farto material disponível sobre a sua trajetória, e isso diz muito a respeito tanto ao destino frio reservado à mestra quanto a sua obra transformadora, mas consta que Branca passou bem mais que o tempo mínimo exigido por aqui.
A mesma matéria do Estadão registra que ela lecionou em vários grupos escolares no interior do estado e que, por onde passou, se preocupava com a dificuldade dos alunos em aprender a ler, o que ocasionava um índice elevado de reprovação. No ano de 1936, com 25 anos, a jovem professora lecionava em um grupo escolar de Rio Preto, o Cardeal Leme - que naquela época funcionava onde hoje está o Fórum central - onde iniciou experiências de alfabetização com imagens associadas às sílabas, obtendo bons resultados.
"Um dia, estava olhando meus cartazes (material didático composto de letras que utilizava para alfabetização dos pequenos) e tive um insight. Comecei a desenhar com giz em cima dos cartazes. No G, desenhei um gato e disse - 'Veja como a letra G se parece com um gato'. Depois, no F, desenhei uma faca. Percebi que as crianças, associando uma letra a uma figura, esqueciam menos", contou dona Branca, como era chamada, na mesma entrevista de 1991, ao jornal O Estado de São Paulo.
Branca pesquisou em dicionários palavras para cada letra de seu "sistema": A de abelha, B de barriga, V que formam os chifres de uma vaca, P do pato, G do gato, C de cachorro (a imagem é o rabo) e assim por diante. Foi dessa forma, graças ao seu poder de observação enquanto ensinava a pequeninos rio-pretenses, que a cartilha Caminho Suave tornou-se conhecida como um método chamado de alfabetização pela imagem.
"O método analítico, ou 'método olhar-e-dizer', defende que a leitura é um ato global e audiovisual. Partindo deste princípio, os seguidores do método começam a trabalhar a partir de unidades completas de linguagem para depois dividi-las em partes menores. Por exemplo, a criança parte da frase para extrair as palavras e, depois, dividi-las em unidades mais simples, as sílabas", explica o escritor, professor universitário e jornalista Nelson Valente.
O mérito por lançar luz sobre uma personagem tão fundamental para a educação e cujo trabalho praticamente foi varrido pra debaixo do tapete da história é todo deste novorizontino, pesquisador nas áreas de psicanálise, comunicação, educação e semiótica, mestre em Comunicação e Mercado e doutor em Comunicação e Artes. Apenas sobre o ex-presidente da República Jânio Quadros já publicou 29 livros, além de outras obras sobre educação, parapsicologia, psicanálise e semiótica - no total são 88 livros e alguns no prelo.
"A vida de Branca Alves de Lima é a síntese de um dos principais males — se não do principal mal — da Educação brasileira: o enorme desrespeito dos gestores e das políticas públicas educacionais em relação aos professores e professoras, aos estudantes e suas famílias", sentencia .
Fibra portuguesa
Até materializar sua cartilha, dona Branca superou muitos obstáculos. É inevitável até mesmo deixar de recorrer ao trocadilho e dizer que o caminho até a cartilha não foi nada suave. Para uma professora, para uma mulher de origens portuguesas (os pais tinham vindo de Funchal, na Ilha da Madeira) vencer no mundo dos negócios - pois no final das contas era disso de que se tratava - não foi fácil.
A primeira edição de Caminho Suave saiu em 1950, mas somente por iniciativa própria. "Procurei todas as grandes editoras da época, mas nenhuma delas acreditou que o livro fosse vender", relatou ela na entrevista de 1991. A solução foi pagar a primeira edição do próprio bolso, ou melhor, da própria poupança: 20 contos de réis ao todo, suficientes para rodar 5 mil exemplares, e só a partir do terceiro ano começou a ter lucro.
Uma lucratividade que viria, na verdade, naquilo que não se contabiliza pelo vil metal. Mas que tem a ver com a liberdade, com a possibilidade das pessoas em serem alfabetizadas e conquistarem mais espaço no mercado de trabalho. "Alfabetizar aquelas crianças pelo método analítico tradicional, que decompõe a frase até chegar à letra, não funcionava", deixou ela anotado, ao destacar que a cartilha foi "a melhor maneira de conseguir apoio para a memória da criança".
E com o mesmo poder de observação da magia contida nas letras, dona Branca observou que somente possuindo a própria editora seria capaz de dar asas à sua cartilha, que vendeu mais de 60 milhões de exemplares (este número, em 1991, era seis vezes maior, por exemplo, do que as vendas das obras de Jorge Amado). Um trabalho aperfeiçoado ao longo do tempo. A partir de 1971 a Caminho Suave ganhou mais cores, pois até então era só preto e vermelho. Além de mais colorido, o formato ficou maior. E em 1984 ocorreram mais mudanças - a professora introduziu mais textos de avaliação e ampliou a parte de interpretação e de gramática aplicada.
Na ausência de uma política de estado efetiva para a educação pública, a Caminho Suave aos poucos foi perdendo força. As cartilhas "saíram de moda" e a alfabetização passou a ter como principal referência o método construtivista, cujos maiores expoentes são Jean Piaget e Paulo Freire. Diferente das escolas tradicionais, em que o foco do aprendizado é o conteúdo, sempre passado por um mestre à frente da sala, o construtivismo privilegia o desenvolvimento do conhecimento por meio da interação do aluno com o meio em que vive. Algo distante, portanto, do método do "olhar-e-dizer" de dona Branca.
A derrocada final veio com a edição dos Parâmetros Curriculares Nacionais de 1ª a 4ª série pelo Ministério da Educação, no princípio dos anos 1990. Em 1996, o Ministério da Educação (MEC) excluiu a Caminho Suave do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).
"O que se vendeu como novo fracassou. O jovem de hoje, mesmo com formação superior, não consegue interpretar um pequeno texto. Claro que há exceções dentro deste contexto, mas o fato é que privilegiou-se o topo do ensino e esqueceu-se da base. No entanto, não se compara o ensino médio de ontem com o de hoje. Não se troca o antigo primário pelo ensino médio de hoje. E quem tinha o ginasial, não troca por uma faculdade atual", afirma Nelson Valente, um defensor do método da professora Branca, a ponto de compor uma equipe de pesquisadores da área que defende o retorno da cartilha. "Seria um passo atrás para dar dois à frente? Pode ser, mas é necessário para não condenarmos as próximas gerações a um sistema que nitidamente fracassou."
Dona Branca morreria cinco anos depois da saída de cena de sua cartilha, no dia 25 de janeiro de 2001, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, aos 91 anos, vencida por um câncer de pulmão. Solteira, sem filhos, deixou seu legado, muito mais que uma cartilha, muito mais que a sua casa, híbrido de editora e de moradia, no bairro da Liberdade. E muito mais do que um registro lacônico na data de sua morte, anotada no rodapé de uma página de obituário. Dona Branca era libertária, com L de liberdade.