SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 26 DE OUTUBRO DE 2021
NEGACIONISMO EM XEQUE

Recusa à vacina contra a Covid-19 faz rio-pretenses perderem até oportunidade de emprego

Por não querer tomar a vacina, tem rio-pretense que perdeu vaga de emprego e que até foi internado com a doença; alguns se renderam à razão da ciência; pesquisadores comprovam eficácia da vacina

Rone Carvalho
Publicado em 18/09/2021 às 22:12Atualizado em 19/09/2021 às 10:44
Vacinas contra a Covid-19 disponíveis no Brasil (Myke Sena/Ministério da Saúde)

Vacinas contra a Covid-19 disponíveis no Brasil (Myke Sena/Ministério da Saúde)

Eles perderam vagas de emprego e até foram parar em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de Covid-19 após recusarem a vacina. Arrependidos, alguns mudaram de ideia e foram se proteger, outros continuam a negar a eficácia dos imunizantes, mesmo com a ciência provando que os produtos são seguros.

Felipe (nome fictício) é um dos rio-pretenses que se arrependeu de não ter ido tomar o imunizante. Primeiro, movido pelo medo, desconfiança e desinformação, o motorista de aplicativo se recusou a se vacinar, mas mudou de opinião após ficar internado com a doença. “Lembro que toda hora no hospital vinha na memória de não ter tomado a vacina. Pedia muito para Deus para não ser transferido da enfermaria para UTI, pois tinha medo de morrer”.

Quando saiu do hospital, a primeira coisa que pensou foi em abraçar os filhos e esperar os quinze dias para ser vacinado. Tudo que pensava sobre os imunizantes mudou após sentir na pele à doença. “Por sorte, eu não fui para UTI. Se tivesse tomado a vacina talvez nem seria internado”.

Maria que também prefere não se identificar chegou a perder uma vaga de emprego por não ter recebido o imunizante. “A gente tem que respeitar a opinião de quem não quer se vacinar”, diz a dona de casa, que mesmo após perder a vaga continua a negar a eficácia das vacinas.

Estimativa da Secretaria de Saúde de Rio Preto aponta que aproximadamente 5,3 mil rio-pretenses ainda não foram receber a primeira dose dos imunizantes contra o coronavírus. São pessoas que não quiseram receber as vacinas ou que não tomaram por outra situação.

O levantamento obtido pelo Diário considera apenas pessoas acima de 30 anos, ou seja, que poderiam receber os imunizantes desde julho, mas que dois meses depois continuam sem se vacinar. Outros 6,7 mil rio-pretenses, também não tomaram a primeira dose, mas por falta de doses como mostrou o Diário na edição do último sábado, dia 18.

Segundo a gerente de imunizações de Rio Preto, Michela Dias Barcelos, empresas já estão exigindo dos funcionários a carteirinha de vacinação, o que fez pessoas que haviam se negado a tomar a vacina mudar de opinião. “Quando as pessoas procuram os pontos de vacinação, notamos que muitas têm uma cobrança em relação a emprego ou porque pretendem viajar. Teve gente de 30, 40, 50 anos que as vacinas estiveram disponíveis vários dias, não foram se vacinar, mas agora estão sendo pressionadas pela empresa”.

Motivos

Política, religião e desinformação são apontados como os principais argumentos dos ‘negacionistas’ para não receber os imunizantes. “Temos pesquisas que mostram que o mais leva uma pessoa a se vacinar é a recomendação médica. E temos médicos antivacinas”, afirmou a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Mônica Levi.

Já na opinião do professor Renan Pedra Souza, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a recusa a vacina de hoje é reflexo da negação a própria pandemia. “É um ciclo de negação, no início, tivemos a negação da existência da pandemia, depois foi a negação sobre a importância do uso de máscara para não ser contaminado e agora em relação aos imunizantes”, apontou.

Decisão impacta o coletivo

Quando as notícias de que a primeira brasileira havia sido imunizada, em janeiro de 2021, a dona de casa Dalva, de 53 anos (nome fictício), não se animou. Ela já estava decidida que não receberia a vacina. “Não me arrependo por não tomar, pois não sei qual será a reação do meu organismo ao receber algo experimental”, diz a dona de casa.

Quando questionada se não tem receio de contrair o vírus ou ser barrada em algum evento por não ter tomado o imunizante, ela contrária. “Só acho que cada um poderia ter o livre arbítrio de escolher ser ou não ser vacinado, sem nenhuma pressão. A partir do momento que for exigido eu vejo se vou tomar ou não”, afirmou.

A assistente administrativo Fernanda, de 32 anos, diz não ter recebido a vacina por duvidar da eficácia. “Eu não me arrependo de não ter tomado porque eu já tive Covid-19, então me senti mais segura em não ser contaminada novamente. Mas acredito que se eu não tivesse pego, eu teria tomado a vacina sim”.

Contudo, especialistas alertam que a decisão de Fernanda e Dalva representam um risco, já que os argumentos utilizados para não receberem a vacina já foram desmentidos por cientistas (veja mais na arte ao lado) e podem acarretar em novas variantes.

“A desinformação contínua a atrapalhar muito o combate a pandemia e leva algumas pessoas a não se vacinarem. Tem gente que fala que a vacina dá autismo, são argumentos sem base científica que não são verídicos”, destacou a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Mônica Levi.

Para o professor da UFMG, Renan Pedra Souza, o argumento de alguns negacionistas sobre a rapidez na criação da vacina e de seus testes de eficácia não possuem fundamentos. “A gente tem a maior prova que as vacinas são seguras a partir dessa redução do número de casos e mortes no Brasil. Hoje, aconselho para quem não se vacinou para que não seja propagador dessa decisão inadequada para outras pessoas, ou seja, não vai mesmo se vacinar, mas deixa o familiar que deseja”.

Para os pesquisadores, no pós-pandemia a vacinação tende a ser cada vez mais exigida. “Lembro que na década de 1980, muita gente não conseguia emprego sem a carteira de vacinação. Por isso, para quem não tomou o custo-benefício pode ser tarde demais e até não ter mais volta”, completou Renan.

(Colaboraram Millena Grigoleti e Emanuelle Cristina)

Mitos e verdades sobre a vacina

As vacinas Covid-19 podem causar algum efeito na fertilidade das pessoas ou causar distúrbios menstruais?

Não há evidências que apoiem quaisquer preocupações sobre o efeito das vacinas na fertilidade ou no ciclo menstrual. Alegações associando as vacinas Covid-19 com alterações na integridade dos órgãos reprodutivos são especulativas e não são suportadas por dados científicos.

Não existem mecanismos biologicamente plausíveis para as vacinas causarem algum impacto na fertilidade. Os ensaios iniciais com animais indicaram não haver efeitos prejudiciais ao sistema reprodutivo, e resultados preliminares de estudos sobre toxicidade reprodutiva mostram que não há alteração na contagem de espermograma em homens vacinados.

A cloroquina, ivermectina, antibióticos e antiparasitários são alternativas à vacinação para prevenção da Covid-19?

Segundo pesquisadores, não são. Estas substâncias, divulgadas como método de prevenção ou tratamento precoce da Covid-19, foram amplamente testadas e consideradas ineficazes. O uso indiscriminado, além de inútil, pode acarretar danos ao organismo.

As vacinas contêm chips para controlar as pessoas?

Os ingredientes de todas as vacinas Covid-19 em teste estão publicamente disponíveis em base de dados online e reunidos no site da Organização Mundial da Saúde (OMS). Componentes distintos dos informados podem ser identificados com facilidade por meio de testes laboratoriais.

Esta teoria conspiratória surgiu a partir da deturpação da fala do empresário Bill Gates sobre uma tecnologia futura que permitiria auxiliar na identificação de quem já teve Covid-19 ou foi vacinado. Isso, no entanto, não tem nenhuma relação com a vacina ou com o 5G, que nada mais é do que a evolução do 4G que usamos hoje. Mesmo que quisessem, seria impossível usá-lo para controlar pessoas.

É melhor contrair a Covid-19 naturalmente do que tomar a uma vacina? Por quê?

De acordo com o Centro de Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, algumas pessoas preferem a infecção natural à vacinação para obterem a imunidade, mas o risco de doença e morte pelo vírus é muito maior que quaisquer benefícios da imunidade natural. Por isso, a recomendação para tomar a vacina.

A imunidade por infecção natural não é um conceito novo, na Inglaterra e nos Estados Unidos existiam as festas da catapora, nas quais as crianças eram convidadas a frequentar uma casa com um infectado a fim de contrair a doença e se livrarem dela na vida adulta, onde apresenta maior gravidade. Porém, hoje se sabe que a mortalidade nessa situação é infinitamente maior, comparada à imunização específica.

Pessoas com casos mais graves de Covid-19 tendem a ter uma resposta imunológica mais robusta do que as pessoas que tiveram uma infecção branda ou assintomática, no entanto, quando comparamos as respostas após a infecção com os resultados após a vacinação, a resposta imunológica é consideravelmente melhor por meio da vacinação do que por meio da infecção natural.

Fonte: Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) e Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e Adolescente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 
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