Diário da Região
SAÚDE

Especialistas alertam sobre perigo de fórmulas mágicas para emagrecer

Seja para tratar obesidade ou na busca de um corpo perfeito, muita gente se aventura nas fórmulas mágicas para emagrecer, mas isso é um perigo à saúde - além de não funcionar a longo prazo

por Millena Grigoleti
Publicado em 10/05/2023 às 20:31Atualizado em 11/05/2023 às 09:02
Camila Espadari Bonfim Gomes, personal trainer de 34 anos, tentou dietas restritivas e medicamentos: experiência frustrante; após mudar o estilo de vida, resultado foi melhor (Arquivo pessoal)
Galeria
Camila Espadari Bonfim Gomes, personal trainer de 34 anos, tentou dietas restritivas e medicamentos: experiência frustrante; após mudar o estilo de vida, resultado foi melhor (Arquivo pessoal)
Ouvir matéria

A obesidade atinge, em algum grau, mais da metade dos adultos no Brasil - de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS, 2020), 60,3% da população apresenta excesso de peso, sendo as mulheres maioria nessa estatística. Embora a obesidade deva, sim, ser tratada, assim como qualquer outra condição clínica é necessário um acompanhamento multidisciplinar. Muita gente procura dietas e remédios da moda sem esse cuidado e, além disso, sem uma real necessidade, sem estar acima do peso.

Dieta líquida, dieta da fruta, dieta low carb, medicamentos “naturais” vendidos livremente na internet, remédios para diabetes e até depressão que prometem fazer a barriguinha secar. Sempre aparecem novos métodos que garantem a perda de peso rápida, em dias.

“Atualmente vemos uma busca incessante (e ilusória) por um corpo dito ‘perfeito’. Todos querem mudanças imediatas sem levar em conta que não serão sustentáveis a longo prazo. Promessas de emagrecimento, medicamentos e dietas que não ensinam ninguém a comer e promovem obsessão por comida”, afirma a nutricionista Vanessa Lima, de Rio Preto.

A nova promessa é o composto semaglutida, substância vendida no Brasil sob o nome comercial de Ozempic para tratar diabetes na forma injetável ou em comprimidos. Ele tem sido prescrito para tratar obesidade - embora não conste na bula, é permitido que médicos prescrevam tratamentos para os quais os compostos não foram testados, o que é chamado de off label.

“Esse medicamento tem um efeito de redução de glicose, é uma belíssima alternativa terapêutica a pacientes que têm diabetes e propicia também a redução de peso. A medicação pode provocar náusea se o indivíduo comer exageradamente, ela tem o efeito de conter o apetite e retardar o esvaziamento gástrico, demora mais tempo para esvaziar o estômago”, explica Antônio Carlos Pires, endocrinologista do Hospital de Base de Rio Preto e chefe de disciplina e coordenador da residência médica em Endocrinologia e Metabologia da Famerp.

O problema é que muita gente consome esses remédios sem prescrição nenhuma. “Tomar remédio sem prescrição médica é sempre arriscado, a automedicação é extremamente perigosa, somente um médico consegue determinar exatamente a dose e, principalmente, esclarecer os riscos de efeito colateral e da combinação com eventuais outros remédios que a pessoa usa”, alerta Raphael Del Roio Liberatore Junior, endocrinologista pediátrico e professor associado do departamento de puericultura e pediatria da faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).

Efeito contrário

De acordo com o profissional, o indivíduo pode acabar perdendo peso com o Ozempic justamente por não conseguir se alimentar por causa das náuseas. “Existe um grande risco de retorno do peso inicial se não houve mudança no estilo de vida. Não existem medidas milagrosas para perda de peso, isso em todas as faixas etárias.”

E não é que esses medicamentos utilizados sem prescrição de um profissional ou dietas exageradamente restritivas não sirvam para fazer o ponteiro da balança baixar. “Eles até funcionam, por um tempo, mas trazem muitos riscos. “A partir do momento que reduz as calorias, ele vai perder peso, então vai ter resultado na balança, por isso que esses métodos são chamativos”, diz Natália Matos, nutricionista esportiva de Rio Preto. “Só que ele está perdendo gordura, mas também está perdendo líquido e massa magra. O organismo para de funcionar da maneira que deveria e o indivíduo passa a ter fraqueza, mal estar, ele suspende essa medicação ou estilo de vida e o peso volta.”

Foi o que aconteceu mais de uma vez com Camila Espadari Bonfim Gomes, personal trainer de 34 anos. Com dietas restritivas e medicamentos sem mudanças no estilo de vida, ela teve experiências que define como frustrantes. “Até dei uma emagrecida, só que como não tinha hábitos saudáveis, não fazia exercícios, tudo é temporário, ninguém consegue sustentar esse estilo de vida. Acabava ganhando mais peso. Cheguei a perder dez quilos e ganhar 15. Tive queda de cabelo, perdi muita massa muscular, fiquei fraca, o corpo não fica bonito.”

Mudança

A chave para uma real mudança de vida veio quando sua médica disse que ela poderia perder o pâncreas por uma resistência à insulina e pré-diabetes. Foi quando uma amiga, estudante de nutrição, resolveu montar uma dieta para Camila. “Era tranquila de seguir, com alimentos que eu gostava, eu tinha uma refeição livre na semana, não passava fome, era barato. Nesse momento eu vi que era possível. Depois de um mês eu entrei na academia”, conta ela, que acabou se tornando profissional de Educação Física.

"Perdi 35 quilos na balança. Eu não tinha disposição, minha produção hormonal era péssima, tinha problema no joelho, pré-diabetes, colesterol, estava em uma situação muito triste. Hoje tenho saúde, minha vida mudou totalmente”, celebra a personal trainer.

E o que realmente funciona, então?

De acordo com a nutricionista esportiva Natália Matos, os indivíduos que buscam uma perda de peso imediata seguem um padrão de comportamento. “Que é não ter rotina nem organização, não saber o que vai fazer em relação à comida do dia, não ter uma boa relação ou até mesmo não gostar de comida saudável, não ter sono de qualidade, não se hidratar e não administrar o estresse”, pondera a profissional.

Na busca pelo peso ideal, não existe fórmula mágica - aliás, o peso ideal é algo que deve ser discutido entre o paciente e os profissionais que o acompanham, não um número mágico obtido em algum cálculo de IMC pela internet.

“O que realmente funciona para perder peso e se manter é alimentação saudável, exercício físico frequente, ter qualidade de sono, hidratação e modulação do estresse. Você pode comer de tudo, pensando que 80% devem ser saudáveis (frutas, legumes, verduras, arroz, feijão, proteínas magras feitas em casa) e 20% daquelas besteirinhas que a gente gosta, como chocolate e pizza”, diz Natália.

Tratamento da obesidade

Antônio Carlos Pires, médico do HB e da Famerp, reforça que a qualidade da vida melhora - e muito - com o tratamento da obesidade, que é uma condição não apenas relacionada à alimentação ou aos hábitos de vida, mas também tem sua base genética. Por exemplo: se o indivíduo X tem tendência ao ganho de peso, com a mesma ingestão calórica do indivíduo Y, que não tem esse traço genético, ele vai ganhar mais quilos. E esse tratamento, necessário para evitar o aparecimento ou agravamento de doenças como hipertensão e diabetes, não exclui o uso de medicamentos, cujo uso pode perdurar por anos, mas sempre com orientação médica.

“Há excelentes medicamentos que podem ajudar quem de fato precisa. Eles podem ser prescritos quando há alguma alteração metabólica que justifique o uso ou quando o indivíduo já mudou seus hábitos alimentares, saiu do sedentarismo e ainda assim não consegue emagrecer”, explica a nutricionista Vanessa Lima. (MG)

Medicamentos naturais

Sem o devido acompanhamento médico, os remédios para emagrecer podem causar, por exemplo, diarreia, náuseas, dependência química, anemia, maior risco de desenvolvimento de transtornos alimentares, diminuição do metabolismo e até danos hepáticos, às células cerebrais e ao sistema cardiorrespiratório. E não adianta recorrer aos medicamentos naturais ou fitoterápicos.

“Eles estão no mercado sem controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as pessoas compram”, pontua Antônio Carlos Pires, do HB e Famerp. Diferentemente daqueles que passaram pelo crivo da agência, nesse caso os fabricantes não apresentaram nenhum estudo sobre os efeitos do medicamento nem há fiscalização sobre o que de fato consta na fórmula. “Não têm segurança ou eficácia comprovadas. Não deve tomar. Não tem base ou evidência científica”, alerta o médico. (MG)

Riscos da automedicação para emagrecer

  • diarréias e náuseas
  • anemia
  • dependência química
  • maior risco de desenvolvimento de transtornos alimentares
  • diminuição do metabolismo
  • perda de massa muscular
  • queda de cabelo
  • unhas quebradiças
  • problemas hepáticos
  • danos às células cerebrais e ao sistema cardiorrespiratório

O que funciona no processo do emagrecimento?

  • Não existe fórmula mágica nem resultados de longo prazo sem alimentação balanceada, exercícios físicos (eles ajudam a potencializar a perda calórica e aceleram o metabolismo), qualidade do sono, hidratação e controle do estresse.

Pode tomar remédio?

  • Para alguns pacientes que estejam de fato obesos, que já tenham tentado o combo dos outros métodos e ainda não perderam peso ou que tenham condições de risco associadas à obesidade, como hipertensão ou diabetes, pode ser necessário algum medicamento, mas sempre com acompanhamento médico.

Fontes: Antônio Carlos Pires e Raphael Del Roio Liberatore Junior, endocrinologistas; e Natália Matos e Vanessa Lima, nutricionistas