Morte de fisiculturista de 22 anos reacende o alerta sobre os riscos do uso de anabolizantes
Especialistas garantem: a não ser em caso de doenças muito específicas, não existe um nível considerado seguro de uso dessas substâncias para definir o corpo

A morte de um fisiculturista de 22 anos evidencia que nem todo corpo que parece saudável de fato está funcionando como deveria. Além disso, chama atenção para outra questão: o uso de anabolizantes, como testosterona e outras substâncias, com o objetivo de potencializar o treino de atletas de alta performance e incrementar os resultados. Os médicos são unânimes, no entanto: mesmo fazendo todos os exames e passando por consultas periodicamente, não existe nível seguro para o uso para fins estéticos ou de massa muscular, pois elas podem sobrecarregar órgãos essenciais, como coração e rins.
Gabriel Ganley, de 22 anos, foi encontrado morto em seu apartamento na capital paulista no dia 23 de maio. No atestado de óbito, consta morte súbita por cardiomiopatia hipertrófica, uma das principais complicações do uso de anabolizantes. Em julho do ano passado, o atleta começou a usar substâncias como a insulina - que pode ser essencial para quem tem condições como a diabetes, mas perigosa para indivíduos saudáveis.
Na internet, basta uma busca simples em sites de compras ou redes sociais para encontrar inúmeros anúncios de géis e cápsulas a preços populares em que o vendedor promete ganho de massa e melhores resultados na prática de exercícios físicos. A venda desses produtos, encontrados inclusive especificamente voltados para mulheres, para fins estéticos e para potencializar o treino é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que somente permite sua comercialização com objetivos médicos, de tratamento de condições de saúde.
Além do comércio específico de produtos, também é possível adquirir “protocolos” que combinam treino, alimentação e suplementação para transformar o corpo de forma rápida, praticamente milagrosa.
“Os anabolizantes são hormônios sintéticos, geralmente derivados da testosterona, e causam vários riscos para o organismo. No coração, principalmente a hipertrofia ventricular, aumento do colesterol, aumento da viscosidade sanguínea, que deixa o paciente mais propenso a desenvolver trombose. Aumenta o risco de morte súbita, de miocardiopatia por deficiência do músculo e de aterosclerose, que é o depósito de gordura nas artérias”, enumera Luciano Miola, cardiologista do Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC) de Rio Preto.
Além de atingir diretamente o coração, as substâncias podem sobrecarregar o fígado e os rins, levar a infertilidade e disfunção erétil, aumento das mamas inclusive nos homens, maior chance de ter colesterol elevado (mexem diretamente no sistema endócrino), risco aumentado de AVC e infarto e propensão elevada a desenvolver condições psiquiátricas, como agressividade. Os produtos injetáveis são mais perigosos.
Obter resultado sem imediatismo

O analista de marketing Sérgio Torqueti, de 31 anos, treina há mais de uma década, mas há cerca de três anos sua rotina se tornou mais intensa, com dedicação aos exercícios de cardio e musculação seis vezes na semana. Nesse período, saiu de uma idade metabólica de mais de 40 anos para uma de 29 e se livrou da obesidade.
Há algum tempo, por indicações médicas, Torqueti precisou fazer a reposição assistida de testosterona, pois os níveis de hormônio em seu organismo estavam abaixo do ideal. Depois de normalizados, o uso foi interrompido, mas ele tem consciência de que pode ser uma tentação continuar. “Eu crio conteúdo do nicho fitness e por trabalhar com marketing acabo analisando o comportamento das redes, sabemos que o imediatismo está explodindo”, comenta.
Torqueti nunca fez uso dos anabolizantes para fins estéticos e se preocupa com a saúde cardíaca, fortalecendo o coração por meio de exercícios. Para ajudar, faz suplementação. “O whey entra em dois momentos, nos lanches da manhã e da tarde, como refeição líquida da minha dieta. A creatina entra em um desses dois shakes”, conta.
Especialistas orientam, no entanto, que mesmo esses produtos devem ser bem indicados, uma vez que nem todo suplemento é necessário para todo praticante. A dose, o momento de uso e a real necessidade variam, e podem existir contraindicações. A dosagem deve ser ajustada. (MGB)
NÃO EXISTE USO SEGURO
A reportagem ouviu especialistas que são unânimes em dizer: não existe uso seguro de anabolizantes, sejam eles quais forem, para fins estéticos. Essas substâncias podem ser utilizadas apenas sob rigorosa supervisão e quando há condições de saúde como hipogonadismo (quando o corpo produz menos testosterona do que o normal), condição que atinge principalmente homens mais velhos, sarcopenia (emagrecimento e perda de força, mais comum entre idosos) e alguns tipos específicos de tumores.
Leonardo Lima Verona, nefrologista da Beneficência Portuguesa e do Incor, comenta que às vezes os exames de quem insiste em fazer esse uso aparecem normais, mas o dano renal e a outros órgãos está ocorrendo de forma silenciosa. “E uma pessoa que o corpo está melhor e que está conseguindo praticar exercícios físicos, que acha que ‘está voando’, ela quase não faz exame de rotina porque acha que a saúde está excelente e ela está se sentindo bem”, pontua.
Um dos órgãos que mais sofrem com o uso dos anabolizantes para fins estéticos é o rim. “Frequentadores de academia e jovens sem nenhuma comorbidade vêm apresentando algumas complicações que começam geralmente de maneira silenciosa. A lesão renal pode ser aguda e, em alguns casos, se tornar crônica”, diz Leonardo.
Entre os problemas, estão o aumento da pressão arterial, que afeta a função dos órgãos, a hiperfiltração glomerular (os rins começam a filtrar mais sangue), perda de proteínas pelos rins, acúmulo de urina e o “entupimento” deles - que pode acontecer quando o músculo é lesado (pelo uso de substâncias sintéticas, por exemplo), pedaços dele se quebram e acabam parando nos rins. Essas complicações podem levar à perda total da função renal. (MGB)