SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 22 DE MAIO DE 2022
REFLEXO DO PERIGO

Vidro espelhado em prédios vira armadilha para pássaros em Rio Preto

Embora embelezem a paisagem urbana, prédios envidraçados ou espelhados são como armadilhas para aves, que acabam se chocando contra as estruturas por confundirem o ambiente refletido

Da Redação
Publicado em 03/05/2022 às 22:07Atualizado em 11/05/2022 às 15:59
Passarinhos mortos após choque contra vidro de torre do Georgina Business Park (Contribuição/Leitor)

Passarinhos mortos após choque contra vidro de torre do Georgina Business Park (Contribuição/Leitor)

Moderna, a arquitetura espelhada tem sido muito adotada em novos empreendimentos em Rio Preto, que querem se destacar em meio aos outros prédios da cidade. Embora embeleze a paisagem urbana, esse tipo de construção oferece riscos aos pássaros, que se chocam contra os prédios por se confundirem com o ambiente refletido nos vidros. E, não raro, esses acidentes resultam na morte das aves.

Professora doutora e livre-docente em comportamento animal, Eliane Gonçalves de Freitas explica que os pássaros colidem com as estruturas espelhadas porque não conseguem distinguir que aquela imagem nos vidros se trata de um reflexo, o que pode ocorrer mesmo que essa superfície não seja espelhada. “Quando a luz incide, o vidro também é capaz de formar uma imagem espelhada, o que já é suficiente para que a ave possa se confundir”, explica.

“Os animais não conseguem perceber que aquele local é uma barreira para eles e entendem que o que tem do outro lado do espelho é uma continuação do caminho pelo qual ele passaria voando, o que resulta na colisão”, acrescenta a associada do Departamento de Ciências Biológicas, da UNESP de Rio Preto.

Situação como essa foi presenciada por uma equipe que trabalhava em uma sessão de fotos de moda no térreo da Torre Madrid, no Edifício Georgina Business Park, em Rio Preto. No período de cinco horas em que estiveram no local, acompanharam a morte de oito pássaros que colidiram contra os vidros dos prédios.

“Todos morreram da mesma maneira, chocando-se em pleno voo contra os vidros espelhados do edifício. Um a um foram caindo perto de nós. Confesso que o barulho do choque antes da queda é angustiante”, publicou a maquiadora Bia Verri nas redes sociais.

A produtora em moda Anna Igami, que também estava no local, conta que trabalhadores do complexo afirmaram que a situação é frequente. “Eles estão vendo essas mortes e ninguém buscou uma solução? Isso é até um alerta, porque olha quantos prédios estão sendo construídos com vidro em Rio Preto.”

Busca por solução

Questionada sobre a frequência com que casos como esse acontecem na cidade, o 4º Batalhão de Polícia Ambiental informou não possuir registros, já que essas ocorrências são consideradas acidentais. Também não há legislação que possa responsabilizar os empreendimentos em situações como essas.

“Estamos organizando uma visita conjunta com os veterinários lá do zoológico de Rio Preto e com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, para vermos se conseguimos fazer alguma coisa no Georgina para minimizar os danos”, diz o capitão Gabriel Melo.

Sobre as colisões de aves nas torres, a administração do Georgina Business Park relatou ter conhecimento e que busca uma solução permanente. “Em conjunto com os proprietários, estamos analisando as opções disponíveis no mercado. Lamentamos o ocorrido e reiteramos nosso respeito à natureza e empenho em ter um ambiente seguro a todas as espécies da fauna”, diz, em nota.

(Colaborou Júlia de Brito)

Acidentes frequentes

Aves mortas após colidirem contra complexo de prédios espelhados, em Rio Preto

Caso parecido já foi observado em outro prédio espelhado de Rio Preto, o Navarro Building. O auxiliar de estoque Caio Henrique de Lima, que trabalha em um local próximo ao edifício, conta que, no começo deste ano, presenciou o choque de um tucano contra os vidros do prédio, mas o mais comum é avistar pássaros se debatendo e bicando os vidros. “O mais frequente são os passarinhos que ficam bicando os espelhos. Tem muito bem-te-vi que faz isso. Já vi gavião se debatendo também”, diz.

A bióloga explica que, além da questão do reflexo ambiente, essas estruturas dão a falsa impressão para esses animais de que existe um outro indivíduo, o que resulta em comportamento agressivo. “Eles são territoriais. Quando chegam na frente espelho, eles não reconhecem a imagem como a deles. A impressão é de que há outro indivíduo ao lado.”

Questionada sobre medidas de proteção, a Hugo Engenharia, construtora do Navarro Building, afirma que a fachada do prédio possui um vidro de alto desempenho energético com aparência mais refletiva, devido à sua “acentuada estética prata” e que desde a finalização da obra “não foi registrado nenhum problema com pássaros”.

Danos para a fauna

Além da redução da quantidade de pássaros devido à frequência de acidentes, que podem resultar em morte instantânea, a professora explica que as aves estão sujeitas a sofrerem outras lesões, que podem ocasionar morte posterior ao choque. “Se não leva à morte, o impacto pode causar lesões no bico e nos olhos, por exemplo, que podem fazer com que o animal fique incapacitado de comer ou de fugir, tornando-o também uma presa fácil. Então, a mortalidade dessas aves tende a aumentar quanto maior for o número de edifícios com esse vidros espelhados. A longo prazo, pode trazer um risco muito grande para essas espécies”, afirma. (JB)

O que diz a administração do Navarro Building

"Na data de 04 de maio de 2022, o jornal Diário da Região publicou matéria intitulada "Reflexo do perigo", no caderno Cidades, página 5B, em que noticia o relato de que "prédios envidraçados ou espelhados são como armadilhas para aves, que acabam se chocando contra as estruturas por confundirem o ambiente refletido", destacando, como referência, a imagem do prédio espelhado do Condomínio Navarro Building junto com uma imagem de pássaros mortos, induzindo o leitor que tais fatalidades ocorreram no Navarro Building.

Em que pese a respeitável admiração que o Condomínio Navarro Building nutre pelo jornal Diário da Região, seja pela credibilidade ou qualidade nos serviços prestados, a divulgação da matéria não condiz com a realidade.

Portanto, o Condomínio Navarro Building vem, nesta oportunidade, manifestar-se publicamente no sentido de afirmar que não há registros de aves mortas em razão de sua estrutura espelhada. Desde a sua inauguração, foram raros, e não frequentes, os casos de aves que colidiram com a estrutura espelhada do condomínio. Não é possível elencar como "casos frequentes", muito menos associar às fatalidades, ou sequer comparar com as oito mortes de aves que ocorreram no mesmo dia em outro complexo mencionado na reportagem.

O Condomínio Navarro Building agradece o espaço disponibilizado e coloca-se à disposição para maiores esclarecimentos."

Soluções arquitetônicas podem evitar acidentes

Película chamada de ‘amiga dos pássaros’ é uma das soluções para evitar colisões

A professora doutora em arquitetura e urbanismo Delcimar Teodósio explica que existem soluções arquitetônicas que podem evitar esses acidentes. As medidas vão desde o projeto até construções já prontas. “No caso dos projetos, é possível fazer a inclusão de vidros que podem ser desenhados em ângulos que direcionem esses reflexos para outras superfícies, como paredes e chão, além da utilização de ‘brise-soleil’, bloqueadores de sol nas fachadas das construções.”

Em se tratando de edificações prontas com portas ou janelas de vidro transparente, colorido ou espelhado, ela diz que há solução simples para evitar as colisões, que são as marcações no vidro que criam uma barreira visual.

Alternativas

Adesivos que refletem a luz ultravioleta: quase imperceptíveis aos olhos humanos, não interferem no visual das fachadas dos prédios e as aves conseguem enxergar esse tipo de luz.

Películas ultravioleta: bloqueiam a passagem de raios UVA e UVB e são visualizados pelos pássaros à distância.

Película amiga dos pássaros: feita de vinil, tem diferentes desenhos como estrelas, flores ou até mesmo um pássaro grande, que afugenta os pequenos pássaros.

Cortinas de tecidos e persianas, desde que permaneçam sempre fechadas, pois eliminam o reflexo do vidro.

 
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