2021QUE ANO!

Rio-pretenses que venceram a Covid aguardam novo ano com otimismo e esperança

Para encerrar o ano, o Diário traz histórias de pacientes que ficaram internados em decorrência da doença e agora traçam planos para o futuro

por Luciana Vinha
Publicado em 30/12/2021 às 21:06Atualizado em 31/12/2021 às 08:23
Johnny Torres 29/12/2021 (Johnny Torres 29/12/2021)
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Johnny Torres 29/12/2021 (Johnny Torres 29/12/2021)
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Eles estiveram próximos da morte, mas superaram a guerra ao vírus, fortaleceram os laços familiares e com Deus e querem um 2022 de paz e saúde. A frase “adeus, ano velho, feliz ano novo” nunca fez tanto sentido. E, apesar de a pandemia não ter acabado, a expectativa é que 2022 seja um ano melhor, repleto de ressignificação e esperança.

Para encerrar o ano, o Diário traz histórias de pacientes que ficaram internados em decorrência da doença e agora traçam planos para o futuro – sem deixar de lado as pequenas e valiosas coisas do dia a dia. A palavra-chave é esperança.

Para a psicóloga Sara dos Santos Cunha Gonçalves, a esperança é um sentimento que, aliado à fé, precisa ser “alimentado” para que o ser humano consiga se movimentar para enxergar o que talvez no presente ainda não esteja vendo. “Se nosso olhar não for de esperança, nós padecemos e teremos dificuldade de sair do lugar. É como um suporte, um trampolim que nos impulsiona e nos faz sentir com o coração cheio de gratidão pelo hoje, pelo que construímos até aqui, e nos faz olhar para o futuro com expectativa e força para viver o que está por vir”, diz.

Ela observa que muitas coisas que antes tinham grande importância passaram a não ter mais e outras pequenas e rotineiras, que não eram percebidas, agora são vistas como um grande presente. “Acredito que quem passou pela experiência da Covid, e venceu, ressignificou muita coisa. Independentemente do grau da doença que a pessoa experimentou, ela viveu e sentiu na pele algo que ameaçou, modificou e nos mudou para sempre, como pessoa, como família, como sociedade, como mundo. E diante de tantas mudanças, dar um novo significado se fez necessário. Um novo olhar, novos sentimentos, novas pessoas, acesso a um medo talvez nunca experimentado antes, novos valores, enfim uma nova pessoa”, pontua.

Grata pela chance

Arquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)
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Arquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)

Terezinha Soares de Jesus, 59, é uma sobrevivente. Diagnosticada com a Covid-19 no início de 2021, passou 28 dias internada, 19 deles intubada na UTI da Santa Casa de Rio Preto. Apesar de ter se recuperado, perdeu amigos e parentes para a doença. Tem fé e esperança de que em 2022 tudo será melhor.

“Deus me concedeu mais uma oportunidade de continuar vivendo e sou muito grata por isso. Foi uma luta árdua pela vida, vencida com muita oração de familiares e amigos, e também pela dedicação de todos os profissionais de saúde que cuidaram de mim enquanto estive no hospital. Agradeço muito a cada um deles e peço a Deus que os abençoe, pois essa vitória também pertence a eles”, diz.

O atendimento inicial foi na UPA Jaguaré. Recebeu os primeiros socorros, foi transferida e intubada. “Eu sabia que estava no hospital e tinha vontade de voltar para casa, mas tudo era muito confuso. Às vezes eu tinha a impressão de ouvir alguma coisa, inclusive, me recordo que mesmo inconsciente ouvi comentários à minha volta sobre o incêndio que estava acontecendo no terminal rodoviário (no Shopping Azul). Quando fui extubada e estava melhor, confirmaram o ocorrido”, revela.

“Pude constatar a alegria de toda a equipe hospitalar quando conseguiram me extubar”, diz. Hoje, quase um ano depois, Terezinha está bem e sem sequelas, apesar de ainda sentir fraqueza. “Tenho fé e esperança de que em 2022 possamos retomar a nossa vida, mesmo que com todos os cuidados ainda, mas creio que será um ano melhor e desejo muita saúde a todos. Quando estive hospitalizada eu só pedia a Jesus e a Nossa Senhora que me ajudasse, e aqui estou”, comemora.

Renascimento

Arquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)
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Arquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)

O delegado de polícia Mauro Luís Truzzi Otero, 54 anos, está otimista com relação ao próximo ano e acredita que, por conta da vacinação, 2022 será bem melhor. Ele teve Covid-19 no final do ano passado, ficou internado no hospital Beneficência Portuguesa de Rio Preto, onde passou cinco dias no oxigênio com quase 40% do pulmão comprometido, e confessa que não sabe o que poderia ter acontecido se não tivesse ido ao hospital e recebido tratamento.

“Ouço tantas pessoas falarem que tem medo do ambiente hospitalar, mas foi onde praticamente ressuscitei, me fizeram renascer. Recebi todo o tipo de cuidados e minha vida mudou já na primeira noite, foi algo impressionante. Eu estava muito fraco e, ao amanhecer, quando a enfermeira trouxe o café da manhã, eu brinco que só não comi a bandeja. Foi um dos melhores que já tive em toda a minha vida, extremamente significante, porque eu vi que estava melhorando. Eu tive fome, algo que não sentia há dias”, conta.

Mauro diz que nunca imaginou que um dia iria passar por isso e é grato a Deus por não ter ficado com sequelas. “Perdi amigos, tive amigos que perderam amigos e familiares, e sei de pessoas que tiveram trombose ou que passaram a ter hipertensão e outros problemas de saúde, mas graças a Deus eu não tive nenhuma sequela, a não ser algumas consequências por um período breve”.

Um ano depois Mauro segue otimista. “Comemorei um ano de vida e graças a Deus estou bem, trabalhando, e minhas perspectivas para 2022 são as melhores, pois sempre fui uma pessoa otimista e me posicionei bem diante de todos os entraves e dificuldades da vida, e ter vencido a Covid-19 foi mais uma vitória”, comemora.

O maior presente

Johnny Torres 29/12/2021 (Johnny Torres 29/12/2021)
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Johnny Torres 29/12/2021 (Johnny Torres 29/12/2021)

O advogado Carlos Simão Nimer, 55, pegou Covid-19 em junho de 2021. Ele ficou internado no Hospital de Base por mais de cinco meses, intercalando entre a UTI e a enfermaria. Foi intubado, ficou em coma induzido e teve que fazer uma traqueostomia. Teve alta recentemente, no dia 12. Recupera-se em casa e faz acompanhamento médico com especialistas.

“Foi um período muito longo e o atendimento para o paciente acometido pela Covid-19 não é simples. É necessária uma equipe multidisciplinar, com vários médicos com especialidades diferentes, além de uma equipe de enfermagem eficiente e dedicada”, destaca.

Ele conta que se sente grato por ter superado a doença e diz que a expectativa para o próximo ano é a melhor possível. Afirma que a experiência fortaleceu sua fé em Deus e nos seres humanos, além de reforçar os laços de amizade.

“Eu tive a chance e a graça divina de ter sobrevivido, por isso minha mensagem é de vida. Acredito que 2022 será um ano muito importante e estar vivo é o grande presente. Minha relação com a família se fortaleceu, principalmente com minha esposa, Eliane, e meu filho, Carlos, e descobri que tem muitas pessoas torcendo pela gente, que rezam e emanam energias positivas. 2022 será um grande ano”, complementa Nimer.

A força da oração

Arquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)
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Arquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)

Aproveitar mais a vida e ajudar ao próximo. Essa é uma das lições que a professora universitária Valéria Maria Volpe, 53, aprendeu ao superar a Covid-19. Diagnosticada com a doença em março deste ano, apresentou sintomas logo depois que a irmã testou positivo. “Foram 15 dias terríveis. Sentia medo de dormir e não acordar”, diz. Com a saturação de oxigênio em 72% e 80% do pulmão comprometido, ela foi internada no HB e teve que ficar no quarto porque não tinha vaga na UTI. “Teve um dia que achei que fosse morrer, porque passei muito mal e não tinha mais forças para respirar”, lembra.

“Sempre fui otimista, acreditei que voltaria para casa e dizia para mim mesma que era preciso aguentar firme e que coisas melhores estavam por vir, porque Deus tinha algo especial preparado”. Emocionada, revela que teve alta antes do previsto a partir do momento em que fez uma oração e começou a melhorar significativamente.

“A enfermeira e a fisioterapeuta vieram me ajudar no banho, desconfiei que seria intubada, e pedi para rezar. Logo comecei a me sentir melhor e mais aliviada para respirar com calma, e todo o cansaço e falta de ar desapareceram. Quando saí do banho me senti muito bem, como se fosse outra pessoa, e nem a médica acreditava”. Ao receber alta, diferente dos vídeos que estava acostumada a ver de pessoas que saíam do hospital na cadeira de rodas, Valéria conta que saiu caminhando até o carro com sua mochila nas costas. “Cansei muito durante o trajeto, confesso. Mas eu não quis dar o braço a torcer nem entregar os pontos. Mesmo exausta, eu quis ir andando”.

Ainda com algumas sequelas, ela encara o que passou de forma otimista e faz planos para 2022. “Atribuo a queda de casos positivos e de mortes à vacinação, e acredito que se as pessoas se conscientizarem melhor e seguirem os protocolos sanitários, logo voltaremos ao normal. Mas um normal entre aspas, porque penso que ninguém mais terá coragem de viver como antes. Mudei muito o meu pensamento e comportamento e valorizo muito mais ficar em casa e curtir minha família e meus amigos. Tenho sido mais gentil com as pessoas e gasto menos dinheiro com futilidades, sempre visando ajudar o próximo”.

E se tem outra grande lição que a Covid-19 trouxe é sobre a importância dos enfermeiros. “Eu tenho dito que os grandes heróis desta pandemia foram os enfermeiros, porque sem eles médico nenhum daria conta, creio. Hospital lotado, sem leito vazio, sem vaga na UTI, e esses profissionais sempre correndo de um lado para o outro tratando cada paciente com muita delicadeza e carinho, chamando todos pelo nome. Um exemplo de profissionalismo que nunca vi”, destaca Valéria.

Desde o início, frente a frente com o inimigo

A enfermeira Tatiane Bortolozo de Andrades Saqueti, 33, cuidou de pacientes com Covid-19 no Hospital de Base desde o início da pandemia, em março de 2020. Ela conta que viu o ambiente de trabalho se transformar em um campo de batalha contra um inimigo invisível, e que esse foi o maior desafio até aqui. “Foram novos protocolos, uma doença desconhecida, muita incerteza e insegurança, mas acima de tudo uma fé inabalável de que isso iria passar e que mais uma vez seria um desafio vencido”, relata.

“Quando a porta da ala exclusiva para pacientes com Covid-19 no HB foi fechada no final de setembro de 2021, foi difícil controlar a emoção, assim como também foi difícil controlar os medos e todas as incertezas quando a mesma se abriu. Foram plantões que partiram meu coração, com pacientes suplicando para que não fossem entubados; chamadas de vídeo que muitas vezes eram uma despedida, e encontros com abraços distantes, sem o conforto de estar com quem se ama. Em muitos momentos agradeci por estar de máscara e protetor facial para que ninguém pudesse notar minhas lágrimas”, revela Tatiane.

“Vivemos momentos que palavras não definem e encerrar processos nos faz realmente acreditar que a vida está voltando ao normal. Agradeço a Deus por poder cuidar de cada paciente e também por Ele ter cuidado de mim, me protegendo durante todo esse tempo que estive frente a frente com o inimigo no campo de batalha. Acredito que estamos vencendo a doença sim, mas nada vai mudar se o coração das pessoas também não mudar”, constata Tatiane.