SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 03 DE DEZEMBRO DE 2021
MELHOR QUE REMÉDIO

Para prevenir e combater doenças, idosos praticam pilates, maratona e até pole dance

Terceira reportagem da série especial mostra idosos que vivem como atletas ao praticar pole dance, pilates e até maratona. Prática de atividades físicas previne doenças, como o Mal de Alzheimer

Rone Carvalho
Publicado em 23/10/2021 às 18:28Atualizado em 23/10/2021 às 18:44
Edi Thereza Rodrigues, de 69 anos, encontrou no pilates, uma forma de exercício de baixo impacto, a diversão da terceira idade (Johnny Torres 22/10/2021)

Edi Thereza Rodrigues, de 69 anos, encontrou no pilates, uma forma de exercício de baixo impacto, a diversão da terceira idade (Johnny Torres 22/10/2021)

Correr mais de 40 quilômetros aos 77 anos. Ou fazer acrobacias em argolas e barras gigantes aos 87, tornando-se a mais experiente dançarina de pole dance do mundo. Tem ainda o campeão de valsa que não perde o rebolado e a idosa que descobriu no pilates o sinônimo de qualidade de vida.

Tratam-se de idosos da região de Rio Preto que vivem como atletas e que descobriram na atividade física o prazer da terceira idade, passando longe de doenças cardiovasculares ou cognitivas, como o Mal de Alzheimer, que acomete um em cada dez idosos brasileiros.

Na terceira reportagem da série especial “Uma vida pela frente”, o Diário conta a história de idosos-atletas que viram no esporte a chance de aproveitar a melhor idade. Na mesma direção, cientistas brasileiros descobriram que eles estão no caminho certo. Isso porque a doença neurodegenerativa, que mais avança no mundo à medida que a população envelhece e ainda não há cura – o Mal de Alzheimer - tem no exercício físico o caminho da prevenção.

Ana Josefa de Azevedo é um exemplo desse time de aposentados. Quem vê ela fazendo acrobacias de cabeça para baixo e pendurada na barra de pole dance pode não imaginar, mas a aposentada tem 87 anos. Considerada a mais velha dançarina da modalidade do mundo, a rio-pretense encontrou na barra o seu hobby na terceira idade.

A rio-pretense Ana Josefa de Azevedo, de 87 anos, é considerada a mais experiente dançarina de pole dance do mundo (Arquivo Pessoal/ Ana Josefa de Azevedo)

A paixão começou quando viu a atriz Flávia Alessandra dançando pole dance na novela “Duas Caras”, da TV Globo, em 2007. Desde então, o desejo por fazer acrobacias não saiu da sua cabeça. “Não sinto dor e minhas colegas ficam com calo na mão. Eu não tenho nada disso. Acho que porque tenho sangue de índia”, disse.

Em 2018, a filha de uma indígena que já subia no pau-de-sebo quando era adolescente, impressionando até mesmo a família, pode voltar a ver o mundo de cabeça pra baixo. “É impressionante a vitalidade e disposição dela. Ela gosta muito e funciona como paixão e terapia para ela ao mesmo tempo. Digo que a Ana foi um presente de Deus na minha vida”, diz Fabrícia Frazzanato Mônaco, educadora física.

Além de praticar pole dance, a aposentada também adora caminhar. “Fazia muito o percurso de Rio Preto a Mirassol, agora parei por ser perigoso. Mas não abro mão da minha caminhada pela cidade”. Para o esposo, Aguiar Inarqui, de 73 anos, os sonhos não morrem. “Ela tem o meu apoio. Se ela gosta e era um sonho, tem que fazer mesmo”.

Quem também encontrou na ginástica uma chance de nova vida foi Edi Thereza Rodrigues, de 69 anos. Aluna de pilates, a ex-auxiliar de escritório e costureira começou a fazer as atividades após indicação de um ortopedista. “É uma desconcentração, digo que é melhor que remédio”.

Edi Thereza Rodrigues, de 69 anos, encontrou no pilates, uma forma de exercício de baixo impacto, a diversão da terceira idade (Johnny Torres 22/10/2021)

Além dos exercícios físicos, Edi também se apega na fé. Espírita, ela não deixa de fazer suas leituras e ajudar na comunidade. “Você ter o contato com as pessoas ajuda muito na melhor idade. Faz uma diferença gigante conversar e interagir com as pessoas”, destacou.

Segundo a médica geriatra e diretora científica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (Sbgg), Christiane Machado, as atividades físicas são uma forma da terceira idade driblar o sedentarismo, mas também a solidão. “No Brasil, consideramos uma pessoa idosa a partir dos 60 anos, mas em alguns países esse critério já subiu para 65. Os estudos mostram que, com avanço científico o envelhecimento, está ficando mais tardio. Hoje, conseguimos prevenir algumas doenças que não conseguíamos antes”.

 Rebolado medalhista

Leozino Rodrigues, de 91 anos, é campeão de dança por Rio Preto e aguarda com ansiedade a reabertura dos bailes (Guilherme Baffi 22/10/2021)

Se Leozino Rodrigues, de 91 anos, pudesse escolher a primeira coisa para abrir no fim da pandemia, com certeza seriam os bailes. Apaixonado pela dança, o rio-pretense é medalhista do rebolado. Depois de ter trabalhado na roça e como taxista em Rio Preto, Leozino encontrou na dança a descontração da terceira idade. “Agora, o meu serviço é dançar”, diz.

Na pandemia, o dançarino de 91 anos mal saía de casa. O medo de pegar o vírus, fez com que o rádio e a televisão fossem as únicas maneiras de treinar os passos dentro de casa. “Estou na esperança de voltar aos bailes. Já ganhei medalhas de ouro dançando, inclusive, participei de competições”, conta.

Viúvo há mais de 30 anos, Leozino não encontrou um novo amor, mas na dança lapidou a solidão. “Só tenho asma, mas se eu danço, levo a ‘bombinha de ar’. E tá tudo certo. Dançar é bom demais”.

Clique aqui para fazer o teste

Rotina com vitalidade

José Julio Grigoleti começou a correr na década de 1990

Aos 77 anos, levantar cedo, com frio e chuva, para vestir uma roupa leve e ir para correr não é sinônimo de preguiça para José Julio Grigoleti. Todos os dias, o aposentado corre aproximadamente 10 quilômetros pelas ruas de Tanabi. A preparação física de dar inveja a muitos jovens já rendeu 598 medalhas e troféus. E engana-se quem pensa que ele deseja parar.

Durante a pandemia do coronavírus, com as corridas suspensas, ele deu um jeito de disputar corridas online que também renderam premiações. Nelas, ele corria sozinho na cidade, mas o percurso era marcado simultaneamente digitalmente. “Faz mais de 20 anos que ele corre”, diz a esposa Claudemira Garcia Grigoleti, de 73 anos.

Seu Grigoleti, como é conhecido em Tanabi, não é campeão somente nos passos largos, mas também por plantar árvores. “Os ipês da entrada da cidade foi ele que plantou. Durante a pandemia, mesmo com dificuldade em uma das mãos, ele ia regar e cuidar de cada umas das árvores”, conta a esposa.

Há 15 anos, o maratonista teve o braço atingido pelo retrovisor de um carro. Mesmo com a tipoia no braço que serve para dar um suporte, Seu Grigoleti não parou. “Correr é bom, faz bem para a saúde”, contou o atleta que espera ansiosamente a volta das corridas de rua com público.

A história dele com as corridas de rua começou na década de 1990. Depois que iniciou, Grigoleti não conseguiu mais parar. Até a cirurgia no coração que o médico dizia ser necessária fazer foi desmarcada pela qualidade de vida alcançada pelo idoso. “Ele começou com cinco quilômetros, depois foi dez até disputar maratonas”, lembra Claudemira que também fazia caminhada com o marido, mas parou após problemas na coluna.

A professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Yeda Duarte, que estuda sobre a longevidade há mais de duas décadas, explica que qualidade de vida é hábito e que a história de Ana, José, Edi e Leozino devem ser exemplos a serem seguidos. “O envelhecimento é algo que acontece durante a vida. E como vamos lidar com ele, depende de nós”.

Prevenção ao Alzheimer

Afetando um em cada dez idosos brasileiros, o Mal de Alzheimer já é conhecido pelos pesquisadores como a doença do envelhecimento. Isso porque estudos mostram que quanto maior a idade, maiores são as chances de ser diagnosticado com o Alzheimer. Para se ter uma ideia, 25% dos idosos com mais de 75 anos correm risco de sofrer de Mal de Alzheimer. Quando chega aos 85 anos, as chances são de 40%.

A Doença de Alzheimer (DA) é um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memória. Entre os sinais, estão a falta de memória para acontecimentos recentes; repetição da mesma pergunta várias vezes e dificuldade para acompanhar conversações ou pensamentos complexos.

Por mais que ainda não exista cura para a doença neurodegenerativa, cientistas brasileiros da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriram um caminho para prevenir e potencialmente tratar o Alzheimer: atividades físicas.

O estudo mostrou que quando praticamos exercícios também estamos protegendo o cérebro e a memória. A irisina, um hormônio produzido pelos músculos quando praticamos exercícios físicos, protege o cérebro e restaura a memória afetada pela doença. Ou seja, a prática esportiva na terceira idade ajuda a prevenir o Alzheimer.

O neurologista James E. Galvin desenvolveu um teste de apenas dez perguntas que pode detectar, em poucos minutos, os primeiros sinais do Mal de Alzheimer. O Diário reproduz esse teste que você pode fazer em casa. Confira na arte acima.

Alerta

Chances de ter Alzheimer:

  • 11,5% dos idosos com mais de 60 anos correm risco de sofrer de Mal de Alzheimer
  • 25% dos idosos com mais de 75 anos correm risco de sofrer de Mal de Alzheimer
  • 40% dos idosos com mais de 85 anos correm risco de sofrer de Mal de Alzheimer

Dados

Mal de Alzheimer

A Doença de Alzheimer (DA) é um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memória, comprometimento progressivo das atividades de vida diária e uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e de alterações comportamentais.

Sinais

  • Falta de memória para acontecimentos recentes;
  • Repetição da mesma pergunta várias vezes;
  • Dificuldade para acompanhar conversações ou pensamentos complexos;
  • Incapacidade de elaborar estratégias para resolver problemas;
  • Dificuldade para dirigir automóvel e encontrar caminhos conhecidos;
  • Dificuldade para encontrar palavras que exprimam ideias ou sentimentos pessoais;
  • Irritabilidade, suspeição injustificada, agressividade, passividade, interpretações erradas de estímulos visuais ou auditivos, tendência ao isolamento.

Como prevenir a Doença de Alzheimer?

A Doença de Alzheimer ainda não possui uma forma de prevenção específica, no entanto os médicos acreditam que manter a cabeça ativa e uma boa vida social, regada a bons hábitos e estilos, pode retardar ou até mesmo inibir a manifestação da doença. Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou que atividades físicas diminui as chances de Mal de Alzheimer na terceira idade.

 
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