SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUINTA-FEIRA, 11 DE AGOSTO DE 2022
CRÔNICAS DO MARIVAL

Nas asas de 'Bartô'

Um italiano radicado no Brasil, amigo de Santos Dumont, foi o piloto da primeira aeronave da Vasp a pousar em Rio Preto, em 1934

Marival Correa
Publicado em 02/07/2022 às 18:11Atualizado em 04/07/2022 às 10:41
Bartolomeo Cattaneo (1866-1943) (Reprodução/Facebook - Página em memória de Bartolomeo Cattaneo)

Bartolomeo Cattaneo (1866-1943) (Reprodução/Facebook - Página em memória de Bartolomeo Cattaneo)

Quando emergia na paisagem urbana de Rio Preto o prédio da revolucionária escola Monsenhor Gonçalves, quando a muda de um guapuruvu era semeada na Vila Imperial – símbolo da resistência do verde, até sucumbir em 2019 – , quando o local de pouso de aeronaves não era mais que um campinho de terra batida na Redentora, em área cedida pelo coronel Victor Britto Bastos, um som diferente invadia os céus da cidade. Era 1934 e, pelas mãos hábeis de um italiano radicado no Brasil, amigo-assistente de Santos Dumont e um dos pilotos pioneiros da aviação mundial, pousava em Rio Preto o primeiro avião da Vasp.

Bartolomeo Cattaneo (1866-1943), com seu farto e delineado bigode ‘a Kaiser’, seu terno, viseira e chapéu fedora, aqui desembarcou como um bandeirante reconfigurado. Nem carro de boi, nem barco. Mas um “trem” que voava, que inaugurava a navegação aérea comercial por estas bandas. Coube a Cattaneo, sexto no mundo a receber uma licença de piloto civil, o primeiro a cruzar o Rio da Prata e também os Alpes e realizador do primeiro voo de aeronave em Porto Alegre, a façanha histórica em solo rio-pretense.

Falar de “Bartô” é rememorar a própria história da aviação, desde os seus primórdios. Uma história de tentativas e erros, numa época em que a tecnologia era quase que puramente aquilo que a mente criava e, por meios rudimentares, procurava executar. Neste caso, literalmente, cada pequeno passo dos inventores era um grande passo para a humanidade e sua obstinação em voar.

Um fascínio que pôde ser observado tanto na véspera quanto no dia da chegada do aeroplano Monospar, pilotado por Bartolomeo Cattaneo, a Rio Preto. “É de toda justiça que se faça uma recepção entusiástica ao representante da Vasp, cuja iniciativa é das que merecem aplausos e incentivo”, destacam os jornais da época, que chamavam os autores daquela “empreitada aérea” de mensageiros do progresso de São Paulo. “Pede-se o comparecimento do povo ao aeródromo”, enfatizavam.

E eis que finalmente, no dia 3 de fevereiro de 1934, um Monospar ST-4, monoplano bimotor de ‘sangue britânico’, de asa baixa com trem de pouso na roda traseira fixa e que atingia pouco mais de 200 quilômetros por hora, invade os céus de Rio Preto e pousa precisamente às 14h15, vindo de São Paulo via Ribeirão Preto, onde ficou retido.

Primórdios, glórias e queda

Era um momento histórico sobreposto a outro – para Rio Preto e para a companhia que acabava de ‘nascer’.

Em 4 de novembro de 1933 em uma cerimônia no Campo de Marte, em São Paulo, era inaugurada oficialmente a Viação Aérea São Paulo (Vasp). Uma ocasião formal, com direito à champanhe com a qual duas destacadas senhoras da sociedade paulistana – dona Olívia Guedes Penteado e dona Antonieta Caio Prado – “batizaram” a fuselagem dos dois Gal Monospar, PP-SPA e PP-SPB.

As duas primeiras linhas, responsáveis pelos primeiros voos comerciais da empresa, foram operadas com bimotores Monospar ST-4 ingleses, de São Paulo a São José do Rio Preto com escala em São Carlos, e São Paulo a Uberaba-MG com escala em Ribeirão Preto, sob comando de Bartolomeo Cattaneo. Eles tinham capacidade para três passageiros e, sem a tecnologia e estrutura atuais, faziam o que podiam para driblar as limitações da época, o que incluía pistas de pouso ainda acanhadas como no caso de Rio Preto.

Mas foi uma história de superação e que inspirou os próprios amantes da aviação rio-pretense a criar sua agremiação. Em 6 de julho de 1939 era formalizado o Aeroclube de Rio Preto, em reunião no Club Comercial, no último andar do edifício Bandeirantes, na rua Jorge Tibiriçá, de frente para a praça Rui Barbosa.

E a Vasp ‘decolaria’ nas décadas seguintes, abrindo linhas Brasil afora, incluindo a ponte aérea “Sampa-Rio” (ou inverso, depois Nordeste e até chegar a operar linhas no exterior, alcançando, por exemplo, Seul na Coreia do Sul, e Casablanca, no Marrocos. A derrocada começou com sua privatização, em 1990. Até que em 4 de setembro de 2008, sentença proferida pelo juiz da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, onde tramitava a Recuperação Judicial, decretou a falência da companhia, com dívidas estimadas em 5 bilhões de reais.

Uma história que só foi possível graças a desbravadores como Cattaneo, tão apaixonado pela aviação quanto Santos Dumont, cujos 90 anos de morte se completam no próximo dia 23. Uma história que nos permite voar pela imaginação… Dumont aperfeiçoando seu 14-Bis com auxílio do ‘pequeno grande’ aviador italiano. E Cattaneo sonhando com os céus que o levariam pelo mundo, que o trariam até Rio Preto.

 
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