Diário da Região
AS BRUXAS ESTÃO SOLTAS

Místicos rio-pretenses resgatam origem do Halloween

Segundo a tradição celta, no dia 31 de outubro se abre uma “porta” entre o mundo físico e o espiritual, dando origem ao Halloween. Para místicos rio-pretenses, data representa a transição. “É o começo de um novo ciclo”, diz o guru Victor Augusto

por Joseane Teixeira
Publicado em 29/10/2022 às 17:10Atualizado em 29/10/2022 às 17:32
O guru Victor Augusto orienta para a necessidade do desapego de objetos e roupas que não servem mais para renovar a energia do ambiente (Divulgação/Diego Santos)
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O guru Victor Augusto orienta para a necessidade do desapego de objetos e roupas que não servem mais para renovar a energia do ambiente (Divulgação/Diego Santos)
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"Talvez não tratem como magia, mas a grande maioria das pessoas tende a procurar proteção, ainda que sob o égide da religião. A vela para o anjo da guarda é magia. O chá que cura o mal-estar, também". O guru Victor Augusto se prepara para viver o Halloween, celebrado no dia 31 de outubro. Data folclórica no calendário brasileiro, que repete a cultura norte-americana de decorar a casa com caveiras e fantasiar as crianças de bruxinhas, rio-pretenses místicos resgatam a origem celta da comemoração e tratam a data como passagem de ano, marcado pela chegada do inverno europeu, em que povos antigos acreditavam se abrir uma porta entre o mundo físico e o espiritual.

"Existe algo muito forte acontecendo nesse dia. Uma transmissão de energias poderosas no mundo, capazes de nos fortalecer e nos conduzir ao autoconhecimento", descreve a terapeuta esotérica Valquíria Carvalho.

Professor de magia natural, Victor diz que cada vez mais pessoas procuram alternativas místicas para uma vida mais equilibrada. E a resposta está na natureza. "É preciso desmistificar a ideia de que a cura e a proteção, a partir de elementos naturais, são práticas ocultas. Pelo contrário. Estamos nos reconectando com a nossa ancestralidade, que buscava nas plantas, nas árvores, no sol e na lua o tratamento para as dores do corpo e da alma", diz.

Ele cita como exemplo os banhos de ervas, muito utilizados pelos avós, o sal grosso, atribuído à proteção contra a inveja e até o copo de água abençoado pela oração de um padre ou pastor, que pode ser energizado também por uma pessoa comum, desde que bem-intencionada.

"As velas que os católicos acendem para o anjo da guarda são um processo de ancoramento espiritual de energias positivas. As fases da lua, a crença no significado das cores. A nossa vida é permeada de misticismo e todos nós adotamos práticas pessoais de proteção. Elas são as magias naturais, inerentes ao ser humano, independente da religião que ele professa".

Transição

O guru diz que o Halloween, para os esotéricos, representa um momento de transição. "É o começo de um novo ciclo, um tempo de renovação, quando devemos nos desapegar de coisas e sentimentos que nos impedem de evoluir moralmente e espiritualmente", explica.

Aproveitando a importância desta data, Victor orienta que, na véspera do dia 31, seja feita uma grande faxina em casa, que inclui não apenas a limpeza da sujeira, mas o desapego de objetos e roupas que não servem mais. O objetivo é liberar espaço e renovar a energia do ambiente.

"Outra dica muito simples e poderosa é escrever em um papel tudo o que quer deixar para trás. Sentimentos inferiores, como mágoa e tristeza, e dificuldades financeiras, por exemplo. Queime o papel, mentalizando que, assim como o fogo consome aquela folha, que as experiências negativas também desapareçam. Depois sopre as cinzas na natureza, pedindo que ela faça a restauração necessária", completa.

O guru, no entanto, alerta que não é indicado colocar o nome de pessoas. "Quando se pede ao universo que retire alguém da nossa vida, ele pode interpretar isso de inúmeras maneiras. Por exemplo, quando o desejo é se afastar de um colega de trabalho, você próprio pode ser demitido. Porque o pedido é sair da presença da pessoa, e isso foi atendido. Talvez não da forma que a pessoa esperava", brinca.

Bruxas modernas

Curandeiras, ousadas e independentes. Na idade média, mulheres com aptidão para terapia naturais por meio de ervas e infusões eram tidas como bruxas. A aversão aumentava quando elas, simplesmente por serem mulheres, ousavam questionar as regras da sociedade dominada pelos homens. A punição era a fogueira. Evitada por séculos em razão do desconhecimento e da intolerância, a referência de bruxa está voltando a ser utilizada por mulheres como Karine Paschoalão, que se reconheceram como instrumento de transmissão energética e de cura com elementos da natureza.

No dia das bruxas, a rio-pretense celebra a liberdade de viver sob uma nova perspectiva, menos materialista e mais sensível ao que considera o verdadeiro sentido da existência: a saúde (física e mental) e a harmonia entre as pessoas. Arquiteta de formação, na busca pelo autoconhecimento ela se interessou pelo poder das ervas e descobriu aptidão para produzir incensos, essências, difusores e chás para energia e proteção.

Assim como as bruxas dos contos, Karine também tem um "livro de feitiçarias", que é um catálogo no qual ela reúne conhecimentos sobre fitoenergia e quais são as folhas e raízes mais adequadas para tratamentos de doenças físicas e emocionais e rituais místicos de prosperidade e felicidade. (JT)

Celebrando forças e fenômenos naturais

Grupo adeptos da filosofia druida se reúne regulamente em áreas verdes para cultuar a natureza por meio de rituais de consagração. Para o grupo, os elementos da natureza são forças cultuadas como fonte de energia (Divulgação)
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Grupo adeptos da filosofia druida se reúne regulamente em áreas verdes para cultuar a natureza por meio de rituais de consagração. Para o grupo, os elementos da natureza são forças cultuadas como fonte de energia (Divulgação)

Três mil anos separam a tradição druida – desenvolvida por sábios em msseio às florestas de carvalho da Europa – do Brasil de concreto e aço do século 21. No entanto, a doutrina de origem Celta, que remonta o período antes de Cristo, atravessou o tempo e o continente e estabeleceu uma célula no interior do estado de São Paulo, bem em Rio Preto.

Amparados em conhecimentos de filosofia, astronomia e literatura, um grupo de adeptos se reúne regulamente em áreas verdes para cultuar a natureza por meio de rituais de consagração e compartilhar com seus pares interpretações do mundo e orientações sobre o caminho do autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal. A busca da verdade é individual. Cada um deve travar por si próprio, mas com apoio de um líder, cuja sabedoria direciona sobre comportamentos nocivos que podem retardar o processo de evolução.

"Não é uma religião, é uma filosofia de vida que busca interpretar a natureza e, a partir dela, descobrir quem somos e qual o nosso propósito", explica o druida Carlos Navas, que se dedica ao estudo da cultura celta desde 1994.

Sem dogma

Navas afirma que a doutrina não é dogmática, ou seja, não é firmada em regras e não estabelece verdades absolutas. Também não cultua um único deus e os encontros são estabelecidos com base em fenômenos da natureza, como a passagem das estações climáticas. Cada elemento da natureza, o sol, a lua, as árvores, a chuva, são forças cultuadas como fonte de energia.

Durante o processo de aperfeiçoamento, cada integrante descobre a sua potencialidade. Se a personalidade é voltada para as artes, música e poesia, eles se reconhecem como bardos e vestem a cor azul, relacionada ao céu, uma alusão à mente que "voa". Se a habilidade é para cura, medicina e filosofia, o membro é reconhecido como ovate, e usa túnicas verdes.

O druida é aquele que exerce uma liderança natural, com base nos conhecimentos adquiridos durante os anos de estudo sobre as coisas do mundo. Na antiguidade eram respeitados como intelectuais e conselheiros. Os druidas celebram o Halloween com hidromel, bebida consagrada à memória dos ancestrais e cuja fórmula somente o líder conhece.

Chá de cacau

No mesmo movimento de autoconhecimento, Valquíria Carvalho, que teve uma formação cristã, encontrou nas culturas xamânica e indígena as respostas para o equilíbrio da vida.

A partir de uma imersão em aldeia do Acre, ela adotou a dança como medicina para o corpo e a consagração do cacau como prática ritualística energizante.

"Eu sempre fui uma pessoa espiritualmente entregue a todo tipo de energia que me cerca. A conexão com a ancestralidade indígena transformou a minha maneira de interpretar o mundo e a sociedade. Hoje, uso os conhecimentos da natureza para ajudar as pessoas a se conectarem com sua própria verdade", diz.

Além da preparação do chá de cacau que é menos expansivo que a Ayahuasca, porém mais energético, Valquíria se dedica a produzir sabonetes naturais a partir de ervas, focados no bem estar e no tratamento de problemas de ordem física, emocional e espiritual.

Dentro da comunidade que Valquíria se identifica, o dia do Halloween é propício às reuniões fechadas entre pessoas que compartilham o mesmo ideal de vida. "A soma das energias coletivas nesse dia produz uma força poderosa que nos direciona e fortalece o nosso propósito", conclui.