SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2022
TRILHOS DA HISTÓRIA

Estações ferroviárias abandonadas são ocupadas até por porcos na região de Rio Preto

Sem perspectiva de solução, locais viraram problema sanitário, de segurança pública e até para o meio ambiente.

Rone Carvalho
Publicado em 23/06/2022 às 22:28Atualizado em 27/06/2022 às 15:05
Inaugurada em 1911, a estação ferroviária do bairro Japurá, em Tabapuã, é a que se encontra em pior estado de conservação na região de Rio Preto (Johnny Torres 18/5/2022)

Inaugurada em 1911, a estação ferroviária do bairro Japurá, em Tabapuã, é a que se encontra em pior estado de conservação na região de Rio Preto (Johnny Torres 18/5/2022)

Construída há 80 anos, a estação ferroviária de Engenheiro Balduíno, em Monte Aprazível, não lembra em nada o intenso vaivém de passageiros que vivenciou no século passado. Abandonada, com telhados, janelas e parte da estrutura caindo, o prédio é ocupado há quase duas décadas pelo autônomo Roberto dos Santos, de 61 anos, e sua esposa. Ele é só mais um entre dezenas de brasileiros que vivem, ilegalmente, nas estações ferroviárias esquecidas pelo poder público. “Isso daqui não é nosso, se chegar pedindo para sair, não sei para onde vamos”, diz.

Cerca de 15 quilômetros dali, a estação de Ecatu, em Tanabi, também pouco conserva os áureos tempos da ferrovia. O antigo terminal, onde passageiros aguardavam para pegar as locomotivas com destino a São Paulo, deu lugar a um chiqueiro improvisado. As únicas lembranças que restaram são as colunas de aço e uma placa indicando que o prédio era da extinta Fepasa – empresa responsável pelo transporte ferroviário regional.

Roberto dos Santos, de 61 anos, e a esposa moram na estação de Engenheiro Balduíno, em Monte Aprazível (Guilherme Baffi e Johnny Torres)

O Diário percorreu 200 quilômetros de estradas, seja de terra ou asfalto, em busca das estações ferroviárias esquecidas do Noroeste Paulista. O estado de abandono delas é o tema da segunda reportagem da série especial “Trilhos da história”. Os locais viraram problema sanitário, de segurança pública e até para o meio ambiente.

Em Cosmorama, Benedito Rosa de Almeida consegue em poucas palavras resumir a situação. “Agora eles só dependem das linhas para o transporte de cargas, não precisam mais conservar as estações. Aí fica desse jeito. Só passa o trem e o abandono fica”.

Trabalhador rural, ele sente na pele todos os dias os reflexos da paralisação do transporte ferroviário de passageiros. No bairro da estação, movimentado no passado por conta do trem, atualmente existem poucas moradias. “Dá tristeza, de como era e como ficou. Eu moro do lado da estação. Tenho lembranças disso cheio. Agora é até perigoso vir aqui à noite”.

Vizinho da estação em Cosmorama, Benedito Rosa de Almeida lembra com saudades da época de transporte de passageiros (Guilherme Baffi e Johnny Torres)

Em Tabapuã, no bairro Japurá, a antiga estação ferroviária até parece uma estação fantasma. No local, onde um único morador vive, em meio às ruínas do que um dia foi uma estação ferroviária, as únicas lembranças do trem estão no letreiro. Lá, até o trilho foi retirado, após a crise do café e a malária praticamente erradicar o bairro.

“Com o fim do transporte ferroviário de passageiros, as estações tornaram-se obsoletas para as empresas e hoje estão esquecidas, mas são locais que precisam ser preservados. No Brasil, somente o transporte ferroviário de cargas teve avanço nos últimos anos, o de passageiros continua parado", disse Bruno Trivelari Sanches, diretor e vice-presidente da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF).

No País, os únicos trens de passageiros que continuam em operação são os das regiões metropolitanas, que fazem curtas distâncias, ou turísticos que são mantidos por associações e iniciativa privada. “A única coisa que restou de trens de passageiros de longa distância, como tinha no século passado, são os operados pela Vale, um entre o Espírito Santo e Minas Gerais e outro no Maranhão”, destacou Bruno.

Na região, das dez estações ferroviárias visitadas pela reportagem, seis estão em estado precário ou de abandono – Tabapuã, Bálsamo, Monte Aprazível, Cosmorama, Cedral e Tanabi. Duas têm estado razoável de preservação – Mirassol e Catiguá. E outras duas estão em bom estado – Rio Preto e Uchoa. Entretanto, diferentemente das estações rio-pretenses (uma no Centro e outra em Schmitt), a de Uchoa é a única que segue em funcionamento para o público, abrigando um museu e uma biblioteca. 

De quem é a responsabilidade

A responsabilidade de cuidar das estações ferroviárias é das prefeituras. Para Eduardo Bacani Ribeiro, arquiteto, urbanista e pesquisador da USP, que estudou sobre as estações ferroviárias da Estrada de Ferro Araraquara (EFA), o Brasil poderia se inspirar nos exemplos de países europeus, como forma de incentivo ao transporte ferroviário de passageiros. “Esses locais podem ser recuperados para atender a própria população, com ferrovias curtas, por exemplo. E não é somente pela volta do trem de passageiros, mas como questão de preservação histórica e do valor urbanístico desses locais, como fez Uchoa”.

Em nota, a Rumo, responsável pelo uso da malha ferroviária regional, disse que os prédios não fazem parte do contrato de arrendamento e não estão sob a posse e guarda da empresa.

Com a extinção da Fepasa, no final da década de 1990, os cuidados das estações foram repassados para a rede ferroviária federal, que em 2007 foi extinta. Foi quando muitas estações passaram a ser protegidas pelo Iphan, enquanto o resto foi repassado para patrimônio da União. “Hoje, muitas prefeituras possuem autorização da União para revitalizar esses locais, mas nada fazem”, diz Eduardo.

Assim, boa parte das concessionárias ou companhias ferroviárias, como a Rumo, formalizam contratos de manutenção somente da linha férrea, o que deixa boa parte das estações ferroviárias em estado de depredação.

A expectativa é que, com projetos de ferrovias curtas que estão sendo estudados pelos governos estadual e federal, algumas estações ferroviárias da região possam voltar a operar nos próximos anos. (RC) 

Cedral

Na cidade existem duas estações, ambas em precário estado de conservação. A primeira foi inaugurada em 1912, e funcionou até o início dos anos 1950, quando foi desativada. A nova estação (na foto) foi desativada por volta de 1976, com a crise do setor ferroviário. Hoje serve de abrigo para pessoas em situação de rua.

Cosmorama

Inaugurada em 1943, a estação ferroviária de Cosmorama foi construída a três quilômetros da região central, em um distrito. Na década de 1980, a estação ferroviária já estava desativada. Atualmente, o local encontra-se em estado precário de conservação.

Catiguá

Inaugurada em 1910, com o nome de Ibarra, a estação ferroviária de Catiguá foi desativada no final do século 20, a partir da crise do setor ferroviário. Atualmente, o prédio encontra-se em estado razoável de conservação, sendo sede de serviços públicos municipais, como o Conselho Tutelar e assistência social.

Uchoa

Inaugurada em 1911, a estação contribuiu para a emancipação da cidade, em 1926. Foi uma das últimas a fecharem regionalmente, tanto que o último trem de passageiros passou por lá, em 2001. Após ficar desativada por uma década, o prédio foi reformado para abrigar a biblioteca municipal, em 2011. No antigo armazém, funciona o museu de paleontologia. Hoje, é uma das estações em melhor estado de conservação, recebendo o nome de Estação Cultural de Uchoa.

Rio Preto – Schmitt

A segunda estação em Rio Preto fica em Engenheiro Schmitt. Ela também foi aberta em 1912, dando origem a um vilarejo que virou distrito, em 1927. Na década de 1980, quase foi demolida, após ser fechada. Desde 2014, o local passou a ser ponto final do passeio do Trem Caipira, que ocorre entre o Centro e Schmitt.

Rio Preto – Centro

Na cidade existem duas estações ferroviárias, ambas foram inauguradas, em 1912. Na região central, a estação ferroviária permitiu o crescimento de Rio Preto, mas parou de funcionar em 2001. Atualmente, encontra-se em bom estado de conservação, após uma reforma. O local é tombado, desde 2007, como patrimônio cultural ferroviário pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Mirassol

Inaugurada 21 anos depois da estação ferroviária de Rio Preto, a estação de Mirassol começou a funcionar em 1933. Sua desativação aconteceu na década de 1990. Atualmente, apesar de uma recente pintura, o local segue fechado, com vidros depredados e ocupação de pessoas em situação de rua ao seu redor.

Tanabi

Em Tanabi, as duas estações ferroviárias estão em estado de abandono - uma fica no bairro Fortaleza (a 7 quilômetros da região central) e outra no distrito de Ecatu (a 14 quilômetros da região central). Essa última, foi inaugurada em 1959, sendo desativada pelo baixo movimento de passageiros na década de 1970. Hoje, o local encontra-se em estado precário, sendo ocupado por andarilhos, com criação de porcos.

Monte Aprazível

Inaugurada em 1942, a estação fica no distrito de Engenheiro Balduíno, afastada da região central. Seu primeiro prédio foi feito de madeira, sendo substituído anos depois por uma estrutura de alvenaria. Atualmente, o local encontra-se em estado precário de conservação, sendo ocupado por duas famílias.

Bálsamo

Inaugurado em 1941, o primeiro prédio da estação ferroviária de Bálsamo era um galpão de madeira, que mais tarde foi substituído por outro prédio, no mesmo local, feito de alvenaria. Na década de 1980, os trens de passageiros deixaram de parar na estação. Atualmente, está em estado precário de conservação. 

Japurá, em Tabapuã

Inaugurada em 1911, a estação ferroviária do bairro Japurá, em Tabapuã, é a que encontra-se em pior estado de conservação na região. É a que está há mais tempo desativada. Na década de 1920, o bairro tabapuanense era uma cidade em expansão, historiadores estimam que o local abrigava três mil habitantes.

Entretanto, na década de 1940, com a crise do mercado de café e uma grande epidemia de malária, o Japurá foi abandonado pelos moradores, tornandose praticamente uma cidade-fantasma. Até a linha de trem foi retirada da estação e, nos dias de hoje, as locomotivas passam a 1,5 quilômetro de lá. Atualmente, o prédio é habitado por um morador.

 
Grupo Diário da Região.© Copyright 2022É proibida a reprodução do conteúdo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por