SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO DE 2022
FIM DA FAVELA

Derrubada do primeiro barraco da Favela Marte, em Rio Preto, marca início da urbanização

Primeiro barraco da Favela Marte foi derrubado na tarde desta quinta-feira, 30, marcando o início do processo de urbanização do local; moradores devem retornar em 2023, após construção e entrega das casas

Marco Antonio dos Santos
Publicado em 30/06/2022 às 21:08Atualizado em 01/07/2022 às 08:21
Garoto observa momento em que máquina destrói barraco na Favela Marte (Guilherme Baffi 30/6/2022)

Garoto observa momento em que máquina destrói barraco na Favela Marte (Guilherme Baffi 30/6/2022)

Ao som de crianças gritando "A Favela Venceu", verso do funk de MC Paulin da Capital, o primeiro barraco da Favela Marte foi demolido por uma máquina pá-carregadeira operada pelo governador Rodrigo Garcia (PSDB), na tarde desta quinta-feira, 30, em Rio Preto.

Moradores pararam para assistir e registrar em fotos e vídeos a demolição (Guilherme Baffi 30/6/2022)

O ato colocou fim a anos de luta por moradia de mais de 240 famílias que hoje compõem a comunidade (veja a cronologia da favela abaixo). Nos próximos dias, cada um dos habitantes vai para uma residência com aluguel, água e luz pagos por até 24 meses. Dentro deste prazo, serão demolidos todos os barracos, feita toda a infraestrutura do espaço e iniciada a construção de 247 casas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).

Crianças brincam em espuma ao lado de barraco demolido (Guilherme Baffi 30/6/2022)

Dona do primeiro barraco derrubado, Ana Ester Palhares assistiu a demolição da precária residência com o filho caçula no colo. Quando Rodrigo Garcia chegou, cercado de sua comitiva, a mulher teve dúvidas: “qual deles é o governador?”, perguntou.

Mesmo antes de iniciar a demolição dos barracos, o clima da favela já era de alegria. Nilson Reis dos Santos, 48 anos, pegou as chaves de sua moradia provisória, ouvindo palmas e “vivas” dos vizinhos. “Olha, a minha única tristeza vai ser ficar longe dos meus vizinhos, mas daqui a uns tempos a gente vai morar de novo aqui na favela”, diz Nilson.

Nem todos estão satisfeitos com o lar provisório. A pedagoga Silvana Rodrigues, 37 anos, recusou o lugar, porque não tem garagem para seu carro usado. “Meu carro pode estar bem velho, mas é meu. Não dá para deixar no meio da rua”, diz a moradora.

Cachorro próximo à máquina durante a destruição do barraco (Guilherme Baffi 30/6/2022)

A alegria na favela tem também seus sotaques de outros lugares do mundo. Tem o riso do venezuelano Samuel Reinaldo Ortega Silva , 29 anos, morador há três anos da favela. “Vim do meu país sem dinheiro e sem emprego. Vim parar na favela, mas Deus ajudou que deu tudo certo”, afirma.

Há até um favelado alemão: Michael Hans, de 67 anos, que reside na comunidade desde o começo. O europeu pretende ser uma das últimas pessoas a deixar o local, porque se incumbiu de uma missão: fotografar o processo de demolição.

Para o empreendedor social Edu Lyra, CEO da ONG Gerando Falcões e um dos responsáveis pela negociação do processo de urbanização da favela, a demolição dos barracos tem muito significado.

“É um trabalho de colaboração com a Prefeitura e com o governo do Estado e hoje é um símbolo de derrubar o que representava a miséria. Daqui em diante, vamos remover os moradores para centenas de casas e, em ato contínuo, derrubar todos os demais barracos, porque aqui vai ficar um grande canteiro de obras, de onde vai nascer uma favela 3D, digital, digna e desenvolvida”, diz.

Um pouco mais afastado da comitiva do governador, Benvindo Pereira, líder comunitário, assistiu a demolição do primeiro barraco. Olhou em volta para ver quantas pessoas ali estavam desde o começo da luta. “A demolição significa o começo de um novo mundo para as famílias que moram aqui. Graças à ajuda de dois gigantes, o Edu Lyra e a Amanda Oliveira (CEO da Valquírias World). Hoje temos certeza que vamos ter novas moradias e a transformação social de todos”, diz.

Benvindo afirma que foi arrumada para ele uma moradia próxima da favela, uma condição solicitada por ele para acompanhar a construção das novas moradias de perto.

Até a máquina foi recebida com alegria

Moradora Laiane de Oliveira, 24 anos, registra entrada da máquina na favela

Quinta-feira, às 14h09, começou o trânsito de uma enorme máquina pá-carregadeira em direção ao fundo da Favela Marte, para derrubar o primeiro barraco.

O momento é registrado pelo celular de Laiane de Oliveira, 24 anos, mas com espanto. “Pra quê uma máquina deste tamanho? Com um pé dava para derrubar aquele barraco”, comenta a moradora.

Há sete anos, a entrada de uma máquina frequentou os sonhos ruins dos moradores da favela, pois ameaçava despejar a todos para reintegração de posse das terras.

Na tarde de quinta-feira, a máquina trazida de uma empresa da Grande São Paulo foi recebida até com alegria pelos moradores, que até ajudaram a levantar os fios da precária rede elétrica da comunidade para a passagem. Usaram pedaços de paus.

“Deixa arrebentar os fios. Depois a gente conserta. Pode passar com a máquina”, disse um dos moradores que ajudavam a abrir caminho.

Por 30 minutos, funcionários do governo estadual, integrantes das entidades Gerando Falcões, Valquírias World e moradores da favela discutiram qual era o melhor caminho para a máquina fazer até chegar ao barraco a ser demolido. Sem discussão, com calma, a decisão foi tomada, semelhante ao que aconteceu em todo o processo de negociação da urbanização.

Pelos 300 metros da entrada da favela até o primeiro barraco a ser demolido, a máquina, com seu peso, estourou dois pontos da fraca tubulação de distribuição de água das habitações, feita com canos de finas polegadas. Em meses, serão substituídos por tubos de dimensões e composição mais reforçadas.

Assistindo a água escorrer e poças se formarem, a moradora Edna Lima disse: “Isso não é nada comparado a quando chove aqui. Minha casa ficava inundada de barro. Se Deus quiser nunca mais vou passar por isso”, diz a moradora, que vai morar de forma provisória no Estoril. (MAS)

Huck grava quadro com famílias

Edu Lyra, da ONG Gerando Falcões, com Luciano Huck, durante gravação de quadro do programa “Domingão com Huck”

O apresentador Luciano Huck esteve na Favela Marte, em Rio Preto, na manhã desta quinta-feira, 30. À frente do “Domingão com Huck”, da TV Globo, ele chegou à cidade, atendeu aos fãs no aeroporto e seguiu com destino à favela, onde ficou até o período da tarde.

Segundo informações apuradas pelo Diário, Huck gravou um quadro de seu programa. Ele conversou com três famílias. Antes, o apresentador bateu um papo com Edu Lyra, fundador e CEO da ONG Gerando Falcões, e também com a CEO da Valquírias World, Amanda Oliveira.

A moradora da favela Marinalva Barros é fã do apresentador. Sobre a visita, ela diz que se sente honrada em recebê-lo na comunidade.

“Favela é uma coisa que o pessoal toma como um lugar onde ninguém pode entrar. E a prova que isso não é verdade é o Luciano e outros empresários e o governador estarem tudo por aqui. Nós ficamos orgulhosos disso”.

Após a passagem pela Favela Marte, a equipe de produção do apresentador não divulgou a agenda de Huck. Ele não quis dar entrevista.

Empresários e influenciadores visitaram a favela nos últimos meses para conhecerem o projeto de transformação do local - e alguns deles tornaram investidores, auxiliando a ONG Gerando Falcões a manter os projetos. Entre as personalidades que estiveram no local estão Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, Luiz Carlos Trabuco, presidente do conselho de administração do Bradesco, e Bruno Setúbal, herdeiro do Banco Itaú. (Colaborou Júlia de Britto)

Outras ocupações em Rio Preto

Uma das famílias que ocuparam os espaços embaixo da arquibancada do antigo estádio Mário Alves Mendonça

A primeira favela de Rio Preto surgiu em 1956, nos vãos das arquibancadas do antigo estádio do América Futebol Clube, o Mário Alves Mendonça (MAM), no bairro Santa Cruz. Diversas famílias moravam em situação precária, sem energia, sem banheiro. Uma delas tinha até construído um fogão a lenha no local e outra já tinha armário, mesa e cadeiras de madeira, segundo o historiador Fernando Marques.

O fotógrafo Jaime Colagiovanni registrou o fato em uma semana em que o América enfrentaria o Palmeiras. “Diversas famílias instalaram-se, organizando, dentro da maior promiscuidade, verdadeiros ‘lares’ que bem refletem a situação de penúria em que vivem aqueles seres humanos”, apontou reportagem do Diário.

Somente em 1966, o problema foi resolvido com o fechamento do vão, depois de pedido da Fundação Rio-pretense de Assistência Social (Fras) ao presidente do América, Antônio Zaia Tarraf.

Em 1962, jornais relatam outra ocupação, desta vez no antigo prédio do Colégio Cardeal Leme, desativado para a construção do Fórum. De lá, os moradores partiram para o velho prédio desativado da Cadeia Velha, na confluência das ruas General Glicério e Delegado Pinto de Toledo, conforme conta Fernando Marques. As famílias saíram dois anos depois, com a demolição do prédio.

Mais recentemente, a favela do Brejo Alegre foi desocupada após três anos de existência. Os moradores saíram do local em agosto de 2019 depois de a Secretaria de Habitação liberar R$ 180 mil de recursos, que foram divididos entre as famílias que moravam na favela - cada uma recebeu entre R$ 3 mil e R$ 9 mil em dinheiro. O local, às margens da linha férrea, chegou a ter 66 barracos, com 101 pessoas - sendo 33 crianças.

A transformação da favela

CIDADES OITO FAMILIAS INVADEM UM TERRENO E CRIA UMA MINI FAVELA NO BAIRRO VILA ITALIA PROXIO A LINHA FERREA / FOTOS SHIRLEY DE ALENCAR SILVA COM AS SUAS FILHAS ELEN ( LOIRA ) THAIS ( MORENA) DIGITAL CIDADES DVD 711 PASTA FAVELA VILA ITALIA Foto: Guilherme Baffi 29/4/2015

Histórico

A favela da Vila Itália em Rio Preto, rebatizada de Favela Marte, começou a ser erguida em abril de 2014, em uma área particular

CIDADES OITO FAMILIAS INVADEM UM TERRENO E CRIA UMA MINI FAVELA NO BAIRRO VILA ITALIA PROXIO A LINHA FERREA / FOTOS SHIRLEY DE ALENCAR SILVA COM AS SUAS FILHAS ELEN ( LOIRA ) THAIS ( MORENA) DIGITAL CIDADES DVD 711 PASTA FAVELA VILA ITALIA Foto: Guilherme Baffi 29/4/2015

Em seguida, as invasões foram ampliadas e atingiu área pública, pertencente à Prefeitura

Em 2015, os herdeiros da área privada entraram na Justiça com pedido de reintegração de posse

Um ano depois, a Prefeitura também acionou a Justiça para que os moradores fossem obrigados a sair do local

Nos anos seguintes, a Defensoria Pública atuou para impedir o despejo dos moradores sem uma contrapartida

Em setembro de 2020, a Prefeitura pediu suspensão da ação para apresentar projeto de urbanização

Com apoio da Defensoria Pública e do Instituto As Valquírias, os moradores conseguiram a parceria com o Gerando Falcões para reurbanizar a favela

A Justiça de Rio Preto autorizou a suspensão dos processos para a implantação do projeto

Com a implantação do projeto, a comunidade passou a ser chamada de Favela Marte

Atualmente, a favela conta com 247 famílias, com cerca de 600 pessoas

A urbanização

Toda a ação de urbanização tem custo previsto de R$ 58 milhões, que serão divididos entre o Estado, a Prefeitura e a ONG Gerando Falcões

O projeto consiste na construção de 247 casas, por meio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU)

O custo das casas será de R$ 26,4 milhões - R$ 24 milhões do Estado e R$ 2,4 milhões da ONG

As famílias terão até 30 anos para pagar o financiamento, que será sem juros. O valor estimado das casas é de R$ 110 mil

A Prefeitura vai arcar com a desapropriação da área da favela que está em terreno particular e com as obras de infraestrutura para a construção das redes de água, de esgoto, iluminação e a pavimentação pública

O investimento da Prefeitura será de R$ 15 milhões

As casas serão entregues com interfone, geladeira, fogão, micro-ondas e chuveiro elétrico

A previsão é que as casas sejam entregues em 2023

Aluguel

Enquanto a construção ocorre, as famílias serão colocadas em imóveis alugados

Quem mora sozinho vai para quitinetes; para famílias com crianças, serão alugadas casas

O valor máximo do aluguel será de R$ 1,3 mil, bancado pela ONG Gerando Falcões com os recursos arrecadados com a iniciativa privada

Uma imobiliária ficou incumbida de localizar imóveis para as famílias

As despesas com a mudança serão da Prefeitura, que prevê gastar até R$ 257 mil

A primeira família fez a mudança nesta quarta-feira, 29

Resumo dos Investimentos

Governo do Estado

  • R$ 24 milhões para a Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) construir as 240 casas
  • R$ 4 milhões pelo programa Praça da Cidadania

Prefeitura de Rio Preto

  • R$ 15 milhões na desapropriação do terreno e nas obras de infraestrutura para distribuição de água, esgoto, iluminação e pavimentação pública, entre outros

Gerando Falcões

  • ONG arrecadou R$ 15 milhões com a iniciativa privada
  • Desse valor, R$ 2,4 milhões irão para a edificação das moradias
  • O restante será usado em outros eixos do projeto, como os custos do atendimento habitacional provisório durante o período da construção das moradias, quando as famílias deixarão suas atuais residências até se instalarem nas novas unidades

Visitas

Durante a fase de instalação do projeto e de captação de recursos junto à iniciativa privada, a Favela Marte recebeu a visita de personalidades e
empresários (e alguns tornaram-se investidores)

Entre os que fizeram a visita estão

Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil

Luiz Carlos Trabuco, presidente do conselho de administração do Bradesco

Leonardo Framil, CEO da Accenture

Guilherme Benchimol, CEO da XP Investimentos

Bruno Setúbal, herdeiro do Banco Itaú

Ana Maria Diniz, filha do empresário Abílio Diniz e presidente do Instituto Península

Álvaro Garnero, nomeado Embaixador do Turismo Brasileiro pela Embratur

Murilo Duarte,influenciador digital conhecido como Favelado Investidor

Dados da favela

  • 247 famílias
  • 634 moradores
  • 39% dos moradores têm menos de 18 anos
  • R$ 199,00 é a renda per capita de habitações que têm crianças e adolescentes
  • 54% dos moradores são adultos. Sendo 19% entre 18 e 30 anos e 35% entre 30 e 60 anos
  • 52% dos responsáveis familiares são mulheres
 
Grupo Diário da Região.© Copyright 2022É proibida a reprodução do conteúdo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por