Ainda polêmica, linguagem neutra ganha espaço no Brasil
Especialistas ponderam que é cedo para se impor mudança, outros defendem que construção de uma nova norma deve ter ampla participação popular

Nesta semana, um assunto repercutiu nos portais de imprensa de todo Brasil e provocou debates acalorados nas redes sociais. Pela primeira vez, a Agência Brasil, site de notícias do Governo Federal, utilizou linguagem neutra em uma reportagem.
O título da notícia já dava o tom da narrativa: "Parlamentares eleites reúnem-se pela primeira vez em Brasília". Dentro do texto, outras palavras foram flexionadas para evitar a binaridade dos gêneros masculino e feminino: “deputades” e “candidates”.
O brasileiro, que viu o ex-presidente Jair Bolsonaro proibir apologia à linguagem neutra, assiste agora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros adotarem "todes" em eventos oficiais.
Linguagem Neutra
A linguagem neutra consiste em transformar artigos, pronomes e substantivos identificados como masculinos e femininos em informação sem gênero. Como "todes", ao invés de todos; "elu", para substituir ele ou ela; ou “amigue”, para se referir a amigo ou amiga.
A ideia visa incluir na gramática e na comunicação pessoas que não se identificam nem como homem, nem como mulher: os não-binários.
"Sempre gostei de misturar roupas femininas com masculinas. Usar maquiagem. Mas não me identifico como mulher, tanto que nunca fiz tratamento hormonal. Também não me percebo exclusivamente como homem. As minhas expressões não são limitadas como feminina ou masculina", explica a cantora e performer Lucca Lourenço.
Autor do livro “Manual Prático de Linguagem Inclusiva”, André Fischer diz que a proposta de alteração dos marcadores de gênero é um movimento ideológico e político que visa o reconhecimento da multiplicidade de indivíduos.
"A língua portuguesa é um organismo vivo, que se modifica conforme a cultura e o tempo. Se a linguagem neutra for adotada pelas pessoas, a despeito da norma culta, com o tempo ela vai se impor nas narrativas", diz. Fischer pondera, no entanto, que a pauta deve ser discutida e que ainda é cedo para propor essa mudança nas escolas, por exemplo.
Amanda Talhaferro, que também se reconhece não-binária, é a favor da inclusão da linguagem neutra na sociedade, mas a considera apenas uma pauta, frente a outras urgências na comunidade binarista.
"Eu sou masculina demais pra ser mulher e feminina demais pra ser homem. Então eu sou o que? Vivo nesse lugar de não pertencimento, porque a sociedade é pautada no conservadorismo. Não basta transformar a linguagem. É preciso reconhecer que a gente existe".
Neste domingo, 29, o Brasil celebra o Dia da Visibilidade Trans.
Mudança ponderada
Renata Azevedo, diretora pedagógica do Colégio Cívico Militar de Rio Preto, acha que a mudança da linguagem precisa acontecer de forma ponderada, para inclusive, não dificultar o processo de alfabetização.
“Primeiramente, a linguagem neutra não é inclusiva, já que exclui indivíduos binários, além de dificultar a alfabetização daqueles com alguma disfunção cognitiva. Além disso, o gênero, em língua portuguesa, é determinado pelo artigo e não pela vogal temática: o estudante/ a estudante. Assim, é melhor usar a língua de modo inclusivo - o que muitos já têm feito - do que mudar o processo histórico e cultural de um idioma”, explica.
Para o presidente da Associação Brasileiras de Escritores, João Paulo Vani, a mudança de termos da língua é um processo histórico, feito ao longo do tempo, com as evoluções na forma que a sociedade se comunica.
“O que as pessoas estão chamando de linguagem neutra é um tipo de inclusão, como dizia a professora Maria Helena de Moura Neves, da Unesp de Araraquara. Mas a mudança linguística tem que vir da própria comunidade com o passar dos anos. Por exemplo, o termo vossa mercê foi modificado ao longo dos anos até chegar à palavra você. Não foi uma modificação imposta”, afirma o presidente.
Vani diz que antes das mudanças dos pronomes de tratamento tem que vir a evolução da população, que precisa ser ensinada a respeitar diversidade, para na sequência compreender a importância daquela alteração linguística. (Colaborou Marco Antonio dos Santos)
Nas universidades, pesquisas debatem a linguagem neutra
No meio acadêmico, pesquisas já estão sendo produzidas com o objetivo de enriquecer o debate e estabelecer referências bibliográficas, ainda escassas, sobre o tema. Formada em Letras, Isabelle Ruiz Paggioro teve a tese de mestrado “Como pensar educação literária trans inclusiva” aprovada na Unesp de Presidente Prudente.
“Na língua portuguesa só temos dois gêneros, o masculino e o feminino. E, desses dois, um é predominante. A gente precisa questionar por que, em uma sala com 50 mulheres e um homem, temos que falar boa tarde a todos, e não a todas”, afirma.
Para a pesquisadora, a adesão à linguagem neutra está saindo dos grupos LGBTQIA+ e ocupando os espaços de debate. As redes sociais amplificaram o tema.
Mônica Galindo, professora do Departamento de Educação da Unesp/Ibilce, diz que a construção de uma nova norma deve ter ampla participação popular.
“Assim como as questões ligadas às mulheres - como a pouca presença de mulheres em algumas profissões, a violência contra a mulher, as diferenças salariais entre homens e mulheres, o uso naturalizado de uma linguagem sexista e machista - não são um problema só das mulheres, mas um problema de toda a sociedade. E, como tal, precisa ser pensado, discutido e demanda ações de todas as pessoas. As questões ligadas à luta pela defesa, pela visibilidade e pelos direitos das pessoas trans são lutas de todos nós”. (JT)