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DOAÇÃO HISTÓRICA

Rio-pretense doa 'Diário de Guerra' de príncipe brasileiro a museu de Petrópolis

Rio-pretense faz doação histórica para o Museu Imperial de Petrópolis: um diário do príncipe dom Luiz de Orleans e Bragança com relatos da Primeira Guerra Mundial

por Luciana Vinha
Publicado em 28/06/2022 às 20:14Atualizado em 29/06/2022 às 06:21
Maria Celina Soares de Mello e Silva, responsável pelo arquivo histórico do Museu Imperial de Petrópolis (RJ) com o “Diário de Guerra” (Divulgação)
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Maria Celina Soares de Mello e Silva, responsável pelo arquivo histórico do Museu Imperial de Petrópolis (RJ) com o “Diário de Guerra” (Divulgação)
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Um soldado escreveu em um diário os relatos do que viveu durante os combates da Primeira Guerra Mundial (de 1914 a 1918). Poderia ser uma história comum, já que milhares de pessoas lutaram nos conflitos do início do século passado na Europa. Mas um detalhe faz toda a diferença: o autor dos textos é dom Luís de Orleans e Bragança, filho da princesa Isabel que atuou como soldado no combate. E a história se liga a Rio Preto, porque o advogado e colecionador de objetos monárquicos Jorge José Bitar, 64 anos, era o detentor do livro. Neste mês, ele fez a doação do “Diário de Guerra” ao Museu Imperial, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro

O manuscrito traz relatos das experiências vividas pelo integrante da família real em 1914. Bitar conta que encontrou o item histórico em um antiquário do Rio de Janeiro, pouco antes da pandemia. Ele prefere não dizer quanto pagou pelo item, mas decidiu doar ao Museu Imperial, que trata especificamente do passado monárquico do Brasil e dos membros da família imperial, para tornar pública a documentação que é inédita, nunca foi publicada, e assim contribuir com historiadores, pesquisadores e escritores.

“Desde muito jovem, sou militante do Movimento Monarquista, e isso começou muito antes da instalação da Constituinte de 1988, que previa o Plebiscito em 1993 para o povo escolher entre parlamentarismo e presidencialismo, e monarquia e república. Percorri Rio Preto e região, em escolas, faculdades, sindicatos, igrejas e associações, defendendo a monarquia e o parlamentarismo. Possuo uma coleção de objetos monárquicos, como brasões, medalhas, autógrafos de príncipes, livros e outros, e quando vi que era o manuscrito do próprio príncipe dom Luís, logo me interessei”, afirma Bitar.

Para o colecionador, o material doado ao Museu Imperial, recebido com muita gratidão pela instituição e pela responsável pelo arquivo histórico, Maria Celina Soares de Mello e Silva, é um registro importante para a preservação da história, porque se trata de uma documentação única, que descreve a grande tragédia que foi a Primeira Guerra Mundial, por meio de um relato escrito em primeira pessoa, por um príncipe brasileiro, que vivenciou o conflito. “Dom Luís combateu na Primeira Guerra Mundial, pelo exército britânico, e sofreu na pele os reveses da luta fratricida, que acabaram minando a sua saúde e o levando ao túmulo (ele morreu em 1919). Tal como o bisavô dom Pedro 1º, dom Luís lutou pela liberdade e pagou com a própria vida o heroísmo. Costumo pensar que o neto voltou à casa do avô dom Pedro 2º”, afirma Bitar.

Novas possibilidades

De acordo com a professora, arquivista e historiadora Maria de Fátima Moraes Argon, que foi pesquisadora do Museu Imperial de 1980 a 2018, e dirigiu o Arquivo Histórico da Instituição por 20 anos, a doação do “Diário de Guerra” certamente ampliará ainda mais o acervo do Museu Imperial, que é um dos mais ricos do País, e reveste-se de maior importância por ser a instituição que abriga o arquivo particular da família imperial, juntando-se a outros documentos de dom Luís e de sua rede familiar e social depositados no Museu.

Para Maria de Fátima, isso facilitará o trabalho dos pesquisadores que, na maioria das vezes, lutam na localização de fontes, dificultada pela dispersão dos documentos. “Até hoje são conhecidos somente fragmentos do ‘Diário de Guerra’ escrito por dom Luís, publicados na Revista do Livro, em março de 1960, portanto, a possibilidade de conhecer e acessar o documento na íntegra será fundamental para a sua análise e abrirá novas possibilidades de reflexão e estudo”, afirma.

Dom Luís tentou restaurar a monarquia no Brasil

Segundo a biógrafa de dom Luís, a professora Teresa Malatian, no dia 12 de maio de 1907, véspera da comemoração da Lei Áurea, Luís Gabriel, ou seja, o príncipe dom Luís de Orleans e Bragança, filho da princesa Isabel e de Luís Filipe Maria Fernando Gastão, o Conde d’Eu, retornou ao Brasil após 17 anos, a bordo de um transatlântico, na baía de Guanabara, acontecimento que movimentou a capital da República e atraiu curiosos. O jovem havia deixado o país aos 12 anos de idade, quando foi exilado com a família imperial na sequência do golpe que pôs fim à monarquia no Brasil.

Ousado, dom Luís considerou superada a restrição de entrada de sua família no país, ainda não revogada oficialmente, inclusive noticiando aos jornais da cidade com o intuito de conseguir apoiadores e provocar uma reação do governo do presidente Afonso Pena. Ouvindo o advogado e diplomata Rui Barbosa, o presidente julgou prudente impedir o desembarque, para evitar acender o ânimo do movimento monarquista, cujo objetivo era a restauração do trono, episódio que gerou grande repercussão nos meios políticos. Dom Luís passou por Santos, cidade em que novamente se viu impedido de desembarcar pela polícia, e seguiu viagem rumo a Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia.

“Sua figura jovem, bem-apessoada, com formação militar, seu interesse pelo Brasil e pela política valeram-lhe ser apontado pelos contemporâneos como o ‘príncipe perfeito’, o primeiro desde a queda da monarquia a assumir o papel de pretendente ao trono, que mais tarde seria também, com muito menor intensidade, assumido pelo seu filho mais velho, dom Pedro Henrique”, pontua a biógrafa.

Depois de assumir a posição de herdeiro, dom Luís lançou um manifesto com a intenção de reunir os monarquistas dispersos, retomar a propaganda da causa e fundar novos centros de militantes. No entanto, não obteve sucesso, e mesmo após conquistar adeptos no Rio Grande do Sul, no Ceará e no interior de São Paulo, o manifesto não conseguiu reunir os monarquistas nacionalmente.

“O manifesto revelava o pensamento de um jovem interessado em renovar a causa monárquica no Brasil, por isso foi rejeitado pelos velhos líderes que, agarrados à tradição, confiavam mais na princesa Isabel do que nas novidades propostas por seu filho impetuoso”, afirma Teresa.

“Em 1919, faleceu após enfermidade longa que o atingiu durante a Primeira Guerra. Não alcançou a revogação do banimento da família imperial, comemorado em 1920 com o repatriamento dos restos mortais de dom Pedro 2º e Teresa Cristina, de que participaram seu pai e o irmão dom Pedro de Alcântara. Retida na França pela enfermidade que a levaria em 1921, princesa Isabel também não conseguiu rever o Brasil”, revela Teresa. (LV)