SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2022
TERRA DOS APOSENTADOS

Metade dos municípios da região de Rio Preto tem mais aposentados que trabalhadores na ativa

Na maioria dos municípios, economia é pouco dinâmica e depende da administração pública

Rone Carvalho
Publicado em 16/10/2021 às 17:57Atualizado em 17/10/2021 às 07:36
João Reina, 82 anos, na tradicional bocha de Uchoa, cidade que contabiliza mais aposentados do que trabalhadores com carteira assinada (Johnny Torres 14/10/2021)

João Reina, 82 anos, na tradicional bocha de Uchoa, cidade que contabiliza mais aposentados do que trabalhadores com carteira assinada (Johnny Torres 14/10/2021)

Mais da metade das cidades da região de Rio Preto possui mais aposentados e pensionistas do que trabalhadores na ativa. São cidades com economia pouco dinâmica, dependentes diretamente da administração pública e que ao mesmo tempo que atraem idosos, afugentam jovens. Ou seja, funcionam como “cidades dormitório”.

É o que mostra levantamento feito pelo Diário com base em dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). No total, o Noroeste Paulista – 116 municípios – concentra 367.180 aposentados e pensionistas. O número de trabalhadores formais chega a 501.693. Em 62 municípios, mais da metade do total, são 105.301 pessoas que já pararam de trabalhar, enquanto 73.116 continuam na ativa e mantêm a roda da economia girando.

Terra dos aposentados é o tema da primeira reportagem da nova série especial do Diário da Região: “Uma vida pela frente”, que vai mostrar como vivem os idosos no Noroeste Paulista. Na primeira reportagem, como o interior de São Paulo virou terra dos aposentados e os impactos disso economicamente.

Santa Rita d’Oeste, a 193 quilômetros de Rio Preto, lidera o ranking de aposentados e pensionistas em proporção ao número de habitantes no noroeste do Estado. Lá, 42% da população vivem da aposentadoria ou de pensões por morte. Em contrapartida, apenas 117 santa-ritenses trabalham com carteira-assinada (4,7%), em empregos gerados pela prefeitura ou no comércio.

A tranquilidade e o menor custo de vida são apontados como principais razões para a região de Rio Preto atrair cada vez mais aposentados. Há dez anos, Marli Silva Cordeiro, de 69 anos, escolheu Uchoa para chamar de sua cidade. A proximidade com Rio Preto e o preço baixo dos imóveis atraíram a aposentada. “Antes, morava em São Paulo, mas quando meu marido aposentou resolvemos nos mudar para o interior. A única coisa que é difícil aqui é o calor”.

Quem também resolveu mudar para o interior ao se aposentar foi Maria Aparecida dos Santos, de 65 anos. “Já morei em São Paulo, mas gosto de Uchoa porque é tranquilo. Quando me aposentei não pensei duas vezes a não ser se mudar pra cá”, disse uma das 1.398 aposentadas da cidade.

Uchoa é um dos 62 municípios da região de Rio Preto que tem mais aposentados e pensionistas do que trabalhadores com carteira assinada. A maioria deles está nos menores municípios, como Catiguá, Dolcinópolis, Irapuã, Macedônia e Magda. Em Rio Preto, são 74.161 aposentados e pensionistas, o equivalente a 15,8% dos rio-pretenses. Na contramão, a cidade concentra 140.850 empregos formais, segundo o Caged.

E quem vem normalmente aquecer o mercado de trabalho de Rio Preto são, justamente, os filhos dos aposentados desses pequenos municípios que, normalmente, “fogem” em busca de oportunidades nos maiores municípios. "Tenho um filho e uma filha que trabalham em Rio Preto. Eu não penso em mudar daqui, porque é uma cidade tranquila, mas para eles é melhor. Tem mais oportunidades”, disse o aposentado Rubens Minguetti, 68 anos, morador de Uchoa.

Silvana Nespoli, 52 anos, é uma das 499 pensionistas de Uchoa (Johnny Torres 14/10/2021)

Incentivo

Para especialistas, os números reforçam a necessidade de um maior incentivo estatal para geração de emprego nos pequenos municípios da região. “Nessas cidades, iniciativas do governo como o auxílio emergencial têm um impacto enorme porque mudam a vida econômica. Em Rio Preto, o impacto do auxílio não é tão grande como nessas cidades, pois é onde existem menos vagas de emprego. Sem contar que muitas vezes a aposentadoria, ou seja, o rendimento do idoso, é o único meio para sustentar a família”, apontou o economista da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Roberto Feldmann.

Já o economista e sociólogo Ary Ramos diz que a tranquilidade do interior de São Paulo incentiva que muitos moradores da capital procurem o Noroeste Paulista para chamar de novo lar. “O que percebemos de 20 anos pra cá é uma diminuição dos empregos formais. Houve um incremento da informalidade, principalmente, o empreendedorismo. E isso também acontece nas pequenas cidades, contribuindo para termos mais aposentados do que trabalhadores formais”, acrescentou.

Os dados compilados pelo Diário também mostram uma falta do dinamismo econômico das pequenas cidades, que convivem diretamente com a falta de empregos. É como se a “balança” nestas cidades não ficasse equilibrada, mas sim desproporcional para o lado de aposentados e pensionistas.

"Tem uma grande quantidade de pessoas na idade ativa que estão trabalhando, mas que estão no mercado informal, ou seja, não contribuem com a previdência. Essas pessoas mesmo não tendo contribuído acabam conseguindo uma aposentadoria. E isso é preocupante para o futuro econômico do Brasil”, afirmou José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Clique aqui para ver tabela com  número de aposentados 

Igreja e mercado são passeios em cidades

Jandira Coutinho, 80 anos, não deixa de ir ao mercado de Uchoa: “para distrair a cabeça”

Da tradicional missa até a compra no mercado local. Passeios simples para quem mora em cidades maiores, mas que para os aposentados das menores cidades do Noroeste Paulista são motivos de alegria e sair de casa. "Hoje mesmo limpei a casa todinha. É tão bonito ver tudo brilhando”, diz a aposentada Jandira Coutinho, 80 anos.

Moradora de Uchoa, desde quando se lembra por gente, como ela mesmo diz, Jandira tem como hobby costurar. Nas horas vagas, adora fazer suas orações para Nossa Senhora na paróquia local e suas compras no mercado da cidade. “Moro no sítio, mas sempre venho na cidade. Adoro morar em Uchoa”.

Quem também não pensa em se mudar da cidade é João Reina, de 82 anos. Faça chuva ou sol, todos os dias ele vai encontrar os amigos para jogar baralho e bocha. “É costume. Sempre vem o pessoal no final da tarde jogar e distrair a cabeça. Gosto dessa vida que eu levo”.

Proprietária de uma sorveteria na região central, Elenir Azevedo Gongalves, de 46 anos, conta que somente com um passeio por Uchoa já possível notar que na cidade existem mais aposentados do que trabalhadores formais. “Muita gente daqui trabalha em Rio Preto. Uchoa serve como cidade dormitório”, diz a comerciante. “Na sorveteria mesmo, a maioria dos que vêm comprar são aposentados. Jovens são poucos, só quando vêm visitar a família”.

Silvana Nespoli, de 52 anos, também faz parte das estatísticas. Após perder o marido para Covid-19, ela é pensionista pelo INSS. “Nunca saí de Uchoa e não penso em fazer isso. Tenho filhos que moram até hoje aqui. Gostamos da cidade, principalmente porque não é tão longe de Rio Preto”.

José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, destaca que o custo de vida menor também é atrativo para as menores cidades. “Qualquer cidade da região de Rio Preto tem um custo de vida menor que São Paulo. Em cidades menores o custo do transporte é baixo e são cidades com um bom sistema de saúde. Por isso que muita gente ao se aposentar volta para as cidades de origem para descansar”. (RC)

Tranquilidade atrai

No Brasil, o fenômeno da dependência da renda de aposentados é mais forte no Nordeste, por fatores socieconômicos, e no Sul, onde o envelhecimento da população ocorre de forma mais acelerada. Contudo, a busca por tranquilidade e qualidade de vida fez o interior de São Paulo viver o mesmo fenômeno nos últimos anos.

“Nessas cidades, o prefeito também é pressionado por conta de baixa receita. Isso porque muitos precisam mendigar dinheiro para o governo estadual e para União para investir na cidade. Não é à toa que sempre temos caravanas de prefeitos na Câmara dos Deputados e no Palácio dos Bandeirantes. Essa falta de receita nesses municípios dificulta ainda mais a situação de geração de emprego nas pequenas cidades”, afirmou o professor de contabilidade e atuária da Universidade de São Paulo (USP), Luiz Jurandir Simões de Araújo.

Para ele, fortalecer o comércio local, incentivar o turismo e o registro com carteira assinada são atividades que podem ajudar as cidades a reverter as contas. “Vários municípios poderiam investir em questões turísticas e culturais. Tudo para atrair investimentos e gerar empregos, mas o Estado precisa ajudar”. (RC)

Silvana Nespoli, 52 anos, é uma das 499 pensionistas de Uchoa (Johnny Torres 14/10/2021)

 
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