SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 22 DE MAIO DE 2022
INVASÃO ARGENTINA

Invasão de arraias no rio Tietê acende alerta nas prainhas da região

Arraias invadem afluentes do rio Tietê e acendem alerta para acidentes nas prainhas da região de Rio Preto. Construção da Usina de Itaipu mudou curso dos peixes, segundo pesquisadores

Rone Carvalho
Publicado em 07/05/2022 às 17:29Atualizado em 08/05/2022 às 07:52
Arraia encontrada por pescador no rio Tietê (Divulgação/ Unesp de Botucatu)

Arraia encontrada por pescador no rio Tietê (Divulgação/ Unesp de Botucatu)

Os rios da região de Rio Preto estão ganhando novos moradores nesses últimos anos. São arraias de água doce, das espécies do gênero Potamotrygon, que são comuns no rio Paraná da Argentina, mas que estão invadindo os afluentes do Tietê, após a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. A constatação foi feita por meio de uma pesquisa da Unesp de Botucatu.

Apesar de serem dóceis, os animais ferroam quando pisados ou manipulados de maneira errada. O seu formato de disco e corpo recoberto de bolinhas também confundem pescadores e banhistas, o que acende um alerta para as prefeituras da região de Rio Preto para a realização de campanhas educativas e de como proceder em caso de acidente.

Segundo o professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Vidal Haddad Júnior, a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu é o que explica o aparecimento desses peixes cartilaginosos no rio Tietê. “A arraia é um bicho da fauna brasileira, mas que existia apenas nos rios da Amazônia e Pantanal, não existia nesta região. Mas quando fizeram a Itaipu, elas tiveram acesso a Sete Quedas, que era uma barreira natural e começaram a subir o rio Paraná, chegando ao Tietê”.

A pesquisa aponta que, em cerca de 30 anos, os peixes avançaram 140 quilômetros acima do rio Tietê. Entre as cidades que já tiveram aparecimento de arraias de água doce estão Ilha Solteira, Itapura, Andradina, Pereira Barreto, Araçatuba, Sud Mennucci, Santo Antônio do Aracanguá e Buritama.

Outra cidade que também já constatou o aparecimento de arraias é Santa Albertina, que chegou a instalar placas informativas para o risco de acidentes na prainha municipal, o que indica que os peixes também já estão presentes no rio Grande. “A questão delas é inevitável, o importante agora é uma campanha educativa das prefeituras para banhistas e pescadores, com o objetivo de evitar acidentes”, apontou Vidal.

Autora de uma pesquisa de doutorado, a enfermeira Isleide Saraiva Rocha Moreira, monitorou durante três anos o aparecimento das arraias no rio Tietê, por meio de pescadores que começaram a encontrar arraias durante a pesca. “O registro mais longevo que fizemos na pesquisa de arraia foi em Buritama, mas a tendência é que ela continue avançando o Tietê”.

Isleide explica que diferente de outros peixes, as arraias de água doce encontradas na região de Rio Preto se reproduzem durante todo o ano. “Ela não pega o período de novembro a janeiro, como outros peixes para se reproduzir. Durante todo ano existe reprodução e não temos um predador natural, o que facilita sua rápida propagação pelo rio”.

 Prevenção

Pesquisadores alertam que para evitar acidentes são necessárias campanhas educativas das prefeituras junto a pescadores e a instalação de placas indicativas nas prainhas da região de Rio Preto, como forma de alertar os turistas. “Não é evitar que o turista entre na água, mas apenas alertar de como proceder na água e caso encontrar o peixe. São espécies dóceis, a questão é quando manipuladas de maneira errada”, alertou Vidal.

Entre as orientações para evitar acidentes estão andar com cuidado na água, evitando arrastar o pé sobre a areia ou no lodo; verificar se há arraias ou marcas de sua presença na areia ou em volta do barco.

Já em caso de acidente, Isleide alerta que a primeira medida é procurar atendimento médico, pois pode haver infecções e quebra dos ferrões. “A dor é muito grande e as pessoas que já foram aferroadas apontam que a dor é parecida com uma faca. A orientação inicial é colocar água quente como forma de aliviar a dor e procurar atendimento médico”, aconselhou.

A expectativa é de que, com a pesquisa, os pesquisadores consigam mobilizar prefeituras para adotar planos educativos e até preparar as unidades de saúde para acidentes. Não existe na região um levantamento de quantas pessoas foram ferroadas por arraias nos últimos anos. “Apesar de não matar, traz muitos problemas, pois o veneno é necrótico e causa muita dor na hora do acidente. A pesquisa é um alerta.”

FICHA TÉCNICA

Nome (científico)

  • Arraias de água doce (Potamotrygon amandae e Potamotrygon motoro)
  • Tamanho - 20 cm a 25 cm
  • Peixes subiram cerca de 140 km rio acima em aproximadamente 30 anos
  • A pesquisa mostrou que as arraias fluviais estão presentes no rio Tietê, desde o início dos anos 2000
  • Possuem na cauda ferrão retrosserrilhado, coberto por muco com toxinas que podem causar ferimentos com dor intensa e necrose da pele (grandes feridas)
  • Só ferroam se pisadas ou manipuladas, de outra forma são inofensivas e até dóceis

Cidades com presença de arraias no rio Tietê

  • Ilha Solteira, Itapura, Andradina, Pereira Barreto, Araçatuba, Sud Mennucci, Santo Antônio do Aracanguá e Buritama

Como evitar acidentes

  • Andar com cuidado na água, evitando arrastar o pé sobre a areia ou no lodo
  • Antes de colocar o pé na água, verificar se há raias ou marcas de sua presença na areia ou ao redor do barco
  • Fazer ‘soçoca’ com um pau, mexendo na água para espantar as arraias

Em caso de acidentes

Primeiro, o ideal é sair da área e não tentar capturar o animal

Procure atendimento médico, pois pode haver infecções e quebra dos ferrões

Água quente (mas não fervente) possuem propriedade que quebram a proteína do veneno e aliviam a dor

Evitar fazer torniquetes ou aplicar compressas de gelo

Fonte: Professor Vidal Haddad Junior e enfermeira Isleide Saraiva Rocha Moreira, Faculdade de Medicina, Medicina Veterinária e
Zootecnia da Unesp de Botucatu

Pescador de Buritama com arraia durante a pesca (Divulgação)

Exemplar da Potamotrygon rex, comum nos rios de água doce (Jim Capaldi/Wikimedia Commons)

 
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